O homem perfeito

Apesar da queda no encanto por Obama, ele ainda é um ícone pop, que transforma em celebridade uma mosca morta

Cadão Volpato, iG São Paulo |

O encanto inicial pode estar se dissipando, mas Barack Obama ainda é um personagem e tanto, um ícone pop do nosso tempo.

Mesmo sem grandes gestos políticos diferenciados, Obama é o outro lado da moeda de George W. Bush. Obama parece ser um bom sujeito e estar do lado bom da força. Obama é tão magro quanto Bush, mas muito mais elegante: note como os ternos lhe caem bem. Obama é classudo até matando uma mosca, como aconteceu durante a gravação de uma entrevista para a TV. A mosca morta virou celebridade.

Tudo parece no lugar quando se trata dele. Obama tem uma mulher altiva, descendente de escravos. Michelle é puro orgulho negro, num país em que os negros costumavam entrar em certos restaurantes pela porta da cozinha. Ambos são cultos e ao mesmo tempo relaxados. Há uma cumplicidade evidente entre eles. Michelle e Obama se tocam, como só duas pessoas que se gostam sabem fazer. E ele protege a ninhada, sendo um bom pai de família, mesmo nas longas ausências a que a política obriga. Como ter certeza disso? Basta conferir os risos familiares distribuídos nas fotografias. Os Obama gostam de rir e de se abraçar.



Desde Kennedy a Casa Branca não era povoada por crianças tão adoráveis, do tipo que se esconde debaixo da escrivaninha do presidente, como John-John na foto famosa. Malia e Sasha, aliás, já estão em fase mais avançada. Ainda que o pai, por ter perdido o poder sobre o controle remoto familiar, tenha sido tão exposto ao personagem Bob Esponja que acabou virando o fã mais importante do planeta. Qualquer pai do mundo entende que isso é perfeitamente possível mesmo entre adultos.
Reprodução
Imagem de Sasha (à dir.), escondida atrás de sofá, mimetiza foto célebre de John-John embaixo de escrivaninha de seu pai, o ex-presidente John Kennedy

Na última Páscoa, nos jardins da Casa Branca, o presidente leu para uma plateia infantil um de seus livros favoritos, o clássico Onde Vivem os Monstros, de Maurice Sendak, que acaba de chegar aos cinemas. São apenas dez frases, mas Obama encantou a criançada da mesma forma que vem encantando o mundo, como se não houvesse nada mais simples e natural.

Um personagem assim tão correto deveria impor certas dificuldades aos caricaturistas. Afinal, brincar com a simpatia é algo meio sem graça. Piadas racistas seriam crucificadas. Uma rápida busca pelo humor relacionado a Obama revela que os cartunistas se superaram. O filão está nas contradições do bom presidente. O Nobel e a guerra do Afeganistão foram dois dos alvos favoritos.

O engraçado e premiado Mike Luckovich, por exemplo, desenhou o presidente esticando o pescoço para receber o prêmio direto do canhão de um tanque americano. O queixo comprido, as orelhas de abano e o sorriso exagerado podem ser vistos em todos os cartuns. Obama fica bem mesmo caricaturizado.

O mundo está cheio de políticos que guardam com carinho as imagens bisonhas que os cartunistas produzem sobre eles, mas poucos desses homens públicos têm a imagem tão boa quanto Obama, que fez sucesso também na China, onde apareceu em camisetas usando a célebre boina de Mao Tsé-Tung.

Getty Images
Marca de casacos Weatherproof usa Obama como garoto propaganda: Casa Branca exigiu retirada do anúncio não autorizado

Foi na China que o presidente posou para uma foto diante da Grande Muralha usando um casaco Weatherproof, que a empresa tratou de enquadrar num gigantesco outdoor no centro de Manhattan, sem pedir autorização ao modelo. O fato é que a imagem de Obama, tão bem exposta no genial cartaz de campanha criado pelo jovem skatista e marqueteiro Shepard Fairey, já pertence à galeria escassa de ícones dos anos 2000.

Melhor que seja ele: um cara que tem Bob Dylan, Frank Sinatra e John Coltrane no iPod, que adora os dois primeiros filmes da série O Poderoso Chefão - e acha o terceiro ruinzinho -, educado fora do eixo etnocêntrico americano, entre o Havaí e a Indonésia, por uma mãe tão interessante. Um cara capaz de jogar basquete com a graça de um Lebron James. O que poderia ser melhor para o nosso imaginário? Até segunda ordem, Obama é o homem perfeito.

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