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Jair Stangler, repórter do Último Segundo
Em 1968, a internet era alguma coisa entre um segredo militar e uma idéia de ficção científica. As telecomunicações já eram um fato, embora estivessem absurdamente distantes da velocidade e do alcance que têm hoje. As longas assembléias de 1968 que nada decidiam perderam o sentido em 2008. “O jovem de hoje está na dele, está lá, no computador. A gente diz: “Ah, eles são uns alienados, ficam ali o dia inteiro no computador”, mas eles estão se comunicando no computador”, diz Zuenir Ventura. Ele fala sobre as barricadas de 2008 e sobre a diferença entre as gerações na terceira parte de sua entrevista.
As manifestações recentes na França podem ser comparadas ao maio de 68?
Há formas de lutas sociais implantadas em 68 que permanecem, a mobilização das pessoas, a participação pública, isso realmente é uma forma de pressão democrática que 68 praticou muito. Às vezes havia essa prática em excesso, como era a coisa das assembléias, você ia para a assembléia para decidir e não decidia nada, porque todo mundo queria falar, expressar sua opinião, manifestar... Mas hoje surgiram outras formas de expressão, como a internet, o celular. Durante as CPIs, muitos parlamentares recebiam ligações, e depois se soube que muitos mudaram de atitude em função da pressão de seus eleitores. Isso é muito feito pela internet também. São formas novas de manifestação, não pode achar que as únicas formas de manifestação são as passeatas. Em muitos casos, como a greve, se desgastou muito, e às vezes não tem efeito. Às vezes tem até um efeito contrário, como alguns remédios que você toma, porque não tem o apoio da opinião pública. Em alguns setores você não fica solidário com os grevistas, mas, ao contrário, fica com raiva, porque ele está atrapalhando o trânsito, atrapalhando a sua vida. Então, tem muita coisa que precisa ser revista, e muita coisa que ficou. A forma de participação popular é uma coisa que é muito própria da democracia, mas você tem de adaptar essas formas ao mundo moderno.
O escritor Olivier Rolin, uma das lideranças do maio de 68, destaca que há 40 anos havia uma utopia, que desaparece nas manifestações recentes, que teriam objetivos mais pragmáticos. Ainda segundo ele, isso seria um avanço.
A utopia não é um valor em si. Você tem uma utopia do mal. Quer dizer, o nazismo é uma utopia. O comunismo, o stalinismo, foram utopias. Então, nesse plano, que bom que acabou a utopia. Agora, a utopia como projeto, como sonho, como desejo, isso não acaba nunca, inclusive no plano pessoal. Imagina você viver sem sonho, viver sem desejo, sem vontade de transformar sua vida, de melhorar, de melhorar o mundo. Isso realmente é impossível, aí é a morte, é o horror. Tanto que uma das coisas que eu digo é que “o sonho não acabou”. Claro, entendo o que John Lennon disse. Ele quis dizer que acabou naquele sentido da coisa meio no ar, de fantasia. O Fernando Henrique Cardoso, uma resposta que ele dá é que não há esquerda sem utopia. É do ser humano. Uma das diferenças dele para os outros animais é que ele tem projeto de futuro, ele pensa no amanhã. E quando você pensa, você deseja. O sonho não acabou, acho que o pesadelo é que acabou. As drogas eram o pesadelo. Tem que primeiro jogar fora a utopia do mal, é você querer um mundo perfeito, um homem perfeito e em nome disso você matar os imperfeitos. Cuba teve uma revolução tão bonita e desvirtuou no momento em que começou a matar todos aqueles que não estavam de acordo com aquele projeto de país, aquele projeto de homem. A utopia tem pelo menos dois lados. Tem um lado que é péssimo, que é horroroso.
A geração de hoje é mais apática que a de 40 anos atrás?
Eu chamaria a de hoje de “anomia”, que é aquela coisa de você não querer regras, não querer limitações, nenhuma imposição. Porque ela é acusada de apatia, hedonismo, não se interessa pela política, não se interessa pela ideologia, não tem nenhum apego ideológico. Realmente, não tem. Mas às vezes não tem por razões até muito objetivas. A política hoje não tem o menor charme. Imagina, você vai propor a um jovem hoje ele ser candidato a senador, você acha que ele vai pensar que esse é o sonho da vida dele? As condições naquela época eram outras. Mudou tudo. Mudou inclusive o conceito de geração. Hoje não se pode mais falar em geração, se fala em tribos. Hoje é tudo segmentado, inclusive os jovens formam grupos segmentados. Você tem os funkeiros, os universitários... Agora tem as subtribos, tem os emos...
Diante desse cenário, é difícil imaginar um outro 68?
Eu acho que não. A gente tem um olhar muito preconceituoso sobre os jovens de hoje, da mesma forma que a geração anterior tinha sobre a turma de 68. Agora, como era uma geração muito agressiva, ela respondia dizendo: “Não confie em ninguém com mais de 30 anos”. Ela revidava dessa maneira. O jovem de hoje está na dele, no computador. A gente diz: “Ah, eles são uns alienados, ficam ali o dia inteiro no computador”, mas eles estão se comunicando no computador! Então é preciso olhar com mais simpatia e generosidade para esses jovens. Nós temos que entendê-los, não o contrário. Tem muito estereótipo com relação a isso. Mas quando você começa a conviver, entrevistar, vai ver que eles têm preocupações. Não têm projeto porque não é próprio deles, pelo seguinte: tudo está tão incerto que, como é que você vai dizer para eles como se dizia em 68 – o futuro, vamos construir um projeto para o futuro. Você não sabe se vai ter futuro. Você não sabe nem se vai ter planeta. Não sabe se vai ter água, se vai ter Amazônia, se vai ter ar para respirar. Então a gente está querendo viver o aqui e agora.
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