Itaipu cria interdependência entre Brasil e Paraguai, afirmam especialistas

SÃO PAULO - Por cerca de 15 minutos, 90% do território paraguaio ficou às escuras após a falha na usina de Itaipu, na fronteira entre Brasil e Paraguai. O apagão da última terça-feira mostra a vulnerabilidade do sistema energético brasileiro e ainda a dependência paraguaia da energia gerada na fronteira, afirmou o professor Gunther Rudzit, coordenador do curso de Relações Internacionais da Faculdade Armando Álvares Penteado (FAAP) e especialista em segurança internacional.

Leandro Meireles Pinto, iG São Paulo |

A usina de Itaipu, a segunda maior do mundo, fornece cerca de 20% da energia elétrica do Brasil e mais de 90% da energia do Paraguai.

Segundo Rudzit, Brasil e Paraguai têm hoje uma "interdependência" em relação a Itaipu. "Os países ficam vulneráveis", disse o professor.

Ele explica que o Paraguai precisa manter boas relações com o Brasil para garantir quase todo o seu fornecimento de energia, assim como o Brasil precisa ceder muitas vezes ao vizinho por causa da dependência que tem de Itaipu, especialmente no abastecimento da região Sudeste.


Usina de Itaipu / AE

O Tratado de Itaipu, assinado em 1973, estabelecia que cada país teria direito a 50% da energia gerada na usina. O Paraguai, porém, consome apenas 5% de sua cota e é obrigado a repassar ao Brasil, por meio da Eletrobrás, o excedente por um preço pré-estabelecido. "Isso é o que os paraguaios chamam de 'Imperialismo Brasileiro'", explica o professor Gunther Rudzit.

Raul Sturari, doutor em Política e Estratégia pela Escola de Guerra Naval, diz que, apesar das críticas, o acordo foi benéfico para os dois países. "No fim das contas, a parceria beneficiou os envolvidos. O Brasil conseguiu usar os recursos hídricos da região e o Paraguai não precisou investir milhões de dólares na construção", afirma Sturari.

Influência argentina

Além dos benefícios econômicos trazidos pela construção da usina de Itaipu, na década de 70, o acordo assinado entre os países também foi uma cartada diplomática para diminuir a influência da Argentina sobre o Paraguai.

"A construção de Itaipu foi uma decisão econômica e diplomática. Foi uma forma de amarrar o Paraguai à política externa brasileira e diminuir a esfera de influência argentina", afirma o professor Gunther Rudzit.

Segundo Raul Sturari, a parceria com o Paraguai foi além da usina e envolveu também o acesso ao porto de Paranaguá e às ferrovias brasileiras. "Esses acordos comerciais serviram para trazer o Paraguai para mais perto do Brasil, 100 anos após a Guerra do Paraguai", disse.

Sabotagem

A Administração Nacional de Eletricidade (Ande) do Paraguai descartou nesta quarta-feira que o blecaute que afetou todo o país na noite de ontem tenha sido fruto de uma sabotagem. De acordo com o organismo, uma falha no sistema elétrico brasileiro foi o motivo para o apagão, que durou entre 15 e 20 minutos no Paraguai.

"Descartamos totalmente toda a possibilidade de sabotagem, visto que a origem do colapso elétrico que afetou ambos os países foi uma perturbação no sistema elétrico brasileiro", afirmou a Ande, em comunicado.

Segunda maior hidrelétrica do mundo

A usina de Itaipu, criada na década de 1970 e considerada a segunda maior hidrelétrica do mundo, é utilizada por Brasil e Paraguai e se encontra na fronteira entre os países, no limítrofe rio Paraná.

Um dos principais objetivos do governo do presidente do Paraguai, Fernando Lugo, que assumiu a presidência em abril do ano passado, era a revisão deste acordo, alcançada no último dia 25 de julho.

O novo contrato, que faz parte de uma série de compromissos assumidos pelo Brasil em relação à usina, assinado pelos mandatários Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Lugo após quase um ano de duras negociações, determina que Assunção passe a receber três vezes mais pela energia comprada por Brasília, ou seja, US$ 360 milhões por ano.

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