19/04 - 12:35, atualizada às 20:57 19/04 - Redação com agências
RIO DE JANEIRO - Inquérito da Polícia Federal (PF) que deu origem à Operação Furacão mostra que o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) tinha uma relação de intimidade com o juiz Ernesto da Luiz Pinto Dória, desembargador do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), a ponto de sugerir que "Ernestinho" se candidatasse a "vereador ou deputado pela nossa igreja". Crivella é bispo da Igreja Universal.
Em um dos grampos telefônicos que integram o inquérito, Dória, preso na Operação Furacão, conversa com o Edson Oliveira, da PF, sobre o relacionamento com Crivella. No diálogo que ocorreu no dia 25 de outubro passado, às vésperas do segundo turno da eleição, Dória comenta com Edson que se Luiz Inácio Lula da Silva vencesse a disputa no Rio de Janeiro, Crivella sairia fortalecido. "Se o Lula ganhar no Rio, o Crivella vai ficar com um ... muito forte." E Dória prossegue: "O Crivella tá colocando 4 milhões e meio de gente, quase 5, pra votar no Lula. Tá uma máfia humana."
Vazamento de informações
A Polícia Federal admitiu na tarde desta quinta-feira que houve um vazamento de informações dos documentos sigilosos da Operação Furacão (Hurricane, em inglês). Pela manhã, a deputada federal Marina Maggessi (PPS-RJ) afirmou que os relatórios foram roubados e vendidos à imprensa. A parlamentar também voltou a negar que tenha recebido doações do jogo do bicho para a sua campanha eleitoral no ano passado.
Segundo a PF, o ministro do STF Cézar Peluso já determinou a abertura de um inquérito para investigar o possível roubo do relatório reservado, que também pode ter ocorrido no Ministério Público.
Os deputados Paulo Pimenta (PT-RS), Marcelo Itagiba (PSDB-RJ) e Fernando Melo (PT-AC) da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara vão formar um grupo de trabalho para acompanhar as investigações da PF com os presos e o material apreendido na Operação Furacão, na última sexta-feira.
A acusação contra a deputada Marina Maggessi surgiu em um relatório reservado do serviço de inteligência da Polícia Federal. A parlamentar ressaltou que não convocou a imprensa para uma entrevista coletiva nesta manhã, em sua residência, no Leblon, zona sul do Rio, com o objetivo de provar sua inocência nem rebater acusações. Ela afirmou que gostaria de ver o relatório publicado na íntegra e que “está vendo uma grande manipulação na Polícia Federal”.
“Gostaria de saber quem passa estas informações para a imprensa, já que as gravações feitas pelos grampos são de sigilo absoluto da Justiça. Vejo a Polícia Federal sendo traída dentro dos seus quadros. É uma instituição que sempre me respeitou. O que está acontecendo é uma coisa muito séria. Alguém divulgou não só um relatório como as escutas telefônicas. Sempre trabalhei com “grampos” e sei o que se pode fazer quando se coloca uma conversa fora do contexto”, afirmou Maggessi que chegou a chorar em determinado momento da entrevista.
Ela acredita que alguém conseguiu roubar o relatório na Polícia Federal e afirma que as denúncias estão sendo distribuída à imprensa em "conta-gotas". Maggessi, no entanto, disse que tem suspeitos e pretende investigar a origem das acusações:
"Tenho os meus suspeitos. Não sou burra! Tenho como amigos os melhores investigadores do Rio. A Polícia Civil que trabalha está toda do meu lado. Isso não é coisa de poderoso, é coisa de rato. Estou preocupada em descobrir tudo isso. Tenho fé", disse.
Campanha suspeita
O relatório da PF diz que a deputada federal Marina Maggessi (PPS-RJ) recebeu recursos da organização criminosa por meio de recursos não declarados à Justiça Eleitoral (caixa dois). A intermediação do negócio teria sido feita pelo policial civil Fernando "Salsicha".
Nos diálogos, Fernando falaria em nome da deputada ao conversar com o também policial civil Marcos Antonio dos Santos Bretas, o "Marcão", acusado de distribuir a propina oferecida pelos bicheiros.
Em um dos diálogos, Marcão diz a Fernando que "está entregue". "Tu é bom mesmo", teria sido a resposta. A transcrição do diálogo feita pela PF diz que, "nesse momento, Marina Maggessi, que está ao lado de Fernando, manda esse mandar um beijo para Marcão".
A deputada, que foi inspetora da Polícia Civil do Rio, nega ter recebido dinheiro do jogo do bicho e diz não acreditar que Fernando tenha usado o seu nome para levantar recursos de campanha.
"Minha campanha foi paupérrima. No total, foi R$ 69 mil. Chega a ser ridículo um negócio desse, do jeito que a minha campanha foi pobre. Gastei dinheiro com quatro anúncios em impressos e mais quatro em jornais de bairro. Se o dinheiro do jogo do bicho tivesse entrado na minha campanha, eu teria mais de 100 mil votos. Minhas contas estão lá no TSE", defendeu-se Maggessi que chegou a distribuir cópias do contrato de locação de seu comitê na Gávea, em regime de comodato.
Outra denúncia
Em apenas duas semanas , esta já é a segunda denúncia contra a parlamentar. Uma conversa telefônica interceptada pela Polícia Federal, em 31 de outubro do ano passado, revelou que a deputada federal Marina Maggessi (PPS-RJ) sugeriu que um inspetor ligado ao ex-chefe de Polícia Civil Álvaro Lins desse “um monte de tiros nos cornos” do delegado Alexandre Neto.
Na ocasião, Marina Maggessi defendeu-se dizendo que "nunca matou ninguém e que ter vontade de matar não é crime".
"Vontade de matar ainda tenho. E um monte de gente. Sou policial e esse é o meu modo de falar, de me expressar. Se a PF diz que eu ameacei o delegado Alexandre Neto de morte, porque não o avisa então? Estavam esperando ele morrer?", concluiu.
O delegado é citado no diálogo como responsável por dossiês que denunciariam supostas atividades ilegais do grupo e de Lins.
Chinaglia teme ser injusto
Em resposta a um questionamento dos deputados a respeito da situação das investigações sobre o envolvimento da deputada Marina Magessi (PPS-RJ) com a máfia dos caça-níqueis, o presidente da Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), disse há pouco que a Mesa Diretora tentará se evolver o mínimo possível no caso. "Mas tudo que tiver que ser punido será feito", garantiu.
Chinaglia disse que transferiu ao corregedor da Câmara, deputado Inocêncio Oliveira (PR-PE), a responsabilidade de “analisar os fatos e ouvir a parlamentar”. O presidente disse que teme que a entrada da mesa na investigação acabe “piorando a situação” como, segundo ele, aconteceu em outros casos. "Evitaremos ser injustos tanto para punir quanto para defender".
A Polícia Federal investiga o “pagamento rotineiro” de propina a políticos, policiais e juízes que atuariam num lobby para liberar a exploração de jogos no país. Segundo a "Folha de S. Paulo", o inquérito sigiloso da Operação Furacão (Hurricane, em inglês), que prendeu 25 pessoas acusadas de envolvimento com a jogatina, diz que a Associação dos Bingos do Rio de Janeiro (Aberj) era a entidade que fazia contato com os políticos.
Depoimentos na madrugada
Mesmo após divulgar uma nota de que todos os trabalhos seriam interrompidos durante a greve dos funcionários da Polícia Federal, na última quarta-feira, a PF colheu o depoimento dos últimos cinco, dos 25 supeitos presos na operação, na madrugada desta quinta-feira.
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