Estabeleça metas e tenha um ano melhor
Por Mariana Segala
São Paulo, 04 (AE) - Passadas as festas é chegada a hora de pensar no futuro. Uns com mais disciplina, outros só para não perder o costume, o fato é que muita gente aproveita os últimos respiros de dezembro e os primeiros dias de janeiro para estabelecer resoluções e metas para o ano seguinte.
E aí vale tudo: emagrecer, economizar, parar de fumar ou passar mais tempo com a família.
Uma pesquisa feita nos Estados Unidos pelo Instituto Marista Para a Opinião Pública, de Nova York, em parceria com a empresa WNBC, mostrou que 44% dos adultos entrevistados iriam listar objetivos para 2007. O estudo também indicou que as mulheres fazem mais promessas, mas os homens é que têm mais chances de cumpri-las.
Como objetos das promessas, podem entrar as mais diversas áreas da vida - da saúde ao trabalho, da organização pessoal à educação. Para te ajudar, a Agência Estado consultou especialistas em dez diferentes assuntos e trouxe as sugestões deles para você. Algumas não são passíveis de serem colocadas em prática em apenas um ano, mas 2007 pode ser só o começo. Leia e reflita.
FINANÇAS PESSOAIS
Manter intacto o 13º salário de 2007
O ano de 2007 promete ser um período-chave para quem pretende dar uma virada na situação financeira pessoal. Para garantir que o próximo Natal seja ainda mais próspero, estabeleça como resolução chegar a dezembro com o 13º intacto, aconselha o consultor financeiro Gustavo Cerbasi, autor do livro "Dinheiro: O Segredo de Quem Tem".
"A maioria das pessoas termina o ano com gastos acumulados e boa parte do 13º acaba não sendo usada como deveria", alerta Cerbasi. Em vez de ser investido para render mais dinheiro, o salário extra não consegue fazer mais que saldar dívidas de coisas adquiridas no passado. Às vezes, mal sobra para um presentinho de Natal.
Abandonar aos poucos as compras parceladas é uma atitude importante, já que pequenas e inocentes dívidas tendem a se acumular tornando-se uma grande dor de cabeça. Estabelecer uma data fixa no mês para fazer um balanço dos gastos dos últimos 30 dias também ajuda - e muito. "O orçamento doméstico faz diferença. As pessoas naturalmente abandonam as compras a prazo", explica o consultor.
TRABALHO
Levar o bom humor ao ambiente profissional
Um belo sorriso no rosto pode ser seu melhor companheiro no trabalho em 2007. Buscar levar o bom humor para o ambiente profissional é a bola da vez para o presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos, Ralph Arcanjo Chelotti. "Será bom virar o ano pulando ondas, comendo uvas e sorrindo também", diz.
Para Chelotti, a chamada "gestão de clima" é fundamental dentro das organizações e faz a diferença nos resultados. "Sabe-se que a busca pelo resultado é sempre o item mais importante dentro das empresas, mas isso deve ser harmonizado com a alegria, o bom humor e o trabalho em equipe. Um ambiente mais leve transparece companheirismo, camaradagem e torna as coisas mais fáceis", explica. Tudo isso, é claro, sem deixar de atentar para o comprometimento com o trabalho. "A busca pelo resultado fica mais prazerosa quando se faz isso com sabedoria."
RELACIONAMENTOS
Buscar estabelecer a reciprocidade
Entre interagir com as pessoas e construir um relacionamento há uma enorme distância. E nada é mais complicado que buscar a segunda opção: os relacionamentos são complexos, envolvem a individualidade das pessoas e as características dos grupos. Mas como a importância de se relacionar vem crescendo exponencialmente com o tempo, é hora de estar atento.
Para 2007, uma das suas metas pode ser tentar estabelecer a reciprocidade e ampliar a satisfação nas relações, sejam elas quais forem (românticas, familiares ou profissionais), sugere Agnaldo Garcia, professor do departamento de Psicologia Social e Desenvolvimento da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e membro da Associação Internacional para a Pesquisa de Relacionamento.
"Grande parte da nossa felicidade vem dos bons relacionamentos que temos. As pessoas podem fazer das nossas vidas um paraíso ou um inferno", explica o pesquisador. Por isso, é necessário avaliá-los quanto à satisfação e à reciprocidade. É claro que os conflitos existem, mas é possível contorná-los. Conversar sobre o perdão, controlar a agressividade, reafirmar o compromisso e manter a individualidade são formas de conduzir a um relacionamento saudável.
