EUA saem da recessão, mas sem indicadores de crescimento sustentável

Apesar de alcançar resultados positivos na recuperação da economia, política de incentivos de governo aumenta déficit do país

Nelson Rocco, iG São Paulo |

O presidente Barack Obama conseguiu tirar a economia da recessão, com incentivos e ajuda a diversos setores, mas ainda está longe de mostrar indicadores de crescimento sustentável no longo prazo. Foram quase US$ 800 bilhões em incentivos fiscais e sociais, mais US$ 50 bilhões para as montadoras, além dos US$ 700 bilhões aprovados pelo Congresso ainda no governo de George W. Bush (2001-2009) para salvar bancos e empresas financeiras, num total de US$ 1,55 trilhão - o equivalente a um Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. 

O PIB americano começa a mostrar os efeitos dessa inundação de recursos. Os números do terceiro trimestre de 2009 - último dado disponível - foram revisados para baixo, mas ainda assim marcando 2,2% de crescimento, depois de quatro trimestres de baixa. O fundo do poço foi vivido pelos americanos de janeiro a março do ano passado, quando a economia encolheu 6,4%.

"Eles saíram da recessão. Irão para um crescimento de 1,5% a 2%, na melhor das hipóteses. Isso para o padrão americano é meia velocidade. Ano bom é com crescimento de 3%. Mas, de qualquer forma, para quem estava em recessão, é bom", avalia o economista Simão Silber, professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP). "Jogaram dinheiro de helicóptero, para Deus e o mundo, o que foi importante para reverter a crise."

Para Simão, uma boa notícia é que o desemprego parou de subir, o que ajuda a manter os rumos da economia, já que dois terços da riqueza gerada nos EUA provém do consumo das famílias. E, sem emprego, ninguém consome. Apesar de parar de cair, dificilmente ao longo de 2010 os indicadores de emprego voltam a subir. É que as empresas aproveitaram a crise para enxugar vagas. O emprego não voltará aos níveis pré-crise, afirma o economista.

Os dados do Departamento de Trabalho dos EUA informam que houve a perda de 85 mil vagas em dezembro, contrariando as estimativas dos analistas que previam um corte menor, de 10 mil. A tendência, no entanto, é de recuperação. Os números de novembro foram revisados pelo órgão para um crescimento de 4 mil vagas, o primeiro mês com saldo positivo desde o início da recessão, no final de 2007. A informação preliminar dava conta de corte de 11 mil empregos naquele mês. Outro ponto positivo é que, nos três últimos meses do ano passado, a economia eliminou 69 mil postos de trabalho por mês, 10% do volume que vinha sendo dispensado no primeiro trimestre, quando a média mensal ficou em 691 mil.

Incentivos setoriais

O economista Reinaldo Gonçalves, professor titular da economia internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que o principal fator para o sucesso econômico do presidente Barack Obama foram os incentivos fiscais no valor de US$ 787 bilhões, anunciados em fevereiro. O pacote fiscal foi bem-sucedido no sentido de interromper a retração da economia.

O pacote elaborado por Obama com a ajuda de renomados economistas elevou os benefícios oferecidos aos desempregados, aumentou os gastos com saúde pública e os previdenciários. Esse conjunto de despesas estancou a queda livre da economia americana, reforça Gonçalves.

O programa consistiu em uma série de incentivos. Para as pessoas físicas e pequenas e médias empresas, houve redução nas alíquotas de Imposto de Renda nos anos de 2009, 2010 e 2011. Outra parte foi destinadas à educação, com a concessão de bolsas de estudos e crédito para estudantes. A seguridade social foi beneficiada com recursos para assistência à saúde, seguro-desemprego e aposentadorias. A quarta parte do projeto estabeleceu incentivos ao setor produtivo, principalmente dos setores de energia, defesa e tecnologia da informação, com ênfase em pequenas e médias empresas.

Se a política macroeconômica e de incentivos do governo Obama tem mostrado resultados e recebido elogios, o mesmo não pode ser dito em relação à política monetária. Como forma de incentivar a liquidez, o Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) cortou a taxa de juros básica da economia diversas vezes desde o recrudescimento da crise financeira, em setembro de 2008. Está próxima de zero, ou 0,2% ao ano. O governo vem rodando um déficit brutal. No curto prazo, funciona. Mas não no longo prazo, afirma Simão Silber. O déficit fiscal do primeiro trimestre do exercício de 2010 subiu quase 17%, de US$ 332,5 bilhões nos primeiros três meses do exercício de 2009 para R$ 388,5 bilhões. O ano fiscal americano começa em 1º de outubro.

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