25/09 - 14:18, atualizada às 20:18 25/09 - Mariana Lanza, do Último Segundo
Um ano depois do acidente com o avião da Gol, em 29 de setembro, na Floresta Amazônica, os familiares das vítimas ainda vivem com a dúvida do que teria provocado a colisão, com a saudade e na busca por justiça.
Rosane Gutjahr, viúva de Rolf Gutjahr
“Então não vou ter mais meu travesseiro gostoso?”, perguntou Luiza, de 4 anos, quando soube da morte de seu pai, Rolf Gutjahr. O empresário estava no Boeing da Gol que caiu no Mato Grosso, em setembro do ano passado. Luiza era muito apegada ao pai. Ela
![]() |
costumava deitar na barriga dele e falar que era seu travesseiro. Durante meses depois do acidente, a menina almoçava com a foto de Rolf em cima da mesa, assistia aos vídeos do pai, só dormia depois de sentir seu perfume e ainda dizia que queria morrer para revê-lo.
Rolf Gutjahr viajava a Manaus toda segunda-feira e voltava para Curitiba as sextas para passar o final de semana com a família. “O Rolf tinha um coração do tamanho do mundo, era o suporte da família dele, da minha, era meu ombro, minha vida”, diz a viúva Rosane Gutjahr.
O empresário, de 50 anos, foi identificado por meio do celular da esposa que estava intacto no bolso da camisa que ele vestia. Indignada, Rosane quer que os culpados pela tragédia sejam punidos. “Estamos lutando com garra para que tenhamos resposta à nossa dignidade e à dignidade das pessoas que morreram”, desabafa.
A viúva de Rolf Gutjahr ainda conta que uma “mistura de sentimentos” tem feito parte do seu dia-a-dia no último ano. “É saudade, raiva, ódio, um vazio na barriga, no peito, na vida. Estou mal, revoltada, com saudade, me sentindo indefesa, sozinha. Não sei até quando vou agüentar. Estamos (parentes das vítimas) vivendo porque temos filhos”.
Angelita de Marchi, viúva de Plínio Siqueira (Diretora da Associação de Familiares e Amigos das Vítimas do Vôo 1907)
Angelita de Marchi foi buscar o marido no Aeroporto de Viracopos, em Campinas, no dia 29 de setembro de 2006. O avião aterrissou às 20h34, sem os passageiros que tinham de fazer conexão em Manaus.
![]() |
| Angelita e o marido, Plínio Siqueira Jr. |
Estranhando as ausências, os familiares perguntaram aos atendentes da companhia aérea se eles haviam perdido a conexão, mas não obtiveram resposta. Mais tarde, a imprensa divulgou que um avião da Gol estava desaparecido. “Nunca podia imaginar o que tinha acontecido. É como se tivessem tirado o chão debaixo dos meus pés”, diz Angelita, diretora da Associação dos Familiares e Amigos da Vítimas do Vôo 1907. A viúva de Plínio Siqueira Jr. ficou 48 horas sem dormir. “Tinha saído do trabalho e comprado uma surpresa pra ele”, completa.
Plínio e Angelita estavam juntos havia três anos e planejavam ter um filho. “Tínhamos visitado uma clínica de fertilização e queríamos uma menina”. Ela tem dois meninos do primeiro casamento e ele um casal. “Às vezes, meus filhos falam que vivo muito em função da associação, mas essa foi a forma que encontrei de lidar com a dor. Pra mim, a vida perdeu um pouco o sentido. Vivo mesmo pelos meus filhos”, afirma.
Luciana Siqueira, irmã de Plínio Siqueira
“Nunca vou esquecer isso”, disse Luciana Siqueira sobre um fato que aconteceu após a queda do Boeing 737 da Gol, no Mato Grosso, em setembro de 2006. Luciana é irmã de Plínio Siqueira Jr., de 38 anos, uma das 154 vítimas da tragédia envolvendo um avião da companhia aérea e um jato Legacy.
