Ascensão brasileira aumenta responsabilidade de País no mundo, diz cônsul americano

Com aumento da importância política e econômica do Brasil, EUA buscam ampliar diálogo estratégico e global com governo brasileiro

Leda Balbino, IG São Paulo |

No ano passado, divergências sobre a abordagem da crise em Honduras e a polêmica visita do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, ao Brasil causaram certo mal-estar entre Brasília e Washington. Mas isto, segundo o cônsul-geral dos EUA em São Paulo, Thomas White, não impede a colaboração dos dois países. Sempre teremos problemas, somos dois países independentes e com pontos de vista próprios. Mas colaboramos muito, mesmo em áreas que temos diferenças, afirmou em entrevista ao iG , no dia 14.

Segundo White, com a chegada a Brasília do novo embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, os EUA continuarão buscando aprofundar o diálogo estratégico e global que mantêm com o Brasil, visto como poder em ascensão pela comunidade internacional. A Casa Branca decidiu nomear para Brasília seu principal diplomata para a América Latina porque o Brasil é o país mais importante da América do Sul, disse.

Divulgação
O cônsul-geral dos EUA em São Paulo Thomas White


Exemplificada na liderança da Missão de Paz da ONU no Haiti, a crescente importância do Brasil no mundo, porém, também implica mais responsabilidade em questões internacionais, afirma o cônsul. O caso do Irã seria um exemplo disso. Com uma posição no Conselho de Segurança da ONU, é fundamental que o Brasil faça parte do consenso internacional (sobre o programa nuclear iraniano), porque tem mais peso agora do que no passado, afirmou. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Como Brasil e EUA podem cooperar nos trabalhos atuais de ajuda imediata ao Haiti e na reconstrução posterior do país?
O Brasil tem uma posição central nas questões sobre a ajuda à população haitiana, assim como os EUA, que têm muitos recursos perto do Haiti. A trágica perda de tantos brasileiros que trabalhavam pela estabilidade e desenvolvimento do país é um grande sacrifício que vem com a responsabilidade que o Brasil assumiu. Os EUA também têm uma grande responsabilidade no país e estão dispostos a colaborar com o Brasil e outras nações nesse trabalho, que será grande e de longo prazo. O fato de o Brasil liderar a Missão de Paz da ONU ajudará porque o País tem muito conhecimento sobre os bairros e a população local. Os haitianos confiam nos soldados do Brasil.

A cooperação nessa tragédia pode representar uma oportunidade real de parceria entre os dois países?
O Haiti é um exemplo de como a relação entre Brasil e EUA está se desenvolvendo. Como poder regional, os EUA sempre tiveram responsabilidade na região, o que é natural por causa de nossos recursos e capacidade de agir. O fato novo agora é a crescente importância política, econômica e em questões energéticas do Brasil no mundo, tendo como exemplos o G20 e a participação na Cúpula da ONU sobre Mudanças Climáticas em Copenhague, em dezembro. Há possibilidade de colaborar no Haiti porque o Brasil tem mais capacidade e está presente de um modo que não era comum no passado. A responsabilidade brasileira no Haiti é um símbolo de um País mais global, mais envolvido nas questões internacionais. Obviamente, uma colaboração vai ajudar na relação dos dois países.

Também ajudará para melhorar a imagem dos EUA na região?
Houve muita polêmica quando se restabeleceu a Quarta Frota, em 2008. Mas será ela que organizará a maior parte da ajuda logística dos EUA para o Haiti. Quando ela foi restabelecida, o governo americano explicou que não era uma ameaça à independência dos países. O objetivo era uma organização mais rápida e eficiente dos EUA em questões humanitárias e de combate ao tráfico de drogas. Esperamos mostrar isso na tragédia do Haiti.

A visita da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, está confirmada para março?
Ainda não há confirmação oficial, mas há a intenção de que ela venha em breve. Quando ocorrer, terá o objetivo de aprofundar as discussões que já existem entre Washington e Brasília sobre questões globais, regionais, bilaterais. É importante lembrar que Lula foi o primeiro presidente latino-americano a visitar a Casa Branca, e ele e Obama já mantiveram se encontraram novamente na Cúpula das Américas e no G20, em Pittsburgh. O novo embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, deve se estabelecer definitivamente no Brasil em 4 de fevereiro, quando há previsão de que apresente suas credenciais ao Planalto. Com sua presença aqui, é mais provável que a visita de Hillary ocorra mais rapidamente, talvez em março. E, depois da secretária, eventualmente a do presidente Obama.

