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Jair Stangler, repórter do Último Segundo
O presidente francês Nicolas Sarkozy, quando ainda era candidato, conclamou os franceses a romperem com o “cinismo” do maio de 68, que teria “acabado com a diferença entre o bem e o mal, entre o verdadeiro e o falso, entre o bonito e o feio”. Daniel Cohn-Bendit, principal líder do maio de 68 na França, lançou neste ano um livro intitulado “Forget 68” – literalmente, “Esqueça 68”. No Brasil, o deputado federal Fernando Gabeira, ardoroso defensor da luta armada na época, e um dos responsáveis pelo seqüestro do embaixador dos EUA, Charles Elbrick, disse no início de 2008 que gostaria de não voltar ao assunto “1968”.
Na segunda parte da entrevista sobre 1968, Zuenir Ventura nos ajuda a compreender uma outra reação atual sobre o tema: a tese segundo a qual é preciso esquecer 68 ou romper com seu espírito.
Sarkozy declarou recentemente que é preciso romper com 68, e o próprio Cohn-Bendit afirmou que é hora de esquecer 68. É preciso romper com o espírito de 68? Este é um ano para se esquecer?
Eu não acho nem que tenha que romper nem que tenha que esquecer. Você tem de superar isso historicamente. Eu acho que realmente o País não pode ficar atrelado a um ano a vida toda. Agora, não adianta tentar esquecer. A amnésia não é a melhor coisa para a história. Aliás, um dos problemas do Brasil é que ele sofre de amnésia crônica.
Tem até essa citação em um dos seus livros, de 15 em 15 anos...
É do Ivan Lessa, está na apresentação do primeiro, dizia isso, “o Brasil, de 15 em 15 anos, esquece os últimos 15 anos”. Isso é uma tragédia. 1968 está aí como um enigma e tem de ser decifrado, tem de ser superado...
Interessante que, ao mesmo tempo em que a cada 15 anos se esquece os últimos 15, 1968 continua aí...
Exatamente o que eu ia dizer... E eu dizia quando estava fazendo 20 anos, em 88, e hoje você pode dizer a mesma coisa. E provavelmente vai repetir quando fizer 50. Por que ele está aí? Por que ele ainda excita a imaginação, provoca a discussão, provoca o debate? Porque tem coisas ali que foram realmente muito significativas. O próprio Sarkozy só disse isso na campanha. Quando vai para o governo ele chama para ser ministro das Relações Exteriores o Bernard Kouchner, que era um dos ícones de 68, em Paris. Claro que ele mudou de lado, foi a favor da Guerra do Iraque, mas, de qualquer maneira, tem uma confusão que é muito própria do mundo de hoje. O que eu queria dizer é o seguinte: não dá para você esquecer. Os militares tentaram isso com 68 durante muito tempo, tentaram enterrar 68. A psicanálise explica isso. Você tem o retorno do recalcado. Nas histórias de cada um, por exemplo, não adianta você tentar apagar aquele acontecimento, aquele mau passo de uma tia ou aquela coisa meio misteriosa que ninguém te explicou direito o que aconteceu em determinado momento na sua família. Você não sossega enquanto você não descobrir o porquê daquilo, o que houve, o que aconteceu. Não acho legal essa tentativa de você ou acabar com 68 – como muita gente diz: “Ah, não devia nem ter existido”, ou então de exaltar – também não é para sacralizar. Nem uma coisa nem outra. Nem é para fazer apologia nem para condenar 68 ao esquecimento porque não adianta. Ele volta. Ele está há 40 anos voltando.
Por que tantos preferem ter essa atitude segundo a qual é preciso esquecer 68? O Gabeira, por exemplo, disse em entrevista recente que gostaria de não voltar mais ao assunto...
É, mas ele vai falar... Porque tem uma hora que dá isso mesmo... A Helô [Heloísa Buarque de Hollanda] às vezes diz também: “Graças a Deus terminou! Graças a Deus terminou!”. E fala o tempo todo de 68. E é natural, porque foi um ano que marcou a vida de todos nós, da gente que viveu aquele ano. Enfim, foi um ano extraordinário. Como eu escrevi um livro sobre 1968, as pessoas ficam às vezes me cobrando, como se eu fosse um advogado de 1968.
Tem também a coisa da patrulha intelectual, a utilização do terrorismo como prática política...
Sim, a utilização da violência, tudo isso foi muito ruim. Então você não pode ficar exaltando, como se fosse o Éden, como se fosse o paraíso. Tem de olhar com certo realismo, mas claro que a gente olha sempre o passado idealizando. O jovem, principalmente, que não viveu, sofre o fenômeno que eu chamo de “nostalgia do não vivido”. Converso com jovens hoje de 16, 17 anos e eles têm uma nostalgia do 68 que ele não viveu, ele viveu pelos relatos, pelas histórias, sobretudo dos pais, dos parentes... Mais até do que pela história oficial. Então eu acho que essa visão de 68 tem de ser equilibrada.
Por que muitos têm essa atitude do romper com ou de esquecer 68?
Eu acho que tem muita gente que em vez de transformar o mundo foi transformado pelo mundo. Mudou, mudou de idéia, mudou de direção, de rumo. Teve muito isso. Há muito isso de arrependimento. Acho isso péssimo, porque no momento que você olha para trás e está rejeitando tudo aquilo que você viveu, deve ser uma sensação muito desagradável. Não tem de ter apego ao passado. Eu, por exemplo, acho, como Paulinho da Viola, que meu tempo é hoje. Essa nostalgia, “ah, eu queria ter vivido”, eu tento tirar isso da cabeça dos jovens, em palestras, em debates. No novo livro eu perguntei ao Caetano: “Você acha que é possível um novo 68?” E ele dá essa resposta absolutamente genial: “Olha, para ser parecido tem de ser absolutamente diferente”. É um pouco o que eu digo: “Vocês não tem de repetir 68, mimetizar 68”. Porque tem de ser completamente diferente para seguir o espírito de 68. Eu acho que não tem de ficar voltado ao passado. Você tem de fazer permanentes balanços. O próprio Gabeira, por exemplo, diz que não repetiria o que ele fez, a luta armada, mas ele mesmo não rejeita 68 como um todo. Aquilo que deve ser rejeitado, sobretudo na história dele, que é a história da luta armada, que foi um grande equívoco.
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