Desnutrição ainda persiste entre crianças com alergia ao leite Por Vítor Cavalcanti São Paulo, 29 (AE) - Pelo menos 25% das crianças com alergia à proteína do leite de vaca ou intolerância à lactose terão problemas de déficit nutricional. A falta de informação há muito deixou de ser o maior entrave para tratar essas crianças.
As mães estão mais conscientes e atentas às reações que os filhos possam ter a algum tipo de alimento. Entretanto, o alto custo dos suplementos alimentares especiais é um fator que pesa e impossibilita, em muitos casos, o tratamento adequado. "Essas crianças precisam mudar a dieta. Se estão sendo amamentadas, a mãe tem que parar de consumir qualquer produto que tenha leite de vaca. E isso leva a mãe a reduzir a amamentação", comenta Ary Lopes Cardoso, chefe da Unidade de Nutrologia do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo. Diante da situação, o bebê precisa de uma outra fonte de alimento, que são os produtos sem leite de vaca conhecidos como fórmulas à base de soja ou hidrolisadas. "Um hidrolisado, para uma criança de seis meses, custa entre R$ 1.500 e R$ 2 mil. Elas consomem uma média de oito latas mensais." No Hospital das Clínicas de São Paulo, há um serviço de encaminhamento automático para a Secretaria de Estado da Saúde, que fornece o produto que a criança precisa. Em algumas localidades, no entanto, isso só é possível através de liminares. Mas independente do caminho a ser percorrido, as mães devem tentar as alternativas, uma vez que o filho terá prejuízos futuros por conta dessa desnutrição na infância. "A criança tem nos dois primeiros anos de vida a maior velocidade em termos de ganho de peso e estatura. Na puberdade, equivale a um terço do que a criança tem nos dois primeiros anos. Se você perder, terá seqüelas, deixará de ser grande. O peso você recupera, mas a estatura não", afirma Cardoso. SOJA - As estimativas apontam que perto de 7% das crianças desenvolvem alergia à proteína do leite de vaca. Segundo o especialista do Hospital das Clínicas, até 80% dessas crianças toleram a fórmula de soja como suplemento alimentar, um produto mais acessível e que custa cerca de R$ 45 a lata.
Os consensos norte-americano e europeu, no entanto, não preconizam o uso da soja. "A criança que tem alergia ao leite pode desenvolver alergia à soja. As sociedades européia e americana não admitem a soja antes dos seis meses por haver essa sensibilidade", explica Victor Nudelman, especialista em alergia e imunologia do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Para Ary Lopes Cardoso, em países pobres o uso da soja é inevitável. Ele lembra que, mesmo no Brasil, não se recomenda a fórmula de soja antes dos seis meses, mas se não há condições de comprar a fórmula hidrolisada, não resta muita alternativa. "Uso soja há mais de 30 anos e nuca vi problema. Mas as coisas estão mudando. Não sabemos até que ponto o alcance desses estudos é suficiente para colocar essas recomendações." INTOLERÂNCIA - No caso da intolerância à lactose, problema enzimático onde o organismo não processa o açúcar da composição do leite, o tratamento também pede mudanças na dieta. "A criança se beneficia ao tomar leite sem lactose, como o leite de soja. Mas muitos produtos à base de soja não são balanceados corretamente, tem que haver uma proporcionalidade. O ideal mesmo é que se dê fórmula hidrolisada", informa Nudelman. NO MERCADO - O mercado brasileiro dispõe de alguns produtos para essas crianças. Um dos fabricantes é a empresa Support Produtos Nutricionais, que tem em seu portfólio as fórmulas Pregomin (fórmula hidrolisada isenta de proteína do leite de vaca), Neocate (dieta com aminoácidos puros e nutricionalmente completa) e a Aptamil Soja 1 (proteína isolada de soja e isenta de lactose e sacarose). No caso do Neocate, a indicação é para crianças com alergia à proteína do leite de vaca e que não se adaptam às fórmulas hidrolisadas como o Pregomin. Em termos estatísticos, equivale a até 3% dos casos. BOXE ENTENDA AS DOENÇAS ALERGIA - Estima-se que 2,5% dos recém-nascidos terão alguma reação ao leite de vaca no primeiro ano de vida. Essa alergia ocorre pela criança ser sensível à uma ou mais proteínas do leite de vaca e pode ser diagnosticada por exames clínico e laboratoriais. Um dos fatores que pode levar a essa doença é a introdução do leite de vaca antes dos seis meses de vida. Estudos apontam que, em 50% dos casos, a doença regride quando a criança completa 3 anos. "O que acontece é que o indivíduo que tem alergia ao alimento, pode ter outras alergias, como rinite e asma. A criança que tem alergia à proteína do leite de vaca, tem 40% de chance de ter asma aos 10 anos", informa Victor Nudelman, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.
Os sintomas mais comuns observados nessas crianças são: vômito, diarréia, problemas na pele e, com menor freqüência, perda de peso. Essas reações surgem logo após o início da introdução do leite de vaca na alimentação da criança. O especialista lembra que o leite materno não causa esse tipo de reação e que são raros os casos de bebês alérgicos ao leite da mãe. "Se a mãe tomar leite de vaca, pode dar reação na criança. Mas o leite da mãe sozinho não, a composição é diferente. Quanto mais tempo tomar o leite da mãe, a criança tem menos chance de ficar doente." INTOLERÂNCIA À LACTOSE - Doença causada pela ausência ou deficiência da enzima lactase - responsável por processar a lactose, transformando esse açúcar do leite em carboidratos mais simples. O problema pode atingir até 25% das pessoas. A causa mais comum é a idade, pela diminuição da produção da lactase. Esse fato é bastante evidente em algumas raças como a negra, onde até 80% dos adultos chegam a ter a doença. Os principais sintomas são diarréia, dor abdominal e gases. "Isso pode se manifestar na criança de 1 ano, mas é mais freqüente em crianças acima de 1 ano e que tem histórico familiar. Diferente da alergia, a intolerância, geralmente, é para a vida toda", informa Nudelman.