Quais devem ser as prioridades de Shannon?
A nomeação de Shannon para a embaixada do Brasil tem um significado. Antes ele era secretário de Estado adjunto para a América Latina, e a Casa Branca decidiu nomear para Brasília seu principal diplomata para a região porque o Brasil é o país mais importante da América do Sul. Claramente queremos construir com o governo brasileiro um diálogo estratégico, global, não somente regional. Com o aumento da importância brasileira no mundo e agora com uma posição no Conselho de Segurança da ONU (CS da ONU), temos um diálogo bem mais amplo do que no passado. Shannon tem experiência no Brasil, fala português, o que facilitará sua comunicação com o governo brasileiro, a população e os meios de imprensa.

Em fevereiro, o governo Obama deve tentar aprovar novas sanções contra o Irã por seu programa nuclear. Como o Brasil ocupa desde 1º de janeiro uma cadeira no CS da ONU, terá de se posicionar sobre a questão. Qual a expectativa dos EUA e como veem a aproximação entre Brasil e Irã?
O governo americano tentará construir um consenso sobre as medidas necessárias para pressionar o regime iraniano. Esperamos que todos os membros colaborem, incluindo o Brasil. Há um amplo consenso na comunidade internacional sobre o programa nuclear do Irã. Várias sanções já foram aprovadas e é fundamental um regime de inspeção internacional dos projetos do país. Teerã tem problemas em relação aos direitos humanos, à falta de democracia e de liberdade de expressão. Os EUA não se opõem ao diálogo entre os governos brasileiro e iraniano. Mas o que importa é o significado disso, qual sua direção. O Brasil apoia o consenso internacional sobre o que o Irã precisa fazer, fortalece a mensagem da comunidade internacional? Com uma posição no CS é fundamental que o Brasil faça parte desse consenso, porque tem mais peso e mais responsabilidade agora do que no passado. Esperamos que o Brasil faça isso.

Mas algumas declarações indicam o contrário. Em junho, por exemplo, Lula caracterizou como choro de perdedor as manifestações contra a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad que foram reprimidas no Irã...
Pelo menos do ponto de vista dos EUA, o resultado das eleições em Honduras representou mais uma expressão legítima da população hondurenha do que o resultado das eleições do Irã. A reação das populações dos dois países é uma indicação disso. É importante apoiar a democracia, não legitimar eleições ilegítimas. Mas isso é uma decisão do governo brasileiro.

Houve divergências entre os dois países na abordagem da crise em Honduras. A posição americana foi considerada dúbia no caso. O governo Obama inicialmente condenou o golpe, mas no final acabou reconhecendo as eleições...
Sempre teremos problemas, diferenças, somos dois países independentes e com pontos de vista próprios. Mas colaboramos muito, mesmo em áreas que temos divergências, como no caso de Honduras. Em Tegucigalpa, a nossa missão diplomática e a do Brasil colaboraram muito para tentar resolver a situação. Assim como o Brasil, os EUA concordam que as ações no país não foram legítimas, que a solução justa teria sido a renúncia do (presidente do governo de facto) Roberto Micheletti, o estabelecimento de um governo de unidade nacional e a restituição de (Manuel) Zelaya. Mas isso não ocorreu. Houve uma eleição considerada transparente e temos agora um presidente eleito pela população hondurenha. Tanto Brasil quanto EUA apoiam a democracia em Honduras e querem o desenvolvimento econômico e social do país. Qual o caminho certo para isso? Podemos continuar insistindo que a situação atual é injusta - como realmente é - ou trabalhar a favor da população hondurenha e da estabilidade política do país. Esperamos que todos reconheçam o resultado das eleições e (Porfírio Pepe) Lobo como presidente. Parece que ele tenta formar um governo de unidade nacional, e isso seria bom.

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