11/04 - 15:40 - Murilo Murça - Último Segundo/Santafé Idéias
O “apagão aéreo” foi provocado um conjunto de fatores, entre eles o aumento na demanda por transporte aéreo nos últimos anos, a abertura do mercado e a perda de controle da aviação civil pelos militares, a falência da Varig, a imobilização judicial da Anac. A gota d’água foi a queda do avião da Gol, em setembro passado, e o início das investigações da Polícia Federal sobre a responsabilidade de 10 controladores de vôo no acidente.
A afirmação é do diretor da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) Josef Barat, em depoimento, nesta quarta-feira, na Comissão de Relações Exteriores e Segurança Nacional da Câmara dos Deputados. A revolta dos controladores de vôo, preponderante na questão, era o “sujeito oculto” da crise, que só veio a público a partir da última crise, com a paralisação quase total – disse.
Barat apontou o fim do protecionismo às antigas empresas aéreas, com abertura de mercado e fim da tarifa tabelada, como causas promotoras do aumento da concorrência. Com a entrada no mercado da TAM, no início dos anos 90, e da GOL, em 2001, ambas operando de forma eficiente e com baixo custo, a estatal VASP, a semi-estatal Varig e a familiar Transbrasil não agüentaram a concorrência, o que teria provocado, segundo o diretor da ANAC, a quebras das três que, em sua opinião, eram mau geridas.
As primeiras imagens de problemas nos aeroportos, lembrou Barat, começaram em abril do ano passado, com o agravamento da crise da Varig, cuja paralisação total levou, em quatro meses, seis milhões de seus passageiros para a concorrência, que já trabalhava de forma ajustada.
O verdadeiro caos, no entanto, só apareceu no feriadão do último Natal, que paralisou os aeroportos e provocou uma investigação de emergência da ANAC, na tentativa de evitar que o problema se repetisse no Ano Novo. A conclusão foi que os operadores de vôo, preocupados com as investigações da Polícia Federal sobre a responsabilidade de dez deles na morte dos 155 ocupantes do avião da Gol, deflagraram turnos de operação padrão, instruções absurdas para os pilotos, sequenciamento ilógico de partida e aterrissagem, obrigando – inclusive vôos internacionais com combustível calibrado – a longos sobrevôos até mesmo na hora da partida.
Como o sistema já estava funcionando no limite, tanto das empresas transportadoras como da infra-estrutura aeroportuária, qualquer atraso em uma decolagem, provocava a quebra de seqüências de escalas e a situação se agravava em cascata. O diagnóstico foi comprovado por uma segunda investigação, mais profunda e ampla, por dois meses e meio e acompanhada de uma auditoria na TAM. A ANAC determinou a segunda investigação para evitar nova crise no Carnaval e para criar instruções que evitassem que a situação se repita em piques de demanda, explicou Barat.
O diretor da ANAC ainda recomendou aos deputados muita prudência e estudos de longo prazo antes de se promover a desmilitarização do setor, que esteve por mais de 60 anos controlado pelos militares. Citou a Itália como exemplo, onde a desmilitarização, iniciada há dez anos, ainda não acabou; a Argentina, que já enfrenta sérios problemas com o controle civil; além da dificuldade de entendimento entre o controle militar e o controle civil que atuam nos Estados Unidos, o que teria até mesmo impedido a imediata identificação do ataque às Torres Gêmeas.
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