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Anistia Internacional critica expansão do PCC e operações policiais no Rio

02/05 - 12:46, atualizada às 19:58 02/05 - Redação

RIO DE JANEIRO - Um relatório publicado nesta quarta-feira pela Anistia Internacional faz duras críticas à violência urbana no Brasil. No documento, a entidade cita a expansão do crime organizado em São Paulo, destaca os ataques do PCC na capital paulista em maio de 2006, alerta para "o crescimento de forma dramática da facção nas penitenciárias" do Estado. A Anistia ressalta, ainda, o aumento das milícias e as operações policiais no Rio de Janeiro.

Em São Paulo, a Anistia destaca a decadência do sistema de segurança pública: “A maioria das comunidades marginalizadas continua sem a proteção do Estado e com pouco recurso à Justiça”.

De acordo com o documento, o sistema penitenciário é incapaz, os policiais são despreparados e não têm recursos suficientes, dependendo de violações dos direitos humanos em vez de métodos eficazes de policiamento. Entre 2003 e 2006, a população carcerária cresceu de aproximadamente 100.000 para 145.000.

A onda de violência em maio do ano passado expôs as profundas falhas na posição do Estado em relação a segurança pública, que há muito tempo vem sendo caracterizada como reativa. Segundo a Anistia, durante o governo de Geraldo Alckmin (2001-2006) parece ter havido uma decisão bem clara de adotar uma atitude altamente repressiva com relação à lei e à ordem.

Em conseqüência disso, os homicídios policiais, registrados como “resistência seguida de morte”, atingiram um ápice, chegando a mais de 900 em um ano, para então diminuir nos anos seguintes.

A violência da polícia foi acompanhada por notícias da atividade de grupos de extermínio que agiam nas cidades de Guarulhos e Ribeirão Preto.  Segundo o documento, o número de pessoas presas cresceu num ritmo insustentável, chegando, em 2003, a mais de 1.000 novos detentos por mês.

De acordo com relatos de advogados, jornalistas e grupos de direitos humanos, a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) conseguiu crescer de forma dramática dentro do sistema carcerário porque oferecia aos presos uma forma de segurança que o sistema penitenciário, superlotado e sem recursos humanos suficientes, não podia ou não queria assegurar.

Segundo a Anistia Internacional, no início da década de 90, o PCC afirmou que estava empenhado numa campanha para defender os direitos dos presos, incluindo o fim da tortura, a garantia de visitas na prisão e condições adequadas para os presidiários, mas, com o passar do tempo, o grupo se transformou numa organização criminosa implicada no tráfico de armas e drogas, lavagem de dinheiro, prostituição, seqüestro e assaltos a bancos.

"Usando uma estrutura celular difusa e forçando seus recrutas a pagar mensalidades, que seriam de R$50 por mês para os que estavam na prisão e R$500 para os que eram soltos, o PCC cresceu em força e recursos".

Reação do governo ao PCC

A entidade ressalta que depois que o PCC conseguiu se estabelecer no sistema penitenciário, o governo foi negligente ou introduziu medidas contraproducentes. A administração da população carcerária tem sido um de seus problemas centrais. Separar os presos conforme a gravidade do delito é essencial para que se mantenha o controle, mas no sistema penitenciário superlotado e desorganizado de São Paulo, os membros mais brutalizados das quadrilhas convivem lado a lado com réus primários e pequenos infratores, deixando-os vulneráveis à intimidação e ao recrutamento.

Segundo o relatório, numa tentativa desesperada de reprimir as rebeliões e a violência entre quadrilhas, as autoridades recorreram à separação dos presos segundo sua filiação aos grupos criminosos, reforçando uma cultura de gangues dentro do sistema. A entidade afirma que as tentativas de isolar os chefes dos grupos através da dispersão dos líderes do PCC pelo País foram contraproducentes, estendendo a adesão às quadrilhas também para outros Estados, ao invés de conter sua expansão.

"Ao mesmo tempo em que falharam as tentativas de conter o PCC dentro do sistema carcerário, as investigações das operações criminosas da quadrilha fora do sistema foram extremamente deficientes", aponta o relatório.

Violência no Rio

No Rio de Janeiro, o estudo destaca que apesar das promessas do governador Sérgio Cabral, o policiamento continua sendo caracterizado pela invasão policial nas favelas.

“Colocam em perigo a vida de todos, inclusive da polícia. Danificam bens, imóveis e a infra-estrutura, provocam o fechamento do comércio e criam condições semelhantes a um toque de recolher, impedindo as pessoas de irem trabalhar ou estudar, implicando em custos financeiros e sociais que perduram após a conclusão da operação”.

A Anistia ressalta que, quando a polícia se retira, as facções do tráfico ou as milícias retomam o controle.

“Os problemas por trás disso – a exclusão social e a criminalidade – não são resolvidos, enquanto a comunidade é atingida por ondas de violência criminal e policial”, diz o documento. 

A maior parte do relatório é dedicada à situação do Rio de Janeiro. A Anistia destaca a antiga negligência política dos governos anteriores “com fortes interesses escusos” e mostra a corrupção dentro da corporação policial do Estado. Segundo o documento, o futuro do Rio dependerá da “vontade política” do governador Sérgio Cabral.

“O Estado se encontra numa encruzilhada. Se o Rio de Janeiro não quiser cair ainda mais fundo no abismo da violência criminal, Cabral deve começara  implantar as mudanças estruturais de longo prazo necessárias para sair dessa situação”, alerta o documento

Preocupações

O estudo, que será apresentado amanhã em Londres e cobra um plano de ação nacional contra a criminalidade. , se concentra particularmente na situação crítica das cidades do Rio de Janeiro e São Paulo e inclui uma série de recomendações às autoridades estaduais e federais no Brasil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também é criticado no documento.

“Os novos governadores de São Paulo (José Serra) e do Rio de Janeiro (Sérgio Cabral), junto com o presidente Lula, prometeram garantir que a segurança pública será uma das questões mais importantes de seus mandatos. Mas o tempo está passando. Eles precisam colaborar na construção de programas de segurança multissetoriais, com base ampla, que procurem assegurar a proteção de todos os brasileiros de forma igual”, afirma o texto.

Críticas a Lula

O texto, intitulado “Brasil – Entre o ônibus em chamas e o caveirão: em busca da segurança cidadã”, cita as promessas quebradas dos governantes e faz uma análise profunda da violência no País, mostrando uma população indefesa diante do aumento da criminalidade, do despreparo da polícia e da exclusão social.

De acordo com a Anistia Internacional, Lula traiu o propalado Susp (Sistema único de Segurança Pública), que chegou a ser elogiado pela entidade no início de seu primeiro mandato:

“Em janeiro, em seu discurso inaugural, o presidente Lula prometeu fazer da segurança pública um dos carros-chefes do seu segundo mandato (...). Mas, ao comparar os ataques criminosos ao terrorismo e insistir na necessidadde de uma mão forte, o presidente traiu o espírito da Susp, as propostas de reformar a segurança com base nos direitos humanos, definidas em seu primeiro mandato.





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