Berlim abre Topografia do Terror sobre as ruínas dos calabouços nazistas

Gemma Casadevall. Berlim, 7 mai (EFE).

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Gemma Casadevall. Berlim, 7 mai (EFE).- Mais de duas décadas de polêmica depois é aberto ao público hoje em Berlim o centro de documentação Topografia do Terror, coincidindo com o 65º aniversário da Segunda Guerra Mundial construído sob os antigos calabouços do aparelho nazista. O terreno de 4,5 hectares que abrigava os quartéis-generais da SS e da Gestapo, onde mais de 15 mil adversários do regime nazista foram aprisionados e torturados, ganhou um edifício sóbrio de formato retangular que pretende servir de lembrança dos horrores da época. "Isto não é um monumento nem um lugar para prestar homenagem às vítimas do nazismo, é um lugar para vir aprender", explica Andreas Nachama, diretor da Fundação Topografia do Terror. O prédio fica a algumas quadras do monumento as vítimas do Holocausto, um gigantesco pátio de blocos de concreto desenhado por Peter Eisenmann para lembrar os seis milhões de judeus assassinados pelo nazismo e que completa agora cinco anos e da praça Potsdamer Platz. No coração de Berlim, o edifício sóbrio contrasta com o ziguezague do Museu Judeu, obra de Daniel Libeskind, e está bem longe do forte simbolismo que encerra o labirinto de Eisenmann, junto ao Portão de Brandeburgo, ou do tortuoso museu de Libeskind. As linhas frias são obra da arquiteta alemã Ursula Wilms. Para o diretor do centro, o prédio tem um valor funcional. "É funcional, como também é a incumbência do centro de documentação que, além de exposições, abrigará uma biblioteca e arquivos abertos à pesquisa", explica Nachama. O centro custou 19 milhões de euros e é uma versão mais barata do prédio desenhado em 1993 pelo suíço Peter Zumthor. As duas imensas torres pensadas pelo arquiteto tinham sido orçadas em 25 milhões de euros, valor que passou depois para 39 milhões e que finalmente veio abaixo - literal -: em 2004 as autoridades de Berlim decretaram sua demolição devido a inviabilidade do projeto. As duas torres viraram um retângulo cinza sobre o terreno - e mais dois níveis abaixo da terra -, que para Nachama remete às linhas Bauhaus. Esse formato discreto foi eleito para evocar o aparelho do terror contido entre a Gestapo, as SS, a Chancelaria de Hitler e o Ministério de Aviação. A exposição interior deve lembrar a maquinaria do poder além do plano de extermínio dos judeus, mas também as outras vítimas do nazismo - ciganos, homossexuais, inimigos do regime, etc. "Os historiadores não costumamos notar isso que os outros chamam de energia negativa de um lugar. Se não, não poderíamos fazer nosso trabalho", explica Nachama, a respeito ao passado do local e dos obstáculos do projeto, até o edifício atual, ao redor do qual "se deixará crescer a grama". A história da Topografia do Terror começou em 1987, com a inauguração de uma exposição ao ar livre junto ao Muro de Berlim - "outra testemunha de outro horror, de outra ditadura", nas palavras de Nachama - que ficou de pé. Junto ao Muro foi organizada de forma precária uma mostra aproveitando alguns vestígios dos calabouços nazistas, onde 15 mil pessoas foram torturadas. Aí, no número 8 da então Prinz Albrecht Strass, agora Niederkirchnerstrasse, estiveram entre 1934 e 1945 a sede da Gestapo, vizinha ao antigo palácio prussiano onde Hitler instalou seu centro de poder e outras dependências do Terceiro Reich. Do complexo que concentrou o aparelho do terror nazista não ficou quase nada após a Segunda Guerra Mundial. Apenas o Ministério de Aviação - transformado agora em ministério da Fazenda -, e o adjacente Martin Gropius Bau, atualmente um dos museus de melhor programação da capital. A exposição ao ar livre recebeu meio milhão de visitantes por ano desde sua inauguração, atraídos pelo magnetismo histórico do lugar junto à ruína do Muro. Parte do material exposto foi transferido para o interior do novo centro, à espera de que a parte exterior do terreno seja limpa. Nachama admite que têm dúvidas sobre se seu edifício retangular terá o mesmo poder de captação que a ruína dos calabouços. A exposição junto aos vestígios do Muro deve ser reaberta nos próximos meses, com uma formação ainda a estudar, em função da inauguração do centro de documentação. EFE gc/pb

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