18/01 - 16:06 - Rodrigo Ledo – Último Segundo/Santafé Idéias
Apesar da importância da eleição da Presidência da Câmara dos Deputados – terceiro cargo na hierarquia da República –, os discursos e futricas da disputa dos três candidatos nem sempre esclarecem suas idéias e o que representam para a instituição e para o quadro político geral. Para situar os internautas, o Último Segundo/Santafé Idéias traçou um perfil dos deputados federais Aldo Rebelo (PCdoB-SP), Arlindo Chinaglia (PT-SP) e Gustavo Fruet (PSDB-PR).
Aldo Rebelo (PCdoB-SP) –
O comunista é apoiado formalmente pelo próprio partido, o PCdoB, e pelo PSB e PFL. Mas diz ter muitos votos em todos os partidos, incluindo dissidentes de legendas que apóiam Arlindo Chinaglia. Como argumentos de convencimento dos colegas-eleitores, principalmente para os da oposição, Aldo Rebelo ressalta ter proporcionado uma estabilidade no jogo partidário interno, após a crise que levou à Presidência da Câmara o então deputado Severino Cavalcanti, que renunciou ao cargo em 2005 envolvido em denúncias de corrupção. Em contrapartida, Rebelo é acusado por parlamentares “independentes” por ser uma candidatura marcada pelos escândalos recentes do mensalão e valerioduto, por isso não representaria uma renovação no modo de fazer política da Casa.
Ainda no aspecto da relação com os partidos, pode alegar ter dado espaço para as iniciativas da oposição, como CPIs e relatorias de projetos importantes – fato reconhecido pelos oposicionistas, principalmente os do PFL. Quanto à relação com os outros Poderes, principalmente o Executivo, Aldo representa uma das duas candidaturas alinhadas ao presidente Lula. Ou seja, tem boa vontade para colocar em votação e acelerar a tramitação de matérias prioritárias ao governo.
Para a opinião pública, o candidato comunista alega compromisso com a racionalização de gastos. Em sua gestão, demitiu 1,1 mil ocupantes de Cargos de Natureza Especial (CNEs), que não necessitam de concurso, são preenchidos por indicação dos deputados. Também contribuiu para a diminuição do recesso parlamentar e evitou gastos milionários com as convocações extraordinárias em julho e janeiro.
Mas não se posiciona contra supersalários. Assim como no fim do ano passado, quando ocorreu a polêmica sobre o aumento de 91% para os deputados, Aldo Rebelo continua reafirmando respeitar a decisão da maioria dos colegas, mesmo que represente aumentos astronômicos.
Sobre os grandes temas da próxima legislatura, Aldo ainda não forneceu detalhes precisos. Na segunda-feira passada, após muita gritaria do bloco “independente” por propostas dos candidatos, o comunista começou a prometer a priorização da “discussão de temas nacionais” urgentes, como o desenvolvimento econômico.
Arlindo Chinaglia (PT-SP) –
A candidatura petista é a que contabilizou, até agora, mais apoios formais de partidos: além do PT, possui adesões do PMDB, PR (fusão de PL com Prona), PTB e PP. Mas os concorrentes e analistas políticos avaliam que, como o voto na eleição será secreto, pode haver quantidade razoável de dissidentes, que prefeririam votar em Aldo rebelo ou até Gustavo Fruet.
No fim do ano passado, a candidatura de Chinaglia não era considerada forte ante Aldo Rebelo, mas o petista cresceu agindo muito nos bastidores, costurando acordos que garantissem vantagens para outros partidos. Ao PMDB, por exemplo, prometeu o apoio do PT para garantir a eleição de um peemedebista na próxima eleição da Presidência da Câmara, em 2009. Adversários de Chinaglia, principalmente os “independentes”, o acusam de oferecer cargos no governo para aliados, mas tanto o petista quanto membros do governo negam tal estratégia.
A possível vitória de Arlindo Chinaglia, líder do governo na Câmara, representará mais uma etapa no reerguimento político do PT, muito atingido pelas denúncias de corrupção desde 2005. Cientistas políticos avaliam que o êxito de Chinaglia, após a reeleição de Lula e a eleição da segunda maior bancada na Câmara, o PT daria passo importante para construir uma candidatura própria à eleição presidencial de 2010 e também à manutenção de uma forte base parlamentar no próximo pleito.
Sobre sua relação com os partidos, o nome do petista enfrenta a resistência de partidos da própria base governista – PSB e PCdoB –, insatisfeitos com a “gula” do PT por cargos e sua dificuldade de abrir espaço aos aliados. Mas não se pode prever qual será o grau de liberdade concedido aos partidos, principalmente de oposição, se eleito presidente da Câmara. O certo é que também se caracteriza uma candidatura alinhada ao presidente Lula, que favorecerá a votação de projetos caros ao governo.
Em relação a idéias dirigidas à opinião pública, Chinaglia só ontem começou a se manifestar por alguns princípios, e citou “desenvolvimento do País, incluindo distribuição de renda”. Sobre salários, avisou ser favorável aplicar aos deputados o teto do funcionalismo, de R$ 24,5 mil (aumento de 91%), mas compensa o impacto dessa posição ressaltando que o reajuste terá de ser acompanhado pela limitação de salários dos servidores de todos os Poderes – hoje, muitos ganham acima dos R$ 24,5 mil.
Gustavo Fruet (PSDB-PR) –
A candidatura do tucano foi a surpresa da disputa. Lançado pelos chamados deputados “independentes”, que criticam as candidaturas governistas por falta de idéias e comprometimento com velhas práticas políticas, Fruet foi aclamado pelos independentes por ter biografia limpa: jovem (para o padrão parlamentar), com apenas 43 anos, o parlamentar se destacou nos trabalhos da CPI dos Correios, que investigou o mensalão.
Com isso, o tucano conseguiu reverter o apoio dado por seu partido a Arlindo Chinaglia, na semana passada. Mesmo largando depois, já conta com os votos do PSDB (terceira maior bancada), com o PPS e dissidentes do PMDB e outras legendas.
A estratégia de Gustavo Fruet é tentar fortalecer sua candidatura a partir dos princípios da independência e transparência da Câmara dos Deputados, com propostas específicas que sensibilizem a opinião pública e, conseqüentemente, os deputados votantes. Em outras palavras, fará uma campanha “para fora” da Casa, prometendo medidas como critérios rígidos para reajuste salarial de parlamentares – Fruet defende aumento proporcional à inflação anual – e prioridade à Reforma Política, para combater o abuso do poder econômico e a corrupção eleitoral. Outro compromisso é a transparência total de despesas da Câmara, com publicação na internet de todos os gastos.
Gustavo Fruet enfatiza que sua candidatura não é de oposição, embora seja inegável a preferência do Palácio do Planalto e da base governista pelos seus dois concorrentes. Segundo suas palavras, o tucano não quer ser uma pedra no sapato do presidente Lula, mas acena com o propósito de reduzir a influência do Poder Executivo sobre o Parlamento e aumentar a fiscalização da Câmara sobre os atos governamentais (dever do Legislativo previsto na Constituição).
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