Obesos sofrem na hora de procurar emprego Por Fabiana Caso São Paulo, 12 (AE) - Como se não bastasse a discriminação estética pela qual passam os obesos, muitas vezes eles ainda têm as portas fechadas no mercado de trabalho. Os consultores de Recursos Humanos apontam que, apesar de o preconceito ser velado, essa situação acontece de fato.
Isso é mais nítido nos setores em que há um contato direto com o público, mas contamina a maioria das áreas. A catarinense Siluandra Scheffer, de 28 anos, sentiu até onde a discriminação podia chegar. Em Florianópolis, na sua adolescência, foi convidada para trabalhar na loja de uma conhecida grife de roupas no shopping. Mas desde que soltasse os cabelos, usasse mais maquiagem e emagrecesse ao longo do tempo. De família humilde, ela ficou radiante com a oferta: ganharia mais do que na loja de balas onde trabalhava. No entanto, apesar de sempre ter estado entre os três primeiros que mais vendiam, era preterida em tudo. "As outras vendedoras eram mais descoladas. Ficavam fazendo piadinhas comigo porque eu era gorda, pobre e humilde", lembra. Quando chegavam as roupas da grife que eles tinham que usar no trabalho, era a última a escolher. "Falavam para eu pegar os modelos masculinos", conta ela. Com toda essa agressão, o resultado foi que acabou engordando mais e mais: seu manequim chegou a 48. No final, eram só mesmo as calças masculinas que lhe serviam. Mas ela não podia abrir mão do emprego porque ajudava no orçamento familiar. Depois de oito meses de tortura psicológica, foi demitida. "A gerente me falou que a vendedora tinha que ser uma vitrine da loja. E que eu não servia para isso", conta. No seu caso, o ocorrido foi um incentivo para mudar de vida. Em quatro anos, emagreceu 19 quilos e acabou sendo eleita miss de sua cidade natal, Palhoça, em Santa Catarina. Hoje vive no Rio de Janeiro e trabalha como esteticista e atriz. "Volta e meia escuto minhas clientes falando que não contrataram uma empregada porque era gorda e poderia comer muito", conta ela. "A sociedade só quer estar perto do belo. Tudo o que foge do padrão estipulado é discriminado." PRECONCEITO VELADO - Ao contrário do que aconteceu com Siluandra, há casos de obesidade que não dependem apenas da boa vontade da pessoa para emagrecer. Fatores hereditários, predisposição genética e outros motivos fazem com que alguns sejam gordos. Mas parece que os empregadores não entendem essa condição. Na última pesquisa do grupo Catho sobre contratação e demissão, 65% dos 31 mil executivos entrevistados admitiram ter alguma restrição para contratar obesos. "Tendem a encarar os gordos como menos ativos", fala o diretor do Grupo Catho, Adriano Arruda. "Pensam que eles terão mais propensão para doenças cardíacas, pressão alta, diabetes. A idéia é a de que a pessoa não consegue administrar bem o próprio corpo." Arruda ressalta que isso não significa que os obesos não são contratados, mas sim que representam a última opção quando há outros candidatos com qualificação equivalente.
