200 mil pacientes ficam sem atendimento no Brasil por falta de substância radioativa

SÃO PAULO ¿ Grandes hospitais públicos e privados do Brasil enfrentam, há dois meses, a escassez de uma substância radioativa utilizada na realização de exames no tratamento de câncer e doenças cardíacas. Com isso, mais de 200 mil pacientes já ficaram sem atendimento desde o fim de maio, estimou o superintendente do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), Nilson Dias Vieira Junior, em entrevista ao Último Segundo.

Nara Alves, repórter do Último Segundo |

Hospitais privados como Sírio Libanês e Albert Einstein, em São Paulo, e públicos, como o Hospital de Base de Brasília, as Santas Casas de Porto Alegre e Belo Horizonte, além do Hospital das Clínicas de São Paulo, reduziram em 60% o número de procedimentos na medicina nuclear, como a cintilografia , que permite visualizar órgãos internos. Isso significa que, diariamente, cinco mil pacientes deixam de realizar esses exames, segundo o Ipen. Se um paciente não é diagnosticado em tempo, qual é o horizonte de vida que ele tem, se for uma doença que evolui rapidamente, como o câncer?, questiona. Em condições normais, o total de atendimentos seria de 3,5 milhões de procedimentos ao ano no Brasil.

O superintendente do Ipen cita o caso do vice-presidente da República, José Alencar. "Para ele, foi fundamental. Ele passou por vários procedimentos", exemplifica. O vice-presidente, que deve receber alta na sexta-feira, foi submetido no último dia 24 de julho a cirurgia para tratamento de obstrução do intestino grosso, por nódulos tumorais, a 15ª nos 12 anos em que luta contra o câncer.

O Ipen é o instituto brasileiro responsável pela importação e distribuição do Molibdênio-99, substância radioativa que produz o Tecnécio-99m, utilizado em mais de 80% dos exames da medicina nuclear. Até o fim de maio, o Brasil importava a substância exclusivamente do Canadá. Com o fechamento do reator em Ontário, no dia 14 de maio, o Brasil e outros países passaram a sofrer da mesma carência. Fizemos um contrato emergencial com a Argentina para o fornecimento de um terço da demanda. Mas o cenário é extremamente negativo pela frente, prevê Vieira Junior. Em reportagem do jornal "The New York Times" publicada pelo iG no dia 24 de julho , o presidente da Sociedade de Medicina Nuclear dos Estados Unidos explica o que ocorreu com o reator canadense.



R eator de Alto Fluxo no Laboratório de Oak Ridge, no Canadá / NYT

O jornalista Carlos Henrique Andreoli, de 42 anos, sofreu um infarto há um ano. Seu médico solicitou uma cintilografia cardíaca para avaliar se o stent (uma espécie de tubo) está funcionando corretamente na desobstrução de artérias. O exame foi cancelado. Falei com o meu cardiologista e ele me disse para esperar mais um mês. Caso não marquem o exame, ele vai substituir por outro, não tão eficiente como este, explica.

Divulgaçã o
Nilson
Vieira Junior, do Ipen

Segundo o Ipen, todos os 300 hospitais e clínicas que usam a substância estão recebendo proporcionalmente o produto, independentemente se são públicos ou privados. Portanto, o critério de seleção fica sob responsabilidade de cada equipe médica, que avalia caso a caso a urgência do atendimento. No Incor, por exemplo, apenas 30 de 80 pacientes foram examinados nesta quarta-feira. É sempre difícil fazer a triagem. Os internados têm prioridade. Os ambulatoriais a gente vê o tempo de espera. Muitas vezes, os pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), que já sofrem com a demora comum nas filas de atendimento, chegam com um tempo de espera maior, relata o médico-chefe José Soares Junior, do Serviço de Medicina Nuclear do Incor, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Como o tempo é um fator fundamental para garantir maiores chances de vida, muitas vezes pacientes encaminhados pelo SUS têm prioridade.

José Soares Junior é também presidente da Sociedade Brasileira de Biologia, Medicina Nuclear e Imagem Molecular. Para ele, todas as alternativas e soluções para o problema passam pela conscientização, por parte do Governo brasileiro, de que é uma crise na saúde pública. O próprio Ministério da Saúde não está acordado para isso. Não vai brotar material radioativo, mas será que a Argentina não poderia produzir mais para o Brasil se o presidente Lula fizesse esse pedido?, sugere. Não está sendo dada à crise a dimensão disso, da gravidade disso aos pacientes que têm seus exames cancelados, lamenta.

O empresário Marcelo de Souza, de 41 anos, sofre de diabetes e teve de passar por um período de preparo para realizar o exame. Com o cancelamento de última hora por falta do material radioativo, Souza entrou em contato com outro laboratório e conseguiu um encaixe por conta de uma desistência. Se não fosse o encaixe, demoraria mais de dois meses. O prejuízo seria imenso porque eu não teria o diagnóstico, disse.

Questionado sobre a suposta crise no fornecimento de molibdênio, a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde encaminhou a pergunta para a Agência de Vigilância Sanitária, a Anvisa. O Último Segundo teve, como resposta, que a substância não passa pela Agência por ser de origem radioativa. Isto é, o problema é tratado, ainda, como uma questão exclusivamente do Ipen, uma autarquia do Estado de São Paulo gerenciada pela Comissão Nacional de Energia Nucelar do Ministério de Ciência e Tecnologia. Uma reunião entre Ipen e a classe médica foi realizada na tarde desta quinta-feira para discutir a crise.

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