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Preços atraentes estimulam consumo excessivo de tratamentos estéticos

03/09 - 00:05 - Agência Estado

A madrasta da Branca de Neve fez escola. Passados dois séculos desde a publicação do famoso conto de fadas, os espelhos femininos continuam a passar por constrangedores interrogatórios.

Rebeca, personagem de Elizabeth Savalla na novela "Sete Pecados", da Rede Globo, por exemplo, não se cansa de perguntar ao seu espelho se há personagem mais bela do que ela na novela.

Na dúvida, aposta em consertinhos: peelings, botox, plásticas em série e toneladas de cremes. "O pior é que tudo dá errado para a Rebeca. O peeling queima seu rosto, o botox a deixa de boca torta... Isso tudo parece ser bem engraçado, mas na verdade a novela está fazendo um alerta. Plástica não é maquiagem! Fui a um cirurgião para viver essa personagem. Ele me contou que essas situações são todas reais", comenta a atriz.

Profissionais que vivem da beleza também estão preocupados com o excesso de vaidade. "Cerca de 20% das pessoas que atendo vêm ao consultório por conta de algum procedimento malsucedido. Peelings que deixam manchas e preenchimentos imperfeitos são campeões de reclamações", relata Denise Steiner, coordenadora do Departamento de Cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

O médico Alexandre Passos, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), ressalta que a lei brasileira permite a um médico realizar todo tipo de procedimento. "Diante disso, você vê médicos que fazem um curso de fim de semana e saem fazendo plásticas. No caso do botox, até em salão de cabeleireiro se encontra. É bom lembrar que para se tornar especialista em cirurgia plástica, o profissional deve estudar no mínimo 11 anos. Procurar um especialista certamente reduz a chance de resultados insatisfatórios."

A cada ano, cerca de 500 mil pessoas passam por plásticas no Brasil, número inferior só aos índices dos EUA. "A popularização da plástica, preços mais atraentes e parcelamentos generosos são fatores que atraíram muita gente para a cirurgia plástica.

O barato, às vezes, sai caro. Uma cirurgia secundária, para corrigir algo, é sempre mais complicada", diz Mateus Kawasaki, também da SBCP.

Para o professor Marcelo Bellini, da Sociedade Brasileira de Dermatologia, a eterna insatisfação estética esconde problemas psicológicos. "Excesso de vaidade aprisiona. E atrelar a felicidade a isso é algo doentio. Poderia passar uma tarde inteira enumerando quantas pacientes já me pediram a boca da Angelina Jolie. Uma bocarra como aquela não fica bem em todo mundo. Estética não é fast food. É preciso analisar com calma se determinado procedimento é mesmo necessário, se os produtos usados são seguros", diz.

A banalização da plástica esbarra em casos extremos, nos quais a vaidade pode custar a própria saúde. Em 2004, o vocalista da banda LS Jack, Marcus Menna, sofreu uma parada cardíaca enquanto passava por uma lipoaspiração.

Naquele mesmo ano, Amada Palma Pinochet entrou em coma também enquanto tentava se livrar da barriguinha. E segue assim até hoje, em estado vegetativo "Dá uma raiva! Era para ela ficar ainda mais linda", desabafa a filha Estephânia, 21 anos. Na época, eu e minha irmã também queríamos fazer plásticas. Desistimos. Agora, só se for uma necessidade extrema." Amada, hoje com 51 anos, ainda está em coma.

NÚMEROS DA VAIDADE

Segundo um estudo feito em 30 países pela Roper Starch Wordlwide, o venezuelano é o povo mais vaidoso do mundo: 58% das pessoas pensam na aparência o dia todo

Brasil - O País ocupa o 7º lugar no ranking dos vaidosos. Por aqui, se pensa na aparência durante 30% do dia. O índice é bem superior à média mundial, que é de 19,5%.

Bronze - O Brasil já está no pódio da beleza: é o 3º maior mercado. Em 2006, foram consumidos US$ 13,8 bilhões em cosméticos por aqui. (Dados da Euromonitor International)

CINTURA FABRICADA EM CASA

A publicitária Íris Duarte, de 29 anos, sonhava com uma cinturinha de pilão desde os 13 anos. A avó sugeriu uma cinta, mas ela preferiu uma peça mais antiga: o espartilho, ou corset (variação com barbatanas feitas de aço), excluído do armário feminino pela primeira vez no século 18. Passados 300 anos, mulheres voltam a comprimir a silhueta para desenhar o "corpo de violão".