CULTURA
Ler Grande Sertão: Veredas
A comemoração, em 2006, dos 50 anos de publicação de "Grande Sertão: Veredas", considerada a obra-prima do escritor João Guimarães Rosa, não poderia ser razão melhor para incluir a leitura do livro na sua lista de objetivos para 2007. "De todos os clássicos que li - de Machado de Assis e José de Alencar a Euclides da Cunha, Mário de Andrade ou José Saramago - posso dizer que 'Grande Sertão: Veredas' é o mais completo", diz Levi Ferrari, presidente da União Brasileira de Escritores e autor da dica. "A leitura da obra em 2007 ganha um significado especial por seu 50º aniversário."
A narrativa do personagem Riobaldo, um velho fazendeiro, sobre as histórias que viveu no sertão de Minas Gerais são dignos de admiração e respeito. Os 'causos' de amor, vingança e conflitos renderam a "Grande Sertão: Veredas" o título de única obra escrita por um brasileiro incluída na lista dos cem melhores livros de todos os tempos, publicada pelo jornal britânico "The Guardian", conta Ferrari. E se os ingleses dizem... "Sua prosa é muito rica, uma verdadeira poesia, cheia de metáforas e trocadilhos. Não é preciso conhecer História para lê-lo. Não é um livro difícil, é apaixonante", completa.
O uso das palavras, para Ferrari, é o que há de mais fascinante no texto de Guimarães Rosa. "Ele usou palavras pouco comuns na nossa escrita, mas, no contexto, você as entende perfeitamente." O "córrego de águas simplificadas" descrito pelo autor, por exemplo, não passa de um pequeno ribeirão. "E que forma melhor de dizer que não se guarda rancor do que: 'Eu não ranco sombra de buraco'?", diz Ferrari. Recentemente, a editora Nova Fronteira lançou uma edição especial do livro. Aproveite!
ORGANIZAÇÃO PESSOAL
Aumentar a produtividade do dia em 30%
Pergunte a qualquer um: ninguém gosta de perder tempo. Muito melhor é poder gastar os minutos que sobram naquilo que se deseja - nem que seja dedicá-los ao ócio. A organização deficiente das atividades do dia, no entanto, faz com que tais momentos - tão preciosos - sejam desperdiçados. "Perdemos tempo o tempo todo porque cometemos pequenas falhas", explica Kelley Lara, gerente do site Organize Sua Vida.
Estudos apontam que, com um pouco de esforço e planejamento, é possível aproveitar melhor muito do tempo que acabaria perdido. Para 2007, uma meta plenamente factível é tornar seu dia 30% mais produtivo, sugere Kelley. Como? Investindo em organização.
A primeira medida é planejar as 24 horas do dia agendando os intervalos de tempo necessários para cada tarefa. "Caso contrário, a pessoa termina o dia frustrada porque não conseguiu cumprir seus objetivos", explica. A segunda dica é planejar as saídas. "Aconselho que se faça uma espécie de check-list para cada tipo de tarefa - compras, estudos... - para evitar lembrar das coisas aos poucos." Racionar o uso da internet é o terceiro passo. Estabeleça um horário para entrar e sair da rede, sempre cheia de tentações.
ESPIRITUALIDADE
Vivenciar as crenças com mais intensidade
No mundo moderno, imediatista e individualista em que se vive, atentar para a espiritualidade nada tem de supérfluo. O respeito e a compreensão da diversidade são fundamentais, mas a prática efetiva das crenças é o maior desafio para 2007, diz o coordenador da organização Iniciativa das Religiões Unidas (URI) em Brasília, Elianildo da Silva Nascimento. "Para o ano-novo, é interessante que as pessoas tenham como objetivo vivenciar mais o que dizem acreditar nos seus caminhos espirituais, sejam eles quais forem", diz.
A prática espiritual de fato - resolução de ano-novo que pode até se tornar projeto de vida - faz abrir a visão, criar o diálogo e ampliar a cooperação entre as pessoas. "Há muita hipocrisia nas religiões. As pessoas se acomodam em ir aos seus cultos, mas muitas vezes fazem isso de forma automática, sem ter a noção de que não adianta fazer tudo isso sem praticar a religião na vida cotidiana", defende Nascimento.
SAÚDE
Fazer avaliações periódicas para evitar surpresas
Buscar o bem-estar físico, mental e social é objetivo para a vida - não há ano melhor ou pior para começar. Alcançá-lo, no entanto, exige dedicação. No que tange à saúde do corpo, o acompanhamento médico regular pode fazer a diferença entre o tal bem-estar e o desconforto. Por isso, inclua a avaliação periódica da saúde na sua lista de metas para 2007, recomenda o presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, Antônio Carlos Lopes.
