Áreas tribais paquistaneses comportam buraco negro informativo

Igor G. Barbero.

EFE |

Islamabad, 4 mai (EFE).- Cenário de notícias diárias de combates, sequestros, execuções e ataques de aviões não-tripulados dos Estados Unidos, o cinto tribal paquistanês que faz fronteira com o Afeganistão, local onde os talibãs e a Al Qaeda buscam refúgio, é um território de difícil acesso e cada vez mais perigoso para os jornalistas. Nesta sexta-feira as autoridades encontraram na demarcação do Waziristão do Norte o corpo de um ex-oficial dos principais serviços de inteligência do Paquistão (ISI) morto a tiros. Junto a outro membro do ISI, Khalid Khwaja ajudava um jornalista britânico a entrevistar um líder talibã, mas suas relações próximas com correntes muçulmanas não evitaram que no final de março os três fossem seqüestrados. Seu assassinato - e o futuro incerto dos outros dois - é o último ato de violência acrescentado aos riscos de quem se atreve a adentrar nas áreas tribais (Fata, na sigla em inglês), um território que nunca esteve sob controle do Estado. Com 27,2 mil quilômetros quadrados a região de montanhas sinuosas tem pouco mais de três milhões de habitantes nos seus sete distritos e as Fata são o epicentro de organizações e grupos insurgentes "jihadistas". "Quando Osama bin Laden fugiu para as Fata em dezembro de 2001 (após a invasão americana do Afeganistão), o lugar convidava tanto que nos anos seguintes ele não se afastou", escreveu em seu último livro o reputado jornalista paquistanês Ahmed Rashid. Segundo Rashid, as Fata mantiveram um status político anacrônico durante décadas pelo próprio interesse do Exército do Paquistão que pode alegar que o território não está sujeito à lei internacional e ao mesmo tempo o projetou como campo de ação para manter sua influência no Afeganistão. Mas desde 2001 o comando militar se viu obrigado a estreitar o cerco nas Fata e a lançar ofensivas antitalibas que foram ganhando intensidade: há tempo que já não se permite às agências humanitárias entrar e o assassinato de jornalistas levou muitos outros repórteres a abandonarem a região por medo. Segundo os analistas, a zona é "um buraco negro de informação" na qual é quase um milagre verificar de maneira independente notícias como as partes militares, que nunca incluem mortes de civis, ou as asserções dos insurgentes, acostumados a negar até o mais óbvio. "Os talibãs não querem repórteres ao seu redor, acham que só escrevem a favor do Governo e este não permite entrar nas Fata. Os poucos jornalistas tribais que há vivem sob grandes pressões tanto dos talibãs como das autoridades", expôs a à Agência Efe Pir Zubair Shah, um jornalista natural do Waziristão do Sul. Em julho de 2008, Shah, quem mantém contatos frequentes com fontes da insurgência, foi sequestrado junto a um companheiro fotógrafo por um grupo talibã na demarcação de Mohmand, onde tinha ido investigar a decisão dos fundamentalistas de transferir uma mina de mármore a uma tribo em detrimento de outra. Seu cativeiro terminou após quatro dias graças à mediação da cúpula insurgente, embora depois ele tenha sido submetido a interrogatórios de várias agências de inteligência paquistanesas durante mais dois dias. "Tive sorte de sair vivo, jogou a meu favor ser um pashtun do Waziristão", ressaltou. Na opinião de um alto funcionário do ISI consultado pela Efe, "muitas organizações internacionais pagaram nos últimos anos grandes somas de dinheiro para libertar seus trabalhadores" e os talibãs "aprenderam a explorar os meios de comunicação". O paquistanês Mohammed Rashid, que trabalha como guia e intérprete dos correspondentes estrangeiros há uma década, sabe bem até que ponto é assim. Apesar não ser pashtun, Rashid fala a língua e em suas numerosas visitas às áreas tribais lhe serviram para conseguir mais de uma centena de contatos insurgentes, mas ele não hesita em assinalar que o cenário mudou, os talibãs exigem frequentemente dinheiro em troca de entrevistas e veem os jornalistas com cada vez mais receio. No último ano, Rashid foi sequestrado em duas ocasiões: em junho de 2009, em plena ofensiva militar no vale de Swat. Os talibãs o mantiveram preso por 12 dias embora ele tenha terminado sendo libertado por ordem do chefe máximo local; enquanto em dezembro, o cativeiro se prolongou durante quase três meses, desta vez no Waziristão do Norte. Nos sete primeiros dias ele passou de um grupo insurgente a outro e nos outros 70 dias nas mãos das agências de segurança. "Quando preparo uma viagem a zonas de conflito, sempre espero que meus contatos me deem sinal verde, mas agora tudo ficou muito complicado. São muitos grupos e não se sabe bem a quem se dirigir. Ter o apoio de um não significa ter o de outro", raciocinou. EFE igb/pb

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