Antibióticos monitorados ainda este ano

Anvisa pretende definir em setembro quais remédios do tipo terão a venda rastreada

Fernanda Aranda, iG São Paulo

Em setembro deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) prevê já ter escolhido quais antibióticos terão as vendas rastreadas nas farmácias do País.

Getty Images
Pesquisa mostra que bactérias estão mais resistentes ao uso de antibióticos
O critério para a seleção são os remédios do tipo mais dispensados nos pontos de venda e também os que mais apresentam indício de uso abusivo, contraindicado e perigoso por parte da população.

Quatro marcas, que ainda não tiveram os nomes revelados, são cotadas para o monitoramento, que permite saber quais são os médicos que mais prescrevem a droga, além das farmácias que mais venderam sem exigir receita médica.

A decisão pela Agência foi tomada após inúmeras pesquisas científicas constatarem a resistência das bactérias aos tratamentos clínicos disponíveis, o que indica diminuição de opções terapêuticas para vencer doenças como garganta inflamada, infecções severas e meningite. Participam do grupo de discussão sobre a restrição e o monitoramento dos antibióticos médicos, farmacêuticos, dentistas e veterinários.

Para os especialistas, a diminuição do efeito curativo dos remédios desta classe é resultado da venda descontrolada nos balcões, da automedicação e também da prescrição inadequada por parte dos médicos. Segundo eles, não é raro ver pessoas que não fazem o tratamento completo com os antibióticos (todos os dias necessários), guardam a sobra dos comprimidos e usam quando sintomas semelhantes aparecem em outra ocasião. Tudo isso interfere no ciclo e na eficácia do medicamento.

“Estamos em processo de definição da consulta pública e prevemos que, em setembro, já estejam escolhidos quais antibióticos vão entrar para o sistema eletrônico de monitoramento”, afirmou o presidente da Anvisa, Dirceu Raposo de Melo, durante a participação da feira de produtos médicos que ocorreu em São Paulo. “Mas de maneira geral, o que é preciso é um controle mais incisivo de todos os antibióticos vendidos. O comércio descumpre as regras e não exige a receita médica na hora da venda. A OMS (Organização Mundial de Saúde) já alertou sobre a maior dificuldade mundial de tratamentos por causa da resistência das bactérias”, completou.

Os primeiros antibióticos serão monitorados em um projeto piloto. Durante o ano passado, as drogas usadas para emagrecer passaram por processo semelhante. Das farmácias brasileiras, mais de 60% foram monitoradas e juntas venderam 6 toneladas de medicamentos usados para perder peso. Diante das informações, o Conselho Federal de Medicina abriu processos investigativos para apurar se houve comportamento errado por parte dos médicos mais prescritores.

Diagnóstico

O Conselho Regional de Farmácia de São Paulo fez um levantamento com duas mil farmácias e drogarias de São Paulo e constatou que 68% delas vendiam antibióticos sem exigência da apresentação da receita. O vice-presidente da entidade, Marcelo Polacow Bisson, ressaltou que nem todos os estabelecimentos contatavam com a presença de um farmacêutico, o que pode ter interferido no resultado.

Para ele, a situação atual da resistência das bactérias aos tratamentos antibióticos é crítica e o monitoramento das vendas uma ação necessária. “Há dois anos começamos a discutir essa questão. O monitoramento não seria necessário caso houvesse conscientização por parte dos farmacêuticos, médicos e população. Na Holanda, por exemplo, não há controle nem de psicotrópicos, porque não há uso abusivo”, afirmou o vice-presidente.

Bisson também é professor de administração farmacêutica e diz que o maior rigor na venda de antibióticos pode, sim, ter um impacto na economia. “Mas é um debate com cautela, porque a divisão é entre economia e saúde pública”, afirmou.

Dados

Segundo informações da Anvisa, os antibióticos movimentaram no ano passado R$ 1,6 bilhão e dados da OMS já evidenciaram que 50% das prescrições deste medicamento são inadequadas.

O Instituto Adolfo Lutz foi um dos que detectou o possível uso errado dos antibióticos. A pesquisadora Maria Cecília Gorla analisou 1.096 amostras da bactéria causadora da meningite e identificou que, em dois anos, elas ficaram 12,6% mais resistentes à penicilina e ampicilina, dois antibioticos muito usados no tratamento.

O trabalho mostrou que seriam necessárias mais doses para tratar o doente. Os resultados serviram de indício para o uso equivocado e para prescrição inadequada. "Já existem medicamentos mais potentes para o tratamento das infecções, mas se a cultura da automedicação e uso errôneo não mudar, é questão de tempo para as drogas ficarem menos eficazes", afirmou Maria Cecília.  

    Leia tudo sobre: Antibióticosanvisareceita médica

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG