O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, anunciou que irá prosseguir com a expropriação de toda a indústria de cimento do país já que não houve acordo para a venda das cimenteiras. O anúncio foi feito durante seu programa dominical Aló Presidente.
Durante sua declaração, Chávez lembrou que o prazo para a nacionalização das empresas vence nesta segunda-feira.
O presidente não deu mais detalhes sobre o status e o resultado das negociações que foram iniciadas em abril, quando anunciou sua intenção de nacionalizar a indústria de cimento do país.
Três das principais empresas de cimento da Venezuela pertencem a grupos estrangeiros e serão afetadas pela nacionalização - a mexicana Cemex, que domina quase metade do mercado venezuelano, a francesa Lafarge e a suíça Holcim - que dividem o restante do mercado.
Acordo
Pelo decreto que regula a nacionalização, emitido em junho, as empresas teriam 60 dias para negociar uma "possível participação acionária". Esse prazo vence à meia-noite desta segunda-feira, horário de Caracas.
O decreto também previa a a possível prorrogação das negociações por "acordo comum" e estabelecia a data de 31 de dezembro como prazo para a entrega das instalações.
Ao fazer o anúncio, em abril, Chávez afirmou que pagaria "até o último centavo" pelas empresas. Na época, também se falava em um esquema de participação de até 40% para as companhias.
A BBC Mundo não conseguiu conversar com os porta-vozes das empresas que serão nacionalizadas para saber se havia sido impossível chegar a um acordo ou se rejeitavam participar das novas empresas cimenteiras.
Pelas palavras de Chávez é possível interpretar que as empresas serão expropriadas e receberão uma compensação que será determinada por uma avaliação feita pelo Estado venezuelano.
Política habitacional
Durante seu discurso no domingo, Chávez reforçou que a nacionalização das empresas busca inserir a indústria do cimento dentro do que define como a "economia socialista" e é necessária para impulsionar a política habitacional de seu governo.
O governo venezuelano acusa as companhias de exportar seu produto e deixar desabastecido o mercado local, onde cimento integra a lista de produtos de primeira necessidade cujo preço é controlado pelo governo.
As empresas argumentam que mais de 60% de suas vendas se realizavam dentro da Venezuela e garantem que o crescimento da demanda é a causa dos problemas na oferta do produto.
Ao mesmo tempo, o déficit de moradias na Venezuela aumentou em quase uma década durante a chamada Revolução Bolivariana e estimativas oficiais apontam que o saldo negativo chega 1,8 milhões de residências.
Trata-se de um tema extremamente delicado. As pessoas que exigem a posse das casas fazem protestos quase diariamente, bloquando ruas e fazendo manifestações em frente aos prédios públicos.
A oposição afirma que os protestos demonstram a ineficácia do governo.
Nacionalização
Nos últimos anos, o presidente Chávez empreendeu uma agressiva política de nacionalizações que incluiu a principal telefônica, o setor de eletricidade e a indústria siderúrgica.
Além disso, recentemente ele anunciou a compra do Banco da Venezuela, atualmente de propriedade do grupo espanhol Santander.
Segundo um estudo publicado pela consultoria Ecoanalítica, as nacionalizações podem custar até US$ 12 bilhões ao estado venezuelano.
O estudo sugere que o Estado pode arcar com os custos, já que a renda com o petróleo permite que essas despesas sejam pagas sem problemas.
De acordo com a consultoria, a eventual ampliação da política de estatização para outros setores da economia nacional exigiria a manutenção dos altos preços do petróleo.