A webdesigner Denise Neumann, de 41 anos, criou uma espécie de movimento de conscientização sobre o tema. Inspirada em entidades americanas, fez o site Magnus Corpus (www.magnuscorpus.org), uma comunidade com assuntos de interesse do público obeso. Também promove reuniões para conscientizar sobre direitos dessa população e aumentar a auto-estima dos gordos. Em seu site, recebe inúmeras queixas de discriminação no trabalho, além de reclamações dos que se dizem preteridos freqüentemente nas promoções. Pelo fato de este não ser um preconceito aberto, fica mais difícil de as vítimas tomarem uma atitude judicial. Mas Denise as orienta a guardar provas (quando existem) para esse tipo de medida. "Os empregadores pensam que há falta de força de vontade para emagrecer, mas quase nunca é uma questão de vontade", fala. Ela mesma sempre foi obesa: desde os 10 anos pesava 80 quilos. "As pessoas magras também podem ter doenças, sofrer acidentes ou ter problemas. Ninguém sabe, por exemplo, quem é alcoólatra." Na sua experiência profissional, ela passou por algumas experiências desagradáveis. Quando ainda estudava Secretariado, a maioria dos colegas logo encontrou estágio, e ela não (apesar da ótima qualificação e de falar duas línguas, inglês e alemão). Já formada, participou de uma seleção de emprego e, na segunda fase, ouviu que não tinha o perfil da empresa. Perguntou como era esse perfil, para que pudesse se preparar para um novo processo. "Eles não responderam. Tenho certeza que foi por causa do meu peso", fala. Mas esses foram os únicos episódios de discriminação em sua vida profissional. Depois trabalhou na gráfica do pai e, atualmente, é webdesigner e não tem queixas. "O primeiro passo é se aceitar e mostrar que o fato de ser gordo não vai fazer de você um mal profissional", recomenda. "Muitos obesos se prestam a essa discriminação porque já entram pedindo desculpas. É necessário se impor, mostrar sua força, poder e competência." Por isso, é importante trabalhar a auto-estima, ponto de partida para todas as áreas da vida. A professora da área de gestão de pessoas da Faculdade Getúlio Vargas, Beatriz Lacombe, confirma a discriminação, e a coloca entre as piores categorias, por ser velada. Para ela, tudo é reflexo de uma sociedade de valores estéticos preponderantes. "No fundo, os empregadores partem do pressuposto de que o obeso tem um problema não resolvido. É um preconceito pouco fundamentado, porque ser gordo não significa não ser saudável", comenta. E reforça a opinião de Denise Neumann: "em primeiro lugar, o obeso tem que se convencer de que está bem com sua própria condição." BELEZA E LUTA Até mesmo nos nichos específicos dessa população, os gordinhos saem perdendo. A modelo Andrea Boschim, de 29 anos, 95 quilos divididos em 1,70 metro, trabalha especificamente para o mercado de tamanhos grandes. Posa para catálogos de roupas de diversas marcas e é modelo de prova - ou seja, suas medidas servem de parâmetro para os fabricantes do setor. Só que, há cerca de um ano e meio, vem percebendo uma tendência contraditória. "Nas novas seleções de modelos para tamanhos grandes, acabam escolhendo pessoas magras, que usam manequim 44", conta ela, cuja medida é 48. "É uma contradição, porque as pessoas que procuram essas roupas usam manequins maiores e não se sentem representadas." O mesmo ocorre com alguns estabelecimentos de tamanhos grandes, que contratam vendedoras magras. A rede de lojas do estilista André Apasse, por exemplo, especializada em tamanhos grandes, teve como garota-propaganda a modelo e atriz (magérrima) Luciana Vendramini. Andrea passou por outra experiência estranha. Participou de um concurso televisivo para eleger a Gordinha mais Sexy, porém, mais uma vez se deparou com candidatas de manequins 44, que não representam a obesidade. "Havia tantas meninas magras que até os jurados se perguntavam onde estavam as gordinhas", conta, bem-humorada. Ela foi descoberta em um concurso de beleza (o qual venceu), promovido pela revista eletrônica Criatura GG (www.criaturagg.com.br), para onde posa até hoje. O site existe há sete anos e funciona como uma comunidade de assuntos de interesse dos obesos e também como agência de modelos de tamanhos grandes. A criadora é a fotógrafa Katia Ricomini, de 28 anos. Ela decidiu tomar uma atitude depois que passou por grande constrangimento. Estudava publicidade em uma conceituada universidade e foi fazer uma entrevista para trabalhar com telemarketing. Na fila, conversou com uma menina magra que tinha menos escolaridade, mas que passou 20 minutos dentro da sala dos entrevistadores. Quando ela própria entrou, a olharam de cima a baixo, viram seu currículo e disseram "obrigada". "Não me fizeram uma única pergunta", lembra ela, que também recebe reclamações semelhantes no site. Kátia canalizou toda a sua revolta para a criação do site. No começo, encaminhava as modelos GG às agências, mas começou a militar pela internet depois de constatar que elas eram "tratadas como lixo". E hoje luta em outras frentes para mudar a forma como o obeso é encarado. "Nos Estados Unidos, existem órgãos de defesa do obeso", fala. "Ainda que no Brasil a obesidade seja considerada uma doença, se o empregador for por esse caminho vai acabar não contratando também pessoas que tenham pressão alta, cáries, ponta de cabelo dupla... É preciso valorizar mais o talento!"