No primeiro ano de Obama, entusiasmo e atritos marcam relação de EUA e Brasil

Ampliação da influência brasileira fora da América do Sul, sua área de projeção, aumenta chance de divergências com EUA

Luísa Pécora, iG São Paulo |

Para os brasileiros, talvez a mais memorável frase de Barack Obama durante seu primeiro ano de governo tenha sido dita em abril, durante a reunião do G20 em Londres. "Esse é o cara", disse ele, apontando para o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. "Adoro esse cara."

O entusiasmado encontro entre os dois líderes é símbolo da euforia inicial que marcou a relação entre Brasil e EUA no primeiro ano de Obama no poder. A visita de Lula à Casa Branca, em março, também foi cheia de sorrisos, elogios e planos de parceria.

No segundo semestre, começaram as discordâncias. Em agosto, o governo da Colômbia anunciou a assinatura de um acordo militar que permitiu o uso de sete bases colombianas pelos EUA. O anúncio incomodou Brasil, Equador e Venezuela, e obrigou o presidente colombiano, Álvaro Uribe, a prometer que daria garantias de que o tratado se limitaria ao território de seu país.

Em setembro, o presidente deposto Manuel Zelaya voltou clandestinamente a Honduras, de onde tinha sido expulso por um golpe de Estado em 28 de junho, e se hospedou na embaixada brasileira, dando início ao episódio de mais atrito entre Lula e Obama. De um lado, o Brasil decidiu não negociar com o governo de facto e não reconhecer as eleições presidenciais, realizadas em 29 de novembro. De outro, os EUA condenaram o golpe, mas reconheceram a eleição.

Na época, o assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, disse que o governo Obama tinha sabor de decepção. Por sua vez, o presidente americano enviou uma carta a Lula defendendo a atuação dos EUA na crise.

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Lula e Obama, durante encontro do G-8, em julho de 2009


"No caso de Honduras, enquanto os EUA se mostraram hesitantes, o Brasil foi o oposto: apostou muito em Zelaya", afirma Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da PUC-SP.

O professor não acredita, porém, que Honduras tenha representado um afastamento entre Brasil e EUA. "Ao mesmo tempo em que os EUA trocaram de governo e ainda não deixaram claro qual é sua doutrina para a América Latina, cresceu a influência do Brasil na região e em todo o mundo. Esse é um momento de aparar arestas, acomodar interesses e conversar", explicou. "É natural que surjam problemas, mas os países não deixarão de ser aliados."

Para o professor, o mesmo cenário se aplica ao mal-estar causado pela aproximação do Brasil com o Irã, marcado pela visita a Brasília do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, em novembro. "Por mais que o diálogo com o Irã possa causar problemas, o Brasil não será visto pelos EUA como uma Venezuela", opina Nasser. O Brasil não está cedendo ao Irã, porque apoia o Tratado de Não-Proliferação Nuclear e condena a violação dos direitos humanos.

Haiti

A tragédia no Haiti, atingido por um terremoto no dia 12 de janeiro, também pode se tornar um ponto de tensão entre os países. O Brasil comanda a missão de paz da ONU desde 2004, mas os EUA assumiram papel de liderança nos esforços humanitários pós-terremoto, além de terem anunciado o envio de 10 mil militares ao país e passado a controlar o aeroporto do Haiti.

Reginaldo Nasser lembra que, desde o século 19, os EUA veem o Caribe e a América Central como uma área de segurança nacional. "Washington se envolverá na questão do Haiti independentemente da ONU e do Brasil, porque uma tragédia como essa, além de causar instabilidade na região, pode criar um fluxo de refugiados", afirma. "Sem dúvida assumirão a tarefa principal, até porque têm mais capacidade militar e econômica para atuar", afirma, pontuando que os americanos não vão querer desperdiçar ou criar obstáculos à entrada dos soldados brasileiros no Haiti.

O professor avalia também que as divergências sobre Honduras, Irã e possivelmente Haiti ocorrem à medida que o Brasil atua fora da América do Sul, sua área de projeção. Para Nasser, o governo brasileiro tem o desafio de equilibrar sua ação política. "Não há problema em ter perspectivas de liderança fora da América do Sul, mas o Brasil não pode querer fazer arroubos que não tem recursos e condições de manter", opina.

"Para Obama, o desafio é se adequar ao novo peso político do Brasil e definir uma política clara para o País e toda a América Latina. A nomeação de Thomas Shannon para embaixador em Brasília é vista como símbolo da importância do Brasil. Shannon é um homem de peso na diplomacia americana, muito respeitado tanto por democratas quanto por republicanos", afirma Nasser. "Simbolicamente, dará mais destaque ao Brasil."

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