Obama leva características da campanha eleitoral para a Casa Branca

O Barack Obama que ocupa a presidência é o mesmo que ficou conhecido na campanha eleitoral, apenas mais cansado e grisalho

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Barack Obama é tudo aquilo que a América já esperava.

Pouca coisa a respeito do primeiro ano de Obama como o presidente dos Estados Unidos surpreendeu. O homem cauteloso, racional, enigmático que concorreu à Casa Branca é, em grande parte, o mesmo que a ocupa. Apesar de toda a promessa de mudança histórica da campanha eleitoral do primeiro presidente negro do país, a maioria das surpresas veio de eventos e não de sua postura em relação a eles.

Desde o princípio, com a empolgação de sua posse, maiorias mais amigáveis no Congresso do que qualquer outro líder executivo desde Lyndon Johnson, duas guerras, um planeta em aquecimento e desafios econômicos sem comparação desde a era de Franklin D. Roosevelt, até o fim, com disputas partidárias, um índice de aprovação dramaticamente em declínio e sem ter conquistado sua primeira grande vitória - o Obama de hoje é o mesmo de ontem, apenas mais cansado e grisalho.

Mas depois de 12 meses de trabalho real, e não de campanha, o presidente colocou seu estilo de governo em funcionamento de forma a oferecer uma imagem mais clara. Portanto, o que nós aprendemos? Em primeiro lugar, que ele é  um mestre das tonalidades, sempre com um "porém" na sua postura em relação a quase tudo.

Dez observações sobre a postura de Barack Obama:

Ele odeia rótulos.

Obama prometeu uma presidência pós-racial, pós-partidária, pós-ideológica. Ainda que essa teoria lhe tenha angariado votos, há quem critique tal presidência como uma que "joga para ambos os lados" após vê-la em prática, como é o caso do Instituto de Estudos Políticos. Poderia a sua campanha "Yes, we can" (Sim, nós podemos) ter se transformado em uma gestão When we can (Quando nós podemos)?

Obama tem enfatizado uma agenda radical que inclui: ajustar a economia ao mesmo tempo em que lida com problemas negligenciados há muito tempo, como o sistema de saúde, a mudança climática e a educação. Além disso, encerrar uma guerra, revisar outra e remodelar a imagem da América no mundo.

Sua forma de atingir tudo isso, no entanto, é cada vez mais afiada, e dificilmente purista:

* Ele recua em algumas posições, como em relação aos lobistas em sua gestão e à verba para projetos peculiares propostos por legisladores, ou é inconsistente, como ao lidar com a indústria automobilística de maneira mais dura do que com os bancos e financiadoras.

* Ele ganha espaço. Ele falou aos palestinos sobre não deixar a perfeição ser inimiga do bem em relação à expansão dos assentamentos judaicos, conselho que ele próprio seguiu e também deu ao Congresso.

* Ele prepara o terreno. Ele concordou com uma estratégia para o Afeganistão que combina a força física (acrescentando 30.000 tropas ao combate) com política (determinando a data inicial de uma retirada ao ordenar o impopular aumento).

* Ele evita confrontos, optando na questão do sistema de saúde e em outros casos em apenas delinear objetivos politicos amplos e se manter afastado dos detalhes até o momento certo.

Obama diz que tudo isso é pragmatismo (um rótulo que ele próprio adotou para valorizar sua postura), uma nova abordagem na qual políticas e coalizões são feitas de acordo com as circustâncias e não com posições preestabelecidas. Seus críticos dizem ser uma postura escorregadia.

Ele pode estar perto de um sucesso que irá possivelmente mudar as regras do jogo, com um projeto de lei para o sistema de saúde que mostrará que seus métodos podem funcionar. Mas o processo tem sido confuso e cansativo, decepcionando igualmente a direita e esquerda. Ele também não conseguiu acabar com a divisão partidária de Washington, conquistando poucos votos republicanos em questões fundamentais.

Sua primeira reação nem sempre é a melhor.

Quando os comentários incendiários do pastor Jeremiah Wright surgiram durante a campanha de Obama, ele subestimou e lidou mal com o assunto até que isso ameaçou suas chances de chegar à Casa Branca. Finalmente, ele acalmou o público com um discurso sobre raça que foi considerado um enorme sucesso.

Aquele padrão de quase-fracasso seguido por um resgate no último minuto se repetiu na Casa Branca. Lembre do estímulo econômico. Lembre do sistema de saúde

Recentemente houve outra demonstração dos primeiros instintos duvidosos de Obama. A tentativa de ataque a um avião a caminho de Detroit no Natal não fez com que o presidente, em férias, se proclamasse, na esperança de que seu silêncio evitaria que atenção demais fosse dada ao incidente e encorajasse outros possíveis terroristas. Quando falou ao público, ele foi apático. Foram necessários outros comunicados para que ele exibisse a urgência e furia que o quase-desastre parecia exigir.

Ele prefere não reagir imediatamente.

Sempre calculista e estudioso, Obama não age por instinto e sim sobre informação - muita informação. Ele reúne todos os fatos e cobre cada buraco de todos os ângulos.

Questionado no começo do ano sobre o motivo de sua raiva diante das gratificações exorbitantes concedidas pela financiadora AIG ter demorado tanto, Obama respondeu bruscamente ao repórter: "Eu gosto de saber sobre o que estou falando antes de falar."

Sempre seguindo um roteiro, Obama usa um teleprompter até mesmo em coletivas de imprensa.

Ele é o rei das revisões. Da prisão militar da Baía de Guantánamo, da guerra, do tiroteio na base de Fort Hood, do sistema de defesa de mísseis, da segurança cibernética, dapolítica urbana, dos penetras da Casa Branca - uma revisão é sua resposta preferida.

Ele é capaz de demitir pessoas; ele não se apega à lealdades superficiais. Mas quando a controvérsia acontece, não procura um bode expiatório.

Muitas pessoas nos Estados Unidos e ao redor do mundo se sentem encorajadas diante dessa troca do estilo instintivo de George W. Bush. Mas agora Obama também enfrenta dúvidas sobre ser um líder decisivo - ou oscilante.

Ele pode parecer frio.

Obama às vezes parece indiferente, frio, emocionalmente distante.

Ele é amoroso em locais privados, acessível e engraçado. Mas diante do público em uma questão crítica, seja sobre gratificações corporativas ou piratas somalianos, ele pode equivocadamente ignorar o tom que as pessoas esperam. Às vezes, mesmo quando diz que está bravo, ele não parece estar.

O cargo lhe cai bem.

Apesar de sua idade e inexperiência no governo, Obama assumiu o cargo mais poderoso do mundo com naturalidade. Estranhos não conseguem distinguir o nervosismo de um novato. Autoridades posicionadas revelam seu conforto com a posição. "Eu me sinto surpreendentemente confortável no cargo", disse o 44º presidente após duas semanas de governo. "Eu sou bom nisso", ele contou à revista People há algumas semanas.

O que poderia parecer arrogante durante sua campanha, pareceu firme no cargo.

Ainda assim, há momentos nos quais ele parece não entender - ou propositalmente não ligar - para o vasto poder que tem.

Ele é onipresente, gerando questões a respeito de uma possível superexposição. Mas será que está usando o púlpito presidencial ao máximo? Ele dá espaço demais aos outros em momentos críticos, como ao secretário do Tesouro Timothy Geithner em meio ao impopular resgate financeiro.

Ele favorece a sinceridade ao invés do otimismo.

Obama reconheceu "eu dei mancada depois da queda da indicação do ex-senador Tom Daschle como seu secretário da Saúde por causa de problemas fiscais, talvez o fato mais memorável de seu primeiro ano de mandato. Isso veio de um presidente que teve que ser persuadido a falar mais doce em relação à economia para dar alguma esperança aos americanos. Ele também disse "o problema para nas minhas mãos", em relação aos fracassos de inteligência que levaram ao quase ataque do avião comercial no Natal.

Ele também é o líder que disse à Europa, em solo europeu, que a América pode nem sempre ter a melhor resposta" ou que "todos os lados têm que chegar a um acordo, e isso nos inclui." Esta humildade no cenário mundial - bem acolhida no exterior, assim como em casa - tem sido uma marca oficial, parte da meta de Obama de enfatizar a colaboração com aliados ao invés de comandá-los.

