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Entrevista com Zuenir Ventura - Parte 1: 1968 – A herança bendita e a herança maldita

13/05 - 12:57 - Jair Stangler, repórter do Último Segundo

Ao falar, o jornalista Zuenir Ventura denuncia sua outra atividade profissional, de professor. Suas respostas são claras, didáticas e pausadas. Com toda a paciência, não deixa pergunta sem resposta.

Ele acaba de lançar seu segundo livro sobre o ano de 1968 e nos concedeu entrevista por telefone, do Rio de Janeiro. Zuenir fala das diferenças entre 1968 e 2008 e também das heranças de 40 anos atrás.

“Hoje, só gay faz passeata”, diz Zuenir. Ele é taxativo sobre aquela que considera a herança maldita daquele ano. “Eu acho que em 68 houve uma espécie de utopia ingênua em relação às drogas”, diz.

Divulgação
Vinte anos depois, Zuenir Ventura lança novo livro sobre 1968
20 anos depois, Zuenir lança novo livro sobre 68
No primeiro livro, “1968 - O ano que não terminou”, lançado em 1988, Zuenir fez um trabalho arqueológico para reconstruir os principais eventos daquele ano no Brasil – desde o famoso “Reveillón da Helô” – festa realizada em 1968 na casa de sua amiga, a professora Heloísa Buarque de Hollanda –, passando pelos protestos contra a ditadura, até o seu triste epílogo, com a decretação do AI-5 – o Ato Institucional número 5, que deu plenos poderes ao governo militar e acabou com uma série de liberdades individuais, como a liberdade de expressão.

Já em “1968 – O que fizemos de nós”, lançado em abril deste ano pela Editora Planeta, com uma edição revista do primeiro livro, Zuenir investiga o que começou em 1968 e continua em 2008. Ganham força as entrevistas com personagens daquele ano que se mantêm em evidência hoje em dia – como Caetano Veloso, Fernando Henrique Cardoso, Fernando Gabeira e José Dirceu, entre outros. E alguns fantasmas daquele ano são exorcizados, como o trauma sofrido pela filha durante sua prisão. “O grilo maior dela era a rejeição, dela achar que eu tinha feito a opção [de estar preso], que eu estava lá porque queria estar lá, e não em casa”, conta.

É sobre as heranças de 68 que Zuenir fala na primeira parte da entrevista.

O que ficou de positivo e de negativo de 1968?

Vou começar pela herança maldita, que, eu não tenho a menor dúvida, é a questão das drogas. Eu acho que em 68 houve uma espécie de utopia ingênua em relação às drogas, achando que elas seriam um caminho para a ampliação do conhecimento, de autoconhecimento, de expansão da consciência, todas aquelas ilusões, e o que se viu é que as drogas são um instrumento de morte. Hoje, dominadas pelas multinacionais, são uma fonte de renda, é um dos negócios mais rentáveis do mundo, portanto, uma fonte de corrupção das forças policiais em todo o mundo. Um desastre. O combate também é uma herança de 68, que é a política do Nixon, de enfrentamento das drogas. Esse certamente é o pior legado, um flagelo do século passado e desse século também. Em relação às conquistas, há muitas, sobretudo no plano do comportamento. Eu acho que avançou-se muito nesse terreno, no terreno dos costumes, das liberdades individuais, sobretudo em relação à mulher - a condição feminina avançou muito. Em quase todas as entrevistas que fiz, perguntava sobre isso e a resposta quase sempre era em relação às mulheres. Eu conto um episódio no livro. O Rio era uma cidade progressista, mas naquela época uma mulher não podia entrar num bar sozinha. Nas relações também. Não digo o fim do autoritarismo, mas houve um pouco a desmoralização do autoritarismo nas relações entre marido e mulher, entre professor e aluno, entre pais e filhos. Acho que é no plano do comportamento que você vai encontrar o que 68 teve de melhor.

Mais do que o aspecto político?

Mais do que o aspecto político. É curioso, porque aqueles jovens achavam que estavam fazendo uma revolução política, queriam fazer, queriam mudar o mundo, transformar tudo de um dia para o outro, e na verdade fizeram uma revolução de costumes, fizeram a revolução sexual, fizeram realmente uma revolução comportamental.

Pode-se falar mesmo de uma revolução sexual?

Acho que pode. Agora, é evidente que essa revolução foi castrada pela aids. Eu classifico a aids como a contra-revolução, porque realmente barrou todos aqueles avanