Aliviada com a prisão do médico, a advogada Crystiane Cardoso de Souza, do Rio de Janeiro, teme que a Justiça relaxe a condenação e criminoso não fique na prisão

Crystiane Cardoso de Souza: vítima de Abdelmassih pulou de alegria quando soube da prisão do médico
Arquivo pessoal
Crystiane Cardoso de Souza: vítima de Abdelmassih pulou de alegria quando soube da prisão do médico

O telefone de Crystiane Cardoso de Souza tocou no meio da tarde desta terça-feira (19). Era sua irmã com a notícia que a advogada carioca esperava desde 2008: Roger Abdelmassih foi preso no Paraguai . "Estava no meio de uma reunião quando o telefone ligou. Depois de ouvir a notícia da prisão, pulei de alegria. Também chorei muito", relata uma das 52 vítimas do médico que foi considerado o papa da inseminação in vitro no Brasil.

Apesar da sensação de alívio, Crystiane diz: "Essa página nunca será virada".

Abdelmassih foi preso na capital paraguaia. O foragido, que estava na lista de procurados da Interpol, será transferido para São Paulo, informou a Polícia Federal (PF).

Abdelmassih estava foragido desde 2010 quando foi condenado pela Justiça a 278 anos de prisão e teve o registro cassado pelo Conselho Regional de Medicina (CRM) de São Paulo por 52 estupros e atentados violentos ao pudor contra suas pacientes.

Sensação de vergonha

Em 2008, Crystiane procurou a clínica de Abdelmassih para tentar engravidar. Foram três meses entre a primeira consulta e a implantação dos óvulos fertilizados. A advogada conta que foi abusada sexualmente pelo médico quando estava sedada para a retirada de seus óvulos. O efeito da sedação deste tipo de procedimento médico é parecido com o da endoscopia, conta. Ao perceber o que o médico estava fazendo em seu corpo, a paciente relata que se jogou no chão, ainda zonza, e se trancou no banheiro. Só saiu de lá quando o médico saiu da sala.


Crystiane diz que ficou com vergonha do que tinha ocorrido e contou para apenas duas amigas. Temeu que seu casamento fosse abalado com a história e que sua família sofresse. "Achei que aquilo só tinha acontecido comigo. Fiquei transtornada. Foram os piores dias da minha vida".

O tratamento para engravidar na clínica de Roger Abdelmassih custou cerca de R$ 60 mil. Depois do ataque do médico, Crystiane temeu que seus óvulos fossem usados e voltou à clínica. Ela exigiu uma condição: o implante dos óvulos deveria ser feito por outros médicos. "Só queria que os meus óvulos não ficassem nas mãos dele", conta.

Já fertilizada na clínica de Abdelmassih, Crystiane relata que a gravidez não aconteceu. "Eu estava desesperada. Não queria engravidar naquelas condições".

A gravidez não aconteceu. Mas Crystiane não desistiu da maternidade. Tempos depois, fez novo tratamento – desta vez no Rio – e hoje tem trigêmeos, de três anos.

Champanhe no gelo

Depois de festejar no escritório a prisão de Abdelmassih, Crystiane ligou para casa e pediu para a empregada colocar uma garrafa de champanhe para gelar. "Nem que seja apenas por hoje, mas quero comemorar a prisão dele". A advogada, que foi uma das primeiras vítimas a denunciar o médico, faz essa ressalva por temer que a Justiça afrouxe a prisão e permita que o criminoso fique em liberdade.

"Espero que os representantes da Justiça pensem nas suas mães, filhas, mulheres. E que entendam que é preciso ao menos um caráter pedagógico neste caso. Ele precisa ficar preso. A lei tem de ser cumprida", afirma a vítima.

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