25/09 - 13:55 - Rodrigo Ledo – Último Segundo/Santafé Idéias
Os controladores de vôo militares, que correspondem a cerca de 80% dos controladores do País, têm estado quietos nos últimos tempos, mas a qualquer momento podem dar vazão à "revolta reprimida". A expressão foi usada pelo presidente da Associação Nacional dos Controladores de Tráfego Aéreo, Jorge Botelho, que durante toda a crise foi o porta-voz da categoria. Segundo ele, a Aeronáutica tem sido mais dura com os operadores militares. Em contrapartida, Botelho admite que o governo avançou na questão salarial da parte civil da categoria.
US/Santafé – Os controladores militares têm estado quietos nos últimos meses. Isso seria um sinal de acomodação ou de enquadramento pela Aeronáutica? Como o Sr. avalia a atual situação?
Jorge Botelho - Está um ambiente muito ruim ainda. O pessoal está calado, mas não tem mais aquela dedicação, aquela vontade. Continua havendo atritos. Os oficiais mais baixos querem mostrar serviço para os oficiais superiores, para o governo, e criam um clima terrível. É uma situação de assédio moral, eu diria, com ameaças.
US/Santafé – A substituição no comando da Aeronáutica (feita em fevereiro) contribuiu para isso?
Botelho - O comandante Juniti foi chamado justamente para massacrar. Alguns deles (controladores) estão presos pelo movimento (operação-padrão) de 30 de março. Esse clima de "perdemos a Copa do Mundo" está acontecendo entre militares e até civis, mas pelo menos a gente (civil) tem liberdade para lutar.
US/Santafé – O Sr. acha que esse clima pode resultar em novas operações-padrão ou outras conseqüências graves para a aviação?
Botelho - A verdade é que o pessoal está com alguma coisa reprimida, uma revolta reprimida, que temos até medo que algum momento isso exploda. Não dá tranqüilidade para as operações, apesar de estarmos numa fase de baixa estação, sem contar as atitudes do ministro da Defesa (Nelson Jobim) que colocaram uma certa ordem nas companhias aéreas, e que tenha evitado ficarem colocando aeronaves a torto e a direito.
US/Santafé – Qual sua avaliação sobre a postura do ministro em relação à situação dos controladores?
Botelho - A gente acredita que a posição do ministro da Defesa tem sido dura e o comando da Aeronáutica vá ter atenção melhor com os equipamentos (de controle de tráfego). Estamos aguardando o ministro nos chamar para conversar (sobre questões de carreira e salarial).
US/Santafé – Uma das reivindicações da categoria era salarial. Isso avançou?
Botelho - Tivemos reuniões na Secretaria de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento. A última foi em 4 de setembro e a próxima será no dia 25. Nessas reuniões discutimos propostas de criação de uma carreira para os controladores de tráfego aéreo, mas para os civis. Nos moldes que pleiteamos também agrada ao pessoal militar, mas aí é uma discussão que envolve outros órgãos, como Ministério da Defesa e Casa Civil, para juntar numa carreira todo mundo.
US/Santafé – Ou seja, a primeira etapa seria a discussão da situação dos civis...
Botelho - Na reunião do dia 4 acordamos que numa primeira etapa vamos trabalhar a proposta de terminar as distorções salariais do pessoal civil. Pode ser que a gente avance para o estabelecimento de parâmetros salariais que serão definitivos. Essa tabela salarial (dos civis) está muito enrolada, tem muita gratificação, você se aposenta e perde essas gratificações, mas contribui (para a aposentadoria) sobre elas. É uma séria distorção. Outra coisa é que o pessoal que entrou agora (em contratações emergenciais de controladores feitas pelo governo) ganha que quem está há 30 anos no Dacta (grupo de controladores civis).
US/Santafé – E qual a perspectiva de atender aos controladores militares, seja com aumentos ou com a desmilitarização?
Botelho - Essa já é uma questão que precisa ser mais bem trabalhada. A desmilitarização está sendo discutida na cúpula do governo. Pelo que sei, os relatórios das CPIs (do Apagão Aéreo, na Câmara dos Deputados e Senado) dizem que tem que ser feita. Isso ajuda.
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