Apenas verificar o estado de saúde não basta. É necessário seguir rigorosamente as orientações do clínico - nada que um pouco de disciplina não possa resolver. "A dica tem um significado especial para 2007, se considerarmos o estilo de vida que levamos", explica Lopes.
Algumas medidas melhoram os resultados do check-up. A prática de exercícios físicos, a alimentação adequada, o sono tranqüilo e a administração do estresse são imprescindíveis à boa saúde.
MEIO AMBIENTE
Reduzir a "pegada ecológica"
Tudo o que as pessoas fazem para manter sua forma de viver deixa marcas no meio ambiente. Dependendo das escolhas, o impacto pode ser maior ou menor: quando se opta por andar a pé em vez de carro, por exemplo, se colabora para reduzir esses rastros. O assunto é tão importante que deu origem ao conceito de "pegada ecológica", uma estimativa em hectares das áreas produtivas de terra e mar necessárias para sustentar um determinado estilo de vida - seja de uma pessoa, uma comunidade, uma cidade ou um país inteiro. Em 2007, portanto, uma boa pedida é trabalhar para reduzir a sua própria pegada ecológica, sugere a técnica em educação ambiental da organização não-governamental World Wildlife Fund Brasil (WWF-Brasil) Mariana Valente.
Estudos do WWF mostram que a área disponível por pessoa no planeta capaz de assegurar a sustentabilidade da vida é de 1,9 hectare. A pegada ecológica média, no entanto, já chega a 2,2 hectares por pessoa, a mesma encontrada no Brasil. Nos Estados Unidos, o valor é de 9,5 hectares, quase cinco vezes mais que o necessário. "É possível reduzirmos nossa pegada ecológica partindo do consumo responsável. No mundo capitalista em que vivemos tendemos a gastar muito mais que o necessário", explica Mariana.
2007 pode ser um bom ano para começar. Comprar frutas da época, alimentos orgânicos e produtos feitos localmente são maneiras simples de colaborar. Também é muito fácil separar o lixo para a reciclagem e organizar esquemas de carona solidária, o que ajuda a reduzir a quantidade de carros nas ruas. É importante ainda atentar para o registro dos produtos juntos aos órgãos ambientais competentes, como o Instituto Nacional do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
DIREITOS HUMANOS
Engajar-se em grupos da sociedade civil
O último ano deu mostras da fragilidade dos sistemas de segurança pública brasileiros. Facções criminosas cresceram, ganharam força e procuraram exibir seu poder. A situação só pode ser diferente, segundo a coordenadora do Movimento Nacional dos Direitos Humanos, Rosiana Queiroz, se as pessoas comuns agirem. "A solução nesse campo não está nas mãos dos governos e, sim, da sociedade. Segurança cidadã quem constrói são as pessoas", diz. Por isso, a sugestão para 2007 é passar a integrar grupos organizados de reivindicação da sociedade civil.
Este é um bom ano para se engajar em grupos, segundo Rosiana. "A conjuntura ajuda. Novos governos assumiram e agora precisam ouvir a voz da sociedade", explica. As promessas de campanha ainda estão frescas e a pressão coletiva por mudanças tem mais chance de dar efeito. "Se não pedirmos para agirem agora, não é no final que agirão."
Para Rosiana, pôr em prática essa resolução não é objetivo para apenas um ano, mas algo que depende de um processo mais longo. É necessário começar. E a primeira medida é buscar informação. O site www.dhnet.com.br é uma boa fonte.
EDUCAÇÃO
Acreditar na educação para obter poder pessoal
O conhecimento é umas das ferramentas mais eficientes de que as pessoas dispõem para traçar e mudar o próprio destino. Em 2007, essa noção deve continuar presente e servir de estímulo. No ano-novo, é preciso acreditar na educação como forma de obter poder pessoal e social, diz o coordenador de projetos pedagógicos do Instituto Paulo Freire, Jason Mafra. "Entender a educação como uma maneira de empoderamento é o que pode propiciar mudanças, apesar de todas as contradições da vida, políticas e econômicas, por que passamos", diz.
A educação deve ser contínua e permanente. Portanto, quem está se educando, que continue. Não há limites para estudar. Quem parou, que procure voltar. E para quem nunca estudou, sempre é tempo de começar. É uma questão de força pessoal, aliada às possibilidades disponíveis pelos poderes públicos. "Todo mundo sabe que a educação é estratégica, mas concretamente ela não se tornou uma agenda nacional", diz Jason. "Por isso, é preciso ter força, que vem da crença no poder de se educar."