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Líder anglicano defende lei islâmica na Grã-Bretanha

08/02 - 09:46 - BBC Brasil

O líder espiritual da Igreja anglicana gerou polêmica na Grã-Bretanha ao considerar como "inevitável" a adoção de certos aspectos da sharia, a lei islâmica, pela sociedade britânica.

 

Em uma entrevista de rádio veiculada na BBC nesta quinta-feira, o arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, disse: "O princípio de que existe apenas uma lei para todos é um pilar da nossa identidade como democracia ocidental. Mas acho que é um equívoco supor que as pessoas não tenham outras crenças que conformam e ditam como elas se comportam na sociedade. A lei precisa levar isto em conta".

As declarações provocaram polêmica e suscitaram críticas tanto do governo britânico quanto da oposição. Representantes da comunidade muçulmana elogiaram os comentários, mas demonstraram cautela.

Na entrevista à BBC, o arcebispo da Cantuária lamentou que cidadãos muçulmanos tenham de escolher entre "a fidelidade cultural e a fidelidade ao Estado", e sugeriu que disputas conjugais e financeiras em comunidades étnicas possam ser resolvidas através de uma corte islâmica.

"Ninguém em sã consciência gostaria de ver neste país o tipo de desumanidade que às vezes é associada à prática da lei em alguns países islâmicos: as punições extremas, assim como a atitude em relação às mulheres." Entretanto, ele acrescentou, "uma abordagem da lei que simplesmente diga 'só existe uma lei para todos' é um tanto perigosa". Para o arcebispo, a Grã-Bretanha precisa reconhecer que nem todos os seus cidadãos se identificam com o sistema legal britânico.

"Existe espaço para encontrar o que seria uma acomodação construtiva com alguns aspectos da lei islâmica, como já existe com alguns aspectos das leis religiosas", declarou o líder anglicano.

Críticas As declarações provocaram polêmica e colocaram o arcebispo sob críticas nesta sexta-feira. O porta-voz do primeiro-ministro, Gordon Brown, disse que o chefe de governo britânico "acredita que as leis britânicas devem se basear nos valores britânicos".

Já o ministro de Cultura, Andy Burnham, disse que a absorção da lei islâmica criaria um "caos social" na Grã-Bretanha.

E até a responsável da oposição por acompanhar assuntos comunitários, Baronesa Warsi, criticou o arcebispo: "O dr. Williams parece sugerir que deveria haver dois sistemas legais funcionando lado a lado, quase em paralelo, e que as pessoas tenham a possibilidade de optar por um ou por outro. Isso é inaceitável".

Pela lei inglesa, cidadãos podem encontrar sua própria maneira de resolver disputas, desde que ambos os lados concordem com o processo e com um mediador. As cortes islâmicas e judias ortodoxas que já existem no Reino Unido entram nesta categoria.

A sharia é um código legal e social cuja finalidade é orientar o comportamento de muçulmanos. Mas as punições extremas adotadas em alguns países islâmicos geram polêmica nos países ocidentais.

O diretor da Fundação Ramadã, Mohammed Shafiq, elogiou as declarações do arcebispo anglicano: "Acho que muçulmanos se sentiriam bastante confortáveis se o governo permitisse que seus assuntos civis fossem resolvidos segundo sua fé".

Já o porta-voz do Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha, Ibrahim Mogra, comentou: "Estamos falando da aplicação de apenas um pequeno aspecto da sharia para famílias muçulmanas, em assuntos como casamento, divórcio, herança, custódia das crianças e daí em diante".

"Vamos debater o assunto. É muito complexo. Não é tão simples quanto dizer que teremos um sistema legal aqui."

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