Participantes do programa apontam dificuldades para encontrar ‘porta de saída’, mas dizem que viver do próprio dinheiro é sonho a ser realizado

A ideia de se desligar do programa Bolsa Família é um sonho de praticamente todo beneficiário. Entretanto, entre o sonho e a realidade, existe um longo caminho a ser percorrer. Quem consegue chegar lá, fala com orgulho sobre a melhoria de vida e a dignidade de poder comprar coisas simples como um quilo de arroz ou carne com o dinheiro do próprio bolso.

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A hoje copeira de um hotel de Brasília Maria Aparecida Cruz Jesus Silva, de 37 anos, é um desses exemplos. Natural de Jacobina, cidade baiana distante 330 quilômetros de Salvador, Maria Aparecida entrou no programa há aproximadamente sete anos. Na época, ela recebia cerca de R$ 100 ao mês, dinheiro que usava para ajudar no sustento de seus três filhos. “Foi uma época de muitas dificuldades, sem dúvida”, diz a copeira.

Porta de saída do Bolsa Família existe, mas ainda é estreita

Mas Maria Aparecida, hoje moradora de Ceilândia, cidade-satélite distante 26 quilômetros de Brasília, não se contentou apenas com a renda do Bolsa Família. Com a ajuda dos assistentes sociais e coordenadores do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) de Ceilândia Norte, cursou o ensino fundamental e médio por meio de programas como o de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Depois buscou qualificação profissional em diversos cursos e, no ano passado, fez um curso de copeira no Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). Após o curso, Maria Aparecida conseguiu um estágio em um hotel de Brasília e, há aproximadamente dois meses, foi efetivada.

Após conseguir o emprego definitivo, Maria Aparecida diz ter realizado o seu maior sonho desde quando entrou no Bolsa Família: entregar o cartão do programa. “Meu sonho era entregar o cartão do bolsa família. Para mim foi emocionante porque esperei por isso muito tempo. Eu queria ter, conseguir a minha cidadania”, diz a ex-beneficiária. “O objetivo do governo é dar um alicerce para as pessoas. Ele está ensinando a pessoa a pescar”, pontua.

A luta de Maria Aparecida, no entanto, não acabou. Atualmente, ela faz curso de inglês e já pensa na educação superior. Seu novo sonho: formar-se em gastronomia.

Estabilidade

A entrega do cartão não é obrigatória e muitos beneficiários, apesar de conseguir emprego fixo, mantêm o benefício até ele ser cancelado pelo governo federal. O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome diz que a ideia é justamente permitir que o beneficiário tenha tempo para se estabilizar num novo emprego, por exemplo, antes de ter que abrir mão do benefício.

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Ainda assim, casos como o de Maria Aparecida são tidos como exemplos de sucesso pelo governo, não só pela iniciativa de entregar o cartão, mas também por combinar os resultados da transferência de renda com a qualificação oferecida pela administração federal. Em busca de ampliar a chamada "porta de saída" do programa, o governo trabalha prioritariamente com a oferta de cursos do Pronatec e outras ações de educação profissionalizante.

Outra aposta do governo é facilitar iniciativas de microempreendedorismo entre beneficiários do programa. Na família do mineiro Samuel Rosa Rodrigues, de 27 anos, por exemplo, a renda era complementada com R$ 38 do Bolsa Família, recebidos por sua esposa, Ana Cristina Rosa. O dinheiro ajudava no sustento do pequeno Saimon, hoje com 3 anos de idade.

Rodrigues, ex-flanelinha, sempre trabalhou de informalmente, mas, com muita persistência, saiu do programa há aproximadamente seis meses após se cadastrar como microempreendor individual. Hoje, ele tem um serviço de lava-a-jato em domicílio, em Belo Horizonte, e não recebe mais dinheiro do programa. “Tive que trabalhar muito. No começo sempre é difícil, mas com muita luta podemos ter nossa independência financeira. O Bolsa Família ajuda sim. Mas tem que ser visto como algo temporário”, afirma Rodrigues.

Dificuldade

Mas nem todos os beneficiários alcançam os mesmos resultados. Entre participantes do programa, ainda persiste o sentimento de que as oportunidades são insuficientes.

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Celina Sousa Soares, tem 39 anos, mora no Sol Nascente, distante 30 quilômetros de Brasília e que abriga 80 mil moradores. Ela vive com R$ 38 do Bolsa Família, somados a alguns rendimentos auxiliares, oriundos de bicos que faz como doméstica. Para ela, faltam oportunidades de emprego e qualificação que a ajudem a deixar o programa. “Sair eu quero sair, mas não é fácil”, diz. A renda do Bolsa Família ajuda no sustento doméstico e na compra de material escolar para a filha mais nova de Celina, Yara, de 17 anos. “Eu já estive em situação pior e hoje eu só tenho a agradecer (ao programa)”, complementa.

Já Sabrina Conceição Sales, de 22 anos, tem três filhos, um de 8 anos, outro de 3 anos e um bebê de 10 meses. Ela vive com mais 12 pessoas em um barraco de madeira também em Sol Nascente. Dos 16 moradores, dois são beneficiários do Bolsa Família. Ela recebe R$ 112 por mês do governo federal e consegue se manter com o dinheiro do programa e alguns bicos que faz pela comunidade. Sabrina culpa a falta de tempo por não conseguir melhorar de renda. Apesar disso, ela pondera. “A gente tem que correr atrás para não depender somente disso”, admite.


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