Governo diz que foi "acidente", mas especialistas discordam

Para especialistas, blecaute expõe fraquezas no sistema de transmissão e necessidade de gerenciamento melhor das grades elétricas

iG São Paulo |

Quase 21 horas depois da queda de três linhas de transmissão que recebem energia produzida pela usina hidrelétrica de Itaipu e a transmite às regiões Sul e Sudeste, o governo culpou, em entrevista coletiva na noite de quarta-feira, o mau tempo pelo blecaute que atingiu 18 estados brasileiros na terça-feira. A informação já havia sido antecipada pelo iG , na madrugada de terça-feira.

"Foi um acidente", afirmou o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, acrescentando que apagões ocorrem em todos os países e que o de terça-feira não sinalizaria fragilidade do sistema brasileiro. "Eu tenho condições de dizer ao povo brasileiro que esteja tranquilo, o sistema que temos no Brasil é bom", garantiu o ministro.

AE
São Paulo; queda de três linhas de transmissão de energia causou o apagão em 18 Estados

Para especialistas em energia, porém, o blecaute expõe as fraquezas no sistema de transmissão do Brasil e a necessidade de um gerenciamento melhor das grades elétricas interconectadas.

"Esta foi uma falha de gerenciamento", disse Ildo Sauer, professor de energia da Universidade de São Paulo. "Não há falta de capacidade de geração, não há falta de capacidade de transmissão, não houve falta de investimentos no setor", ele disse. "O que está faltando é gerenciamento, comando e controle das operações".

Sauer também disse que os blecautes mostram que as reformas da grade elétrica feitas em 2003 e 2004, depois de uma série de blecautes, não "foram suficientes". 

Em entrevista ao iG , Sauer afirmou ainda que a existência de quase uma dezena de entidades públicas ligadas ao sistema energético brasileiro dilui as responsabilidades e acaba em muita conversa e pouca capacidade de comando. O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, que tem, como diz o nome, de monitorar o setor, não viu o buraco negro, afirma Sauer. O Conselho Nacional de Política Energética também. Sauer cita também a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e o próprio Ministério das Minas e Energia, ao falar da dispersão da gestão.

Para o consultor Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, o país precisa modernizar a gestão das linhas de transmissão, principalmente as de longa distância como as de Itaipu, para que no momento de um acidente o problema seja equacionado antes de afetar tantas cidades.

"As linhas de transmissão muito longas no Brasil são muito mal administradas. Em 1999 houve um evento igual ao de terça-feira, na época também falaram de raio", destacou. "Isso mostra que o Brasil está muito vulnerável, você não pode deixar um país com a dimensão do Brasil refém de acidentes", complementou.

Lula

Na quarta-feira, ao ser questionado se estaria havendo falta de investimento no sistema, como em 2001, quando houve um racionamento de energia no governo anterior, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que naquela época o País não produzia energia suficiente e não havia interligação do sistema.

"Duas coisas estão certas: não faltou geração de energia e o problema não foi de falta de linha para interligar", afirmou o presidente, evitando qualquer relação do apagão de ontem com o do governo passado. "Nós não tivemos (agora) falta de geração de energia. O que aconteceu em 2001 era que a gente não produzia energia suficiente. A gente ainda não tinha linha de transmissão para interligar todo o sistema elétrico. Hoje nós estamos com o sistema elétrico todo interligado", afirmou Lula.

O presidente disse ainda que em 7 anos o governo investiu em linhas de transmissão o equivalente a 30% de tudo que foi feito em 123 anos.

Blecaute

O distúrbio desencadeou uma queda de 40% na oferta de energia do país durante cerca de 3 horas e meia.

Segundo relatório do Operador Nacional do Sistema (ONS), foram afetados na totalidade São Paulo, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Espírito Santo e parcialmente Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Acre, Rondônia, Bahia, Sergipe, Paraíba, Alagoas, Pernambuco e Rio Grande do Norte.

O apagão teve início às 22h13 (horário de Brasília) da terça-feira, segundo o ONS. O Paraguai, parceiro do Brasil em Itaipu, também sofreu os efeitos do blecaute, porém por um período bem mais reduzido.

Itaipu anunciou a volta à normalidade no início da manhã desta quarta-feira, quando 18 das 20 unidades geradoras da usina voltaram a produzir energia para Brasil e Paraguai, e 10.450 megawatts passaram a ser transmitidos para os dois países.

O problema também provocou o desligamento das usinas nucleares de Angra 1 e Angra 2, no Rio de Janeiro, que voltaram a operar no início da noite desta quarta-feira, segundo informou a Eletronuclear em nota.

*Com reportagem de Cristiane Barbieri e Camila Nascimento, iG São Paulo, Lucas Ferraz, iG Brasília, e informações da agência Reuters e NYT

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