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Para especialistas, episódio fora do padrão rompeu linhas de transmissão

Especialistas ouvidos pelo iG acreditam que um episódio fora do padrão causou o apagão em 18 Estados do Brasil na noite de terça-feira. O Ministério de Minas e Energiu informou que a causa foi a queda de três linhas de transmissão que transportam energia da hidrelétrica de Itaipu - duas linhas entre os municípios de Ivaiporã (Paraná) e Itaberá (São Paulo) e uma terceira entre Itaberá e Tijuco Petro (em São Paulo).

Redação |

Para que 18 Estados brasileiros ficassem sem luz, algo fora do padrão ocorreu, explica o pesquisador e engenheiro elétrico Ivan Camargo, da Universidade de Brasília (UnB).

De acordo com Camargo, todos os meses, 600 linhas de transmissão de Itaipu são desligadas por causa de ocorrências, acidentes ou manutenção. No entanto, o consumidor nem fica sabendo. A cada dia, 20 linhas passam por algum episódio, mas o operador do sistema consegue driblar o problema sem afetar a transmissão buscando uma linha reserva ou isolando a área. Algo muito diferente deve ter ocorrido.

Para o pesquisador, o mais provável é que tenha sido uma tempestade fora dos padrões. Nunca vi três linhas de transmissão terem problemas ao mesmo tempo como o que ocorreu."

Na opinião de Camargo, o primeiro argumento apresentado pelas autoridades, de que teria havido sobrecarga no sistema, não se aplica nesse caso. Às 22h, hora do apagão, o consumo já está caindo. Não é a hora da sobrecarga, explica. Também não acredito que tenha ocorrido o efeito corona porque, para um apagão dessas proporções, as descargas deveriam ocorrer simultaneamente em muitos sistemas, completa, referindo-se a um fenômeno que ocorre quando pequenas descargas elétricas cercam o campo elétrico na superfície dos condutores. Quando chove, o efeito torna-se mais intenso por causa da presença das gotas nos cabos.

O professor Yaro Burian, da Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação da Unicamp, acredita que o blecaute foi causado por um fenômeno meteorológico. "22 horas não é hora de pico. O sistema está folgado e não é usual um acidente. Ventania e raios acontecem. As causas estão sendo investigadas e precisamos esperar o resultado desta investigação."

De acordo com o professor José Antonio Jardini, da Escola Politécnica da USP, ventos fortes podem ter ocasionado o apagão, embora ele prefira não apontar causas. "As linhas de transmissão são projetadas e calculadas para suportar ventos de até 120 km/h. Precisa ser uma ventania muito forte para danificar essas linhas de transmissão."

Jardini explica que, quando se faz o planejamento do sistema, a "queda" de qualquer elemento teoricamente não pode criar problema. Desta forma, Itaipu é composta por "duas metades": uma tem duas linhas de corrente contínua e outra, três linhas de corrente alternada.

Quando se projeta estas linhas, para evitar que elas caiam, costuma-se colocá-las em faixas separadas. De acordo com Jardini, Itaipu tem quatro faixas que ficam 10 quilômetros distantes uma da outra. Uma faixa, no entanto, tem duas linhas. "Isso foi feito para economizar dinheiro e para não encarecer o custo de energia para o consumidor. Mas tudo é baseado em estudos para saber se a saída de duas linhas da mesma faixa não cria problema."

Ainda segundo o professor, se houver a queda de uma linha, há apenas uma oscilação elétrica. Se duas linhas caem ao mesmo tempo, não necessariamente elas voltam rapidamente. "Se há dano, o conserto pode demorar uma semana."

Detectado o problema, todas as usinas são desligadas por precaução. "Aí é necessário montar o quebra-cabeça novamente. E nesta montagem também podem acontecer outros problemas."

No caso de Itaipu, a usina é responsável por 20% da carga de energia do País e, por isso, é difícil compensar o corte no abastecimento com energia de outras usinas. "Itaipu é uma artéria importante do sistema", completa Jardini.

Infraestrutura

O consultor Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, não acredita em fator meteorológico para o apagão na noite de terça-feira em vários Estados do País.

Pires diz que o País precisa modernizar a gestão das linhas de transmissão, principalmente as de longa distância como as de Itaipu, para que no momento de um acidente o problema seja equacionado antes de afetar tantas cidades.

"As linhas de transmissão muito longas no Brasil são muito mal-administradas. Em 1999, houve um evento igual ao de ontem (terça-feira). Na época falaram de raio, vamos ver o que vão falar agora", afirma Pires à Reuters.

O consultor lembra que - com a retomada da economia e o aumento de temperatura - a sobrecarga pode ter causado algum problema técnico, mas que com uma gestão mais eficiente o apagão poderia ter sido restrito a uma região. "Isso mostra que o Brasil está muito vulnerável, você não pode deixar um País com a dimensão do Brasil refém de acidentes."

Pires ressalta que em breve o País vai receber mais uma linha de transmissão de longa distância no rio Madeira, das usinas de Santo Antonio e Jirau. "Daqui a pouco vamos ter a linha do Madeira, também de longa distância. É preciso modernizar para quando tiver eventos desse tipo se consiga isolar o acidente e não afetar o Brasil inteiro", avalia.

Com Reuters

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