Assim que soube do acidente, ela viajou a Brasília, para onde os corpos resgatados dos escombros eram levados. O Instituto Médico Legal só trabalhava no horário comercial, o que era muito criticado pelos familiares. Um dia de manhã, Luciana Siqueira concedeu entrevista para uma emissora de televisão em frente a um caminhão cheio de vítimas da tragédia que estava estacionado na porta do IML, para falar sobre a demora na identificação dos corpos. À tarde, teve a informação de que o corpo de Plínio estava dentro daquele caminhão.
“Até ele ser identificado pelo IML, tinha esperança de encontrá-lo vivo. Minha família nunca mais vai ser a mesma”, declara a professora.
Seis meses antes da tragédia, Luciana e Plínio perderam seu pai. Com a morte do irmão, a professora de Campinas entrou em depressão e precisou parar de trabalhar por dez meses, pois perdeu os movimentos das mãos e das pernas.
Janice Honorato Campos, mãe de Rosana e avó de Pedro
Janice Honorato Campos enfrenta problemas para trabalhar desde o dia 29 de setembro de 2006. Um ano após o acidente com o Boeing 737 da Gol, a designer não tem inspiração e nem produz como antes. Ela
![]() |
| Rosana com o filho, Pedro |
Rosana era a filha mais velha de Janice e Antonio Carlos da Silva Magalhães. Quando aconteceu a tragédia, todos os outros três filhos do casal moravam fora de Goiânia, cidade natal da família. “Depois meus filhos foram voltando pra casa. Minha família é muito abençoada, muito estruturada, unida”, diz Janice.
Nos dias seguintes ao acidente, os parentes de Rosana ficaram em Brasília, para onde os corpos das vítimas eram levados. Em estado de choque, o viúvo Welker Cristiano Oliveira Peixoto só conseguiu embarcar à capital federal acompanhado de seus familiares. “Ele passava mal no aeroporto e não conseguia embarcar”, afirma a designer.
Peixoto estava no quarto ano do curso de Medicina em Manaus e trabalhava em um hospital da cidade. “O Cris foi exonerado por não ter condições psicológicas de trabalhar”, diz Janice. Atualmente, ele estuda para se formar médico e mora com os pais em Goiânia.
Anne Caroline Rickli, filha de Maria das Graças Bezerra Rickli
“Kátia, a mamãe morreu! Avião não desaparece”. Anne Caroline Rickli já sabia que tinha perdido sua mãe, Maria das Graças Bezerra Rickli, de 58 anos, quando foi notificada que o avião onde a aposentada estava tinha desaparecido.
Maria das Graças telefonou para sua filha Kátia quando estava dentro do Boeing 737 da Gol, em 29 de setembro de 2006, prestes a decolar em Manaus. Por isso, quando o vôo atrasou uma hora, Kátia telefonou para a irmã e disse que “estava achando tudo muito estranho”. Anne tentou tranqüilizá-la e comentou que ela estava muito estressada, mas a confirmação do sumiço da aeronave veio pouco tempo depois. No dia seguinte, os parentes foram informados que o avião tinha caído e não havia sobreviventes.
Ainda em luto, a família de Maria das Graças passou por uma situação delicada apenas quinze dias após a tragédia. O viúvo da aposentada recebeu uma ligação na qual informavam que o celular dela tinha sido encontrado no Rio de Janeiro. Além disso, o documento de identidade da vítima foi falsificado e usado para o financiamento de um carro de cerca de R$ 20 mil em Itaguatinga, no Distrito Federal.
Apesar da polêmica em torno do desaparecimento de pertences das pessoas que morreram no acidente, Anne espera a conclusão das investigações. “O desaparecimento dos pertences não é um caso isolado. Acho que aconteceu com várias famílias, como pode ser visto na CPI do Apagão Aéreo do Senado. Acredito que engloba várias famílias e é necessário o inquérito da Polícia Federal”, diz.
Leia também:
Leia mais sobre: Crise aérea
Publicidade
Mantega volta a falar de aumento de impostos para compensar CPMF, mas nega ameaça