Ele gosta de ensinar.

O professor de lei constitucional, filho de um antropólogo cultural, ficou conhecido como um orador impressionante durante a campanha. Depois, quase se tornou um conferencista convidado na Casa Branca - o professor-presidente.

Ao expor suas políticas, como aquela em relação aos interrogatórios terroristas nos Arquivos Nacionais ou a ruína econômica em Wall Street, sua postura em relação ao Afeganistão em West Point ou o aparato de inteligência na Casa Branca, ele parece frequentemente mais interessado em educar do que em persuadir.

Retoricamente qualificado, ele ainda desliza em seus discursos. Mas pode haver uma sensação de que a inspiração está se perdendo, talvez um sinal de que a tarefa de governar é muito mais difícil do que a de fazer uma campanha. Embora as políticas sejam bem pensadas, elas às vezes deixam as pessoas encucadas, analisando as propostas cuidadosamente argumentadas em busca das entrelinhas ou de algo que facilite a decisão - e que seja relevante às suas vidas.

Ele aprecia a arte da negociação.

Obama se mostrou um mediador entusiasmado e apto, nos Estados Unidos e no exterior.

O presidente administrou a diplomacia entre a França e China na cúpula econômica de Londres, superando uma disputa sobre paraísos fiscais. Em Estrasburgo, França, ele ajudou a resolver uma disputa em relação ao próximo secretário geral da Otan. Em Istambul, ele trabalhou paralelamente para normalizar as relações turco-armênias. Sua diplomacia de negociação acirrada ajudou a produzir um acordo limitado na conferência da mudança do clima em Copenhague.

Conforme uma decisão em relação ao sistema de saúde se aproxima, Obama presidiu maratonas de sessões de negociações na Casa Branca em busca de acordos em áreas mais difíceis.

Ele é tanto a águia quanto a pomba.

Ele abandonou um novo sistema de defesa que impedia a cooperação da Rússia em áreas críticas. Ele pareceu dar mais do que recebeu em uma visita à China em novembro. Sua gestão está julgando supostos terroristas do 11 de setembro em tribunais civis de Nova York. Ele proibiu a tortura e lançou uma investigação criminal sobre as táticas severas de interrogatório da gestão Bush. Ele quase abandonou a frase "guerra ao terror." O ex-vice-presidente Dick Cheney o chama de fraco em relação às questões de segurança.

Mas certamente também há um lado mais duro. Obama está impulsionando a guerra no Afeganistão, aumentando ataques com aeronaves não tripuladas contra suspeitos de terrorismo dentro do Paquistão e disputando com a Rússia em relação a um tratado de redução de armas. Ele está criando um novo pacote de penalidades contra o Irã e dando continuidade a uma série de políticas anti-terrorismo da era Bush, às quais a esquerda se opõe.

"A bolha" o incomoda muito.

Obama chama a situação de um estranho aquário, a constante vigilância da imprensa e o fato de estar acompanhado 24 horas por dia que vêm com a presidência.

Há seguranças do Serviço Secreto por onde quer que ele ande. A companhia sempre presente. O ciclo de notícias que nunca dorme e seus tentáculos em cada canto da internet. O fenômeno global único da popularidade que ele e sua família têm. As críticas por levar sua mulher à Nova York para sair, ir ao teatro e jantar, uma promessa feita durante a campanha.

Na história de Obama, tudo isso aumenta a falta de normalidade - a falta de oportunidade para uma vida espontânea. Ele reclama da postura imediatista dos repórteres.

Ele compensa um pouco mantendo seu Blackberry, levando seus dois melhores amigos de Chicago em suas viagens quando possível e jogando golf nos finais de semana.

Ele também admite prontamente uma enorme vantagem do escritório domiciliar que o ex-presidente Harry Truman chamava de uma "prisão glamourosa." Ele tem mais tempo para sua mulher, Michelle, e suas duas filhas agora do que nos anos anteriores que passou na política. Pelo menos quando não está viajando, uma vez que ele viajou ao exterior mais vezes do que qualquer outro presidente em primeiro ano de mandato.

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