15/02 - 10:34, atualizada às 22:52 15/02 - Nara Alves, repórter iG no Rio
RIO DE JANEIRO - A polícia do Rio de Janeiro fez, nesta quinta-feira, a remontagem do trajeto de carro que arrastou o menino João Hélio Fernandes, de seis anos, até a morte, no último dia 7 de fevereiro. Segundo o delegado Hércules do Nascimento, o procedimento confirmou o que depoimento das testemunhas e o laudo do Instituto Médico Legal já apontavam: que os criminosos tiveram a chance de ver o garoto sendo arrastado pelo lado de fora do veículo. “Isso já está provado pelos laudos. A reconstrução reforçou os depoimentos das testemunhas”, disse o delegado responsável pelo inquérito.
A remontagem não é uma reconstituição formal do crime, já que não conta com a presença dos criminosos, de testemunhas ou das vítimas do assalto. O procedimento também não está sendo realizado no horário do crime, como preconiza uma reconstituição.
O objetivo era comprovar que todos os cinco acusados, já presos, sabiam que arrastavam uma criança ao arrancar com o carro roubado de sua mãe - João Hélio havia ficado preso pelo cinto de segurança. Para isso, policiais se basearam nas informações prestadas pelos depoimentos e verificaram que todas as informações são coerentes.
O trabalho, marcado para às 14h, teve início às 16h, na esquina da Rua João Vicente com a Estrada Henrique Melo, no bairro Oswaldo Cruz, subúrbio do Rio. Cinco peritos do Instituto Carlos Éboli fizeram medições de nove pontos do trajeto, que passou por 12 ruas e percorreu sete quilômetros.
Os pontos foram definidos segundo o depoimento de quatro testemunhas-chave. Um deles é o motoqueiro que viu o corpo sendo arrastado e perseguiu os assaltantes, tentando alertá-los. O outro é o motorista que teria emparelhado o carro com o dos bandidos com o mesmo objetivo. O depoimento dos dois foi essencial para a identificação do assaltante que dirigia o veículo.
Apesar de os peritos terem trazido no carro um boneco de madeira que pudesse representar o corpo da criança, eles decidiram não usá-lo em respeito à família. Em alguns pontos, os policiais utilizaram uma seta vermelha para indicar a posição do corpo em relação ao automóvel.
Todo o trajeto foi acompanhado pelo promotor José Luis Ferreira Marques, da Segunda Promotoria da Primeira Vara Criminal de Madureira. "Isso abre caminho para esclarecimento do crime e fornece mais quesitos, que somam para o juiz poder julgar", afirmou. Ao final da remontagem do trajeto, o delegado Nascimento se emocionou ao falar com repórteres. "Estou emocionado porque nasci aqui neste lugar", justificou.
Testemunhas temem represália
Ao logo do percurso, muitos populares diziam ter visto o veículo que arrastou João Hélio. No entanto, nenhum deles se apresentou formalmente à polícia. Entre as supostas testemunhas, um homem de 56 anos que não quis se identificar, internado em uma clínica de reabilitação próxima ao local do crime, disse ter visto o momento em que os assaltantes saíram com o carro, com o menino preso ao cinto de segurança. Segundo ele, tentou avisar, mas não teve sucesso.
Um dos moradores do local onde o corpo de João Hélio foi encontrado, Jorge José Magina, de 62 anos, afirmou chorando que viu o carro a partir de um bar próximo ao local. Magina fixou um poema em homenagem ao garoto em um poste e alegou que não foi à polícia com medo de represália. "Essas pessoas [os acusados] moram no local. Não são elementos, são uma quadrilha", explicou.
O delegado Hércules do Nascimento fez um apelo para que testemunhas do caso se apresentem formalmente à polícia para que possam comprovar que haviam três pessoas no carro no momento que o veículo foi roubado.
Menor confessa
O único menor de idade suspeito de participar do caso confessou o crime na quarta-feira, em audiência na 2ª Vara da Infância e Juventude. E., de 16 anos, alegou que não sabia que o garoto de seis anos estava preso ao cinto de segurança pelo lado de fora do veículo.
Acompanhado pelos pais, que também foram ouvidos, o menor sustentou que seu irmão, Carlos Eduardo Lima, o Dudu, de 23 anos, não participou do crime. A afirmação contraria a polícia, que concluiu que Dudu dirigia o carro na hora da fuga. Os outros três suspeitos confirmam a versão da polícia.
E. diz ter sido "coagido" por policiais da 30ª Delegacia de Polícia (Marechal Hermes) para acusar o irmão de ter sido o mentor do crime. "Elementos indicam que ele (o irmão) não participou", disse o juiz Guaracy Vianna.
O adolescente contou, ainda, que teria participado de um outro roubo de veículo em Madureira cerca de dez ou quinze dias antes da noite da morte de João Hélio.
Vianna marcou uma nova audiência para o dia 6 de março, às 14h30, quando deve convocar testemunhas e fazer uma nova acareação entre os cinco acusados. Na última terça-feira, os envolvidos participaram de uma acareação que durou mais de cinco horas na 30ª Delegacia Policial.
Missa e protesto
Centenas de pessoas participaram, na quarta, de uma missa realizada na Igreja da Candelária, na região central do Rio, em memória do menino morto. O ato religioso foi transformado em protesto contra a violência na cidade.
Os pais da criança e o governador fluminense, Sérgio Cabral, participaram da homenagem, que também contou com a presença de outras vítimas e parentes de vítimas da violência. A missa durou uma hora e meia e foi marcada por muita emoção.
(Com Agência Estado)
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