Apagões de 1999 e 2001 foram prenúncio de racionamento; para especialistas, não há crise de energia

RIO DE JANEIRO - Dez anos separam o apagão da noite de terça-feira do traumático racionamento de energia, durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas, apesar de racionamento e apagão serem completamente diferentes segundo os especialistas, o fantasma do racionamento voltou a ser lembrado.

Rodrigo de Almeida, iG Rio de Janeiro |

O economista Roberto Brandão, pesquisador sênior do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, lembra que, em 1999 e 2001, quando ocorreram grandes apagões, o sistema elétrico era frágil, e o volume de água nos reservatórios das usinas hidrelétricas mostrava-se bem abaixo dos seus níveis históricos. Havia uma conjuntura ruim, que combinava vários anos de investimentos insuficientes e poucas chuvas, diz Brandão.

O cenário é inverso este ano: os reservatórios de água das hidrelétricas estão em níveis muito mais altos do que há dez anos, e os investimentos em transmissão de energia elétrica são considerados satisfatórios. Por um lado, nunca se investiu tanto", afirma Brandão. "Por outro, a crise econômica provocou redução dos níveis de consumo. Segundo ele, o Brasil tem hoje energia suficiente para a carga existente. Ontem [na noite de terça] o problema foi de falha técnica, não de ausência de energia, como no apagão que levou ao racionamento em 2001, diz.

O apagão atormentou a vida da população de 18 estados, segundo informou nesta quarta-feira o Ministério das Minas e Energia. A causa: a queda de três linhas de transmissão que levam energia de Itaipu para os outros centros. Em 11 de março de 1999, 18 estados ficaram no escuro. O motivo alegado e questionado foi a queda de um raio numa subestação de energia em Bauru (SP). Em 2001, um desligamento em uma linha de transmissão entre as usinas de Ilha Solteira (SP) e a cidade de Araraquara (SP) foi a causa da falta de energia em 11 estados.

Perdas

É o fantasma do racionamento de energia de 2001 que explica a comparação. Os dois apagões enfrentados por FHC revelaram as deficiências da oferta de energia de que o país dispunha. A saída encontrada pelo governo foi o programa de racionamento, que duraria todo o ano de 2001 até março de 2002. Montou-se um gabinete dedicado ao gerenciamento da crise _a Câmara de Gestão de Crise de Energia elétrica, apelidada pela oposição de ministério do apagão. A Câmara era chefiada pelo então chefe da Casa Civil, Pedro Parente.

A partir de então, exigiu-se dos brasileiros uma economia de 20% nas contas de luz. Boa parte dos brasileiros _e dos investidores_ guarda na memória a conta do apagão daquele ano. Segundo relatório o Tribunal de Contas da União (TCU), a partir de uma contabilização da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o custo total superou a marca dos R$ 45 bilhões, em valores atualizados pelo IGP-M. Desse total, cerca de R$ 27 bilhões foram cobrados nas contas de energia residenciais e comerciais. O Tesouro Nacional cobriu o restante. A taxa de crescimento da economia despencou de 4,3% em 2000 para 1,3% no ano seguinte. A oferta de empregos chegou a cair 41%.

Em fevereiro de 2002, o então presidente Fernando Henrique Cardoso disse, em pronunciamento de rádio e TV, que o povo brasileiro tinha sido o grande responsável pelo sucesso do plano para economizar energia. Você apagou a luz e iluminou o Brasil, afirmou FHC, cuja popularidade sofreu abalos. Chegou a cair sete pontos percentuais nos primeiros três meses de racionamento.

Segundo o TCU, a crise energética quase voltou a ocorrer em 2007, apesar das medidas destinadas a aumentar a oferta de energia. Na ocasião, os reservatórios hídricos do país desceram abaixo da margem de segurança definida.  As usinas termoelétricas foram acionadas, mas, diante da insuficiência de fornecimento de gás, não foi possível usar toda a capacidade de reserva, aumentando o já elevado risco de déficit elétrico. Porém, as chuvas voltaram a tempo e em intensidade suficiente para recuperar os reservatórios.

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