25/09 - 15:58 - Bruno Soraggi, repórter Último Segundo
SÃO PAULO – Em um período inferior a um ano, o País assistiu a dois episódios que viriam a ser, sucessivamente, as duas piores tragédias da aviação brasileira. O primeiro deles, a colisão entre um Boeing da Gol e um jato executivo modelo Legacy, que causou a morte de 154 pessoas, completa, no sábado, um ano. Foi o início da crise aérea, que derrubou um ministro e causou transtornos a milhares de brasileiros. “O acidente com o avião da Gol foi um episódio no qual, além da tragédia em si, devemos lamentar a politização com que o tema foi tratado”, afirmou Alberto Dines, colunista do iG e um dos fundadores do projeto Observatório da Imprensa, em entrevista especial sobre um ano da crise aérea.
Para o jornalista, o País se aproveitou do acidente para fazer acusações. "A primeira delas foi de que a imprensa não deu devido destaque à tragédia, pois ficou mais preocupada em divulgar as fotos do dinheiro que seria usado na compra do Dossiê Vedoin", disse. "Então havia o discurso de que a mídia deixou a tragédia de lado para valorizar um episódio político. São acusações gravíssimas e levianas", completou. "Qualquer bom jornalista sabe que é perfeitamente possível dar os dois temas ao mesmo tempo, com manchete para um e foto para outro, por exemplo", afirmou o jornalista.
Outro fator importante para essa politização, segundo Dines, foi a atuação do então ministro da Defesa Waldir Pires. “Esquecendo da sua função e discrição que esta requisita, o ministro politizou tudo no início, pois, além de já responder aos pilotos e passageiros americanos que estavam no Legacy, ele tentava livrar o governo da culpa de algum problema do espaço aéreo, quando o mais importante era realizar os trabalhos de busca. Ao ministro, na época, interessava que a tragédia não tivesse ligação com nada do governo, em razão do 2º turno que chegava”. “Foi um momento no qual o Brasil agiu de forma pequena”, afirmou. “Ele [o ministro] deveria ter sido a última pessoa a se manifestar”.
Para Dines, esse episódio foi triste justamente por essa questão. “Todos estavam engolfados em um tal número de acusações que as mortes foram minimizadas. A politização da tragédia foi muito visível, o que não é bom para um País que pretende ser civilizado”, afirmou.
Já no choque do Airbus da TAM com o prédio na TAM Express, situado ao lado do Aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo, a “politização não chegou a se manifestar tanto”, de acordo com o jornalista. O acidente, que deixou 199 pessoas mortas no dia 17 de julho, aconteceu em uma terça-feira. “Na 5ª feira, a ‘Globo’ já soltava uma reportagem falando em problemas no reverso. É dessa época também a imagem do assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia”, lembrou Dines.
“Nesse segundo acidente, também, deve-se lembrar que já havia uma experiência trágica, o que fez com que as coisas se processassem com mais rapidez. “Se houve essa politização, eu acho que durou muito pouco”, completou.
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