04/04 - 14:01 - Nara Alves, repórter iG no Rio
RIO DE JANEIRO – O pesquisador da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) Laurindo Leal acredita que a nova rede de TV pública não deve se preocupar com o retorno financeiro, mas “tem que ter audiência para não jogar dinheiro público fora”. O jornalista e sociólogo falou ao Último Segundo sobre a polêmica em torno da iniciativa do governo.
Último Segundo: O senhor é favorável à criação de uma nova rede de TV pública no Brasil?
Laurindo Leal: O País precisa de uma TV pública, uma alternativa de qualidade ao modelo comercial. Diferente de outros países, a TV se consolidou apenas em cima do modelo comercial. O modelo não comercial não teve impacto na população. Se for conduzida nos moldes das grandes redes da Europa, é possível que tenhamos uma alternativa finalmente.
US: Como o senhor enxerga a polêmica entorno do que seria uma TV pública e estatal?
LL: O debate se identificou com a iniciativa do Ministério da Cultura de propor o Fórum da TV Pública, em maio, em Brasília, quando todas as emissoras não comerciais vão se reunir. Expectativa é que desse fórum saia uma proposta. O ministro Hélio Costa apresentou uma avaliação de custo do ponto de vista técnico e ele se confundiu, ele disse rede pública do Executivo e acabou se confundindo um pouco. Mas, isso já foi superado, porque agora está na mão de Franklin Martins, um jornalista experiente que conhece o sistema no exterior. Acredito que possa colocar em prática o projeto.
US: O presidente Lula afirmou que a audiência não seria uma preocupação.
LL: O retorno financeiro não deve ser uma preocupação. Tem que ser encarado da mesma forma como se vê as universidades públicas, as bibliotecas, os museus. Mas tem que ter audiência, porque seria jogar dinheiro público fora. Tem que ser altamente criativa, tem que seduzir o público. É um desafio, mas não é impossível. É uma alternativa. Eu acho que a TV pública, se for construída dessa forma, não precisa ter 50% de audiência, mas precisa atender parcelas da sociedade que não são atendidas pela TV comercial, porque ela só trabalha nos limites do mercado. Dar conta da produção que está fora do mercado.
US: A TV digital pode contribuir no atendimento a essa demanda fora do mercado?
LL: Com a TV digital temos a possibilidade de mais canais. Mas a TV pública deve ser colocada no espectro numa posição que permite uma comparação rápida do modelo com as TVs comerciais. Não pode colocar no extremo, onde as pessoas não estão acostumadas a sintonizar. Mas isso vai ser discutido na outorgação do espectro.
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