Em 2005, a cintura de Íris media 86 cm e, em fevereiro de 2006, passou para 76 cm - com o corset, chegava a 71 cm. "Parei porque eu estava ficando "fake". Tenho uma estrutura grande, começou a ficar estranho. Foi bom senso." A técnica de afinar a cintura por meio do corset é conhecida como tight lacing (TI).

As centenas de praticantes se reúnem em comunidades virtuais, nas quais encomendam peças sob medida. Entre os relatos, há manifestações de dor, falta de ar, noites mal dormidas e refeições interrompidas. "No comecinho eu sentia um incômodo, mas sofrimento só acontece quando a mulher aperta demais logo no início. Não se perde 10 cm em um dia. É como aparelho de dente, que o dentista vai apertando aos poucos", diz Íris.

A técnica divide os médicos. A Sociedade Brasileira de Traumatologia reprova o TI por considerar que o excesso de compressão pode causar danos irreversíveis. Íris, contudo, disse que recebeu aval de um especialista. "Como eu não tinha problemas ortopédicos, fui liberada."

MINI-ENTREVISTA

MARA PUSCH - , psicoterapeuta, sexológa e trabalha no projeto afrodite, da Unifesp/EPM

AGÊNCIA ESTADO - Vaidade, afinal, é positiva ou negativa ? MARA PUSCH - Quem é muito vaidoso, vangloria-se de tudo e tem a necessidade de mostrar para os outros que foi ele quem fez ou deixou de fazer, demonstra sua insegurança e deixa evidente a necessidade de chamar a atenção. A vaidade é a auto-estima que adoeceu, ou um sinal de inferioridade. A vaidade está quase sempre presente em nós. Por outro lado, a pessoa que se "abandona" e não se cuida também não consegue ter uma percepção adequada de si.

AE - Para a Igreja, vaidade é um pecado capital. Para a mídia, algo a ser exaltado sempre. Como podemos encarar esse paradoxo? MARA PUSCH - Para a Igreja Católica, a vaidade está também associada a orgulho e arrogância. Hoje, porém, a vaidade é mais usada para questões relativas à estética. Realmente há uma dicotomia no Brasil, porém a religião católica vem perdendo espaço no País. Aquele que se diz católico não necessariamente segue os princípios da religião.E aquele que os seguem e percebe que está "cometendo"’ um pecado, está de certa forma entrando em contato com o exagero que ele mesmo está exercendo sobre a própria imagem. Diria, então, que este é um sintoma de que ele extrapolou uma fronteira. Assim, a religião pode servir como ponto positivo para que a pessoa tente se aceitar de forma saudável.

MINI-ENTREVISTA

 DENISE STEINER, dermatologista, escreveu o livro "Beleza Levada a Sério", sobre os abusos estéticos:

AGÊNCIA ESTADO - Situações como aquelas vividas pela personagem Rebeca na novela das 19h são mesmo comuns?

DENISE STEINER - Elas acontecem, sim. Recentemente, atendi uma senhora que ficou com o rosto cheio de cicatrizes por conta de um peeling que foi fazer em um cirurgião qualquer. E já recebi pacientes que tiveram muitos dissabores com as substâncias de preenchimento, ficaram deformadas mesmo. Há muita gente pouco qualificada pegando carona no mercado da estética.

AE - Em março, uma senhora morreu após passar por uma escova progressiva com formol. O risco cresce com o aumento de produtos para uso caseiro?

DENISE STEINER - É claro que se pode usar xampu tonalizante, por exemplo, em casa. Já no caso de uma escova à base de formol, vale lembrar que aquela substância, em determinadas quantidades, pode provocar uma intoxicação. Não é à toa que a Anvisa estabelece critérios tão rígidos de uso. Às vezes, a pessoa não percebe grandes efeitos a curto prazo, mas aquilo, futuramente, pode até facilitar a formação de um câncer. De forma geral, nada que é caseiro ou natural pode ser usado sem critério. Muita gente prejudicou a própria pele usando pasta de dente para secar espinha, por exemplo. Em doses exageradas, o efeito é contrário: aquilo entope os poros, facilitando a formação de novas erupções.



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