Apesar de ainda precisar de ajustes, iniciativas do governo na internet abrem canal para garantir transparência de administração americana

No dia da posse de Barack Obama, o diretor de Novas Mídias da Casa Branca, Macon Phillips , anunciou que a mudança também havia chegado ao site WhiteHouse.gov. "Muitos americanos usaram a internet para ajudar a construir o futuro do nosso país", escreveu em seu blog. O novo site da Casa Branca é só o primeiro esforço da nova administração para expandir e aprofundar o engajamento online.

Depois de uma bem-sucedida campanha que usou emails, blogs, mensagens de texto e redes sociais para reunir cerca de 10 milhões de partidários no site MyBarackObama.com , a revista americana "Newsweek" classificou o novo presidente dos EUA como o primeiro grande político que realmente entende a internet. Por isso, a reformulação do site da Casa Branca anunciada por Phillips não foi surpresa. Segundo ele, Obama continuaria usando a internet com três conceitos em mente: comunicação, transparência e participação.

Reformulada, a página reúne ordens executivas e discursos feitos pelo presidente, além de vídeos, fotos, blogs, podcasts e newletters. Além disso, em duas ocasiões o site recebeu perguntas de internautas que foram selecionadas e respondidas por Obama em eventos transmitidos ao vivo pela Casa Branca. Na primeira iniciativa, em março, mais de 92 mil americanos enviaram cerca de 104 mil perguntas ao presidente.

Para Kelly Cutler, CEO da Marcel Media, uma empresa de consultoria em internet com sede em Chicago, a administração Obama pode ser considerada "a mais transparente e tecnicamente perspicaz de todos os tempos".

"Durante a campanha e o primeiro ano de mandato, Obama incorporou conceitos de Web 2.0, usou vídeo, blog, mensagens de texto e participou de redes sociais", afirmou ao iG . "Ele também se comunica com a população por email, Facebook , LinkedIn , MySpace e Twitter , tem um canal no YouTube , mais de 400 vídeos no Vimeo e quase 2 mil fotos no Flickr ."

Transparência

Brad Baumman, diretor de comunicações da Fundação Sunlight, que defende ações de transparência no governo americano, comemora a criação dos sites Data.org , que reúne dados, relatórios e estatísticas de todos os departamentos, e Recovery.org , no qual os americanos podem acompanhar como está sendo gasto o dinheiro destinado a recuperar a economia.

"O presidente definiu um novo e elevado padrão no que diz respeito à transparência e instituiu que, a princípio, todas as agências do governo devem considerar suas informações como públicas", afirma. "A administração Obama entende claramente que, no século 21, informação pública significa informação online."

As iniciativas ainda têm falhas, segundo Eric Kansa, professor da Escola de Informação da Universidade de Berkeley, na Califórnia. "Há problemas relativos à coleta e à qualidade dos dados", afirma. "O Recovery.org mostra que, para ser transparente, não basta tornar a informação disponível: é preciso dar mais atenção a seu significado."

A avaliação geral do professor, porém, é positiva. "As críticas ao Recovery.org mostram como as medidas de transparência são importantes e como os cidadãos têm grande interesse em ver esse tipo de sistema funcionando corretamente", acredita. "É um processo de aprendizado: os cidadãos precisam entender melhor quais são suas necessidades de informação e o governo precisa pensar em melhores formas de entregá-las. Para isso, será preciso tempo e interação."

Kansa comenta que o pouco financiamento destinado aos projetos relativos à transparência do governo é motivo de preocupação. "Se esses processos ficarem muito separados dos procedimentos normais de governo, se tornarão vulneráveis quando a liderança mudar", explica.

Brad Baumman reforça a necessidade de Obama pressionar o Congresso para que os avanços obtidos se transformem em lei. "A maioria das iniciativas relativas à transparência é obtidas por meio de ordem executiva ou diretiva presidencial, que podem ser facilmente revertidas na próxima administração", afirma.

A Fundação Sunlight também espera que Obama cumpra a promessa de colocar todas as leis aprovadas pelo Congresso na internet cinco dias antes de assiná-las, para que possam ser comentadas pela população. Além disso, Baumann acredita que o presidente deveria persuadir o Congresso sobre a importância de dar mais transparência ao processo legislativo, colocando todos os projetos de lei na internet 72 horas antes de serem votados.

Participação

Um ano depois da posse, também é possível questionar se Obama conseguiu manter vivo o movimento popular que impulsionou sua eleição. Na época, o MyBarackObama.com não funcionava apenas como site de campanha, mas como ponto de encontro entre pessoas que queriam se unir para mudar o país.

Para Eric Kansa, é difícil sustentar o entusiasmo que envolveu a figura de Obama durante a eleição, já que as prioridades de um presidente são outras. "Ele tem problemas e desafios enormes, além de uma oposição atuante e muita burocracia com a qual lidar", afirma o professor. "No governo as coisas acontecem mais devagar, envolvem trocas e acordos comprometedores e já não têm a mesma carga emocional da campanha."

Ainda assim, o professor acredita que as iniciativas para a internet do presidente Obama têm semelhanças com as do candidato. "Os projetos que tornam a administração mais aberta buscam fazer com que alguns aspectos do governo sejam mais participativos, como foi a campanha", explica. "No longo prazo, seu esforço terá um impacto positivo", afirma, "mas essa será uma longa e desafiadora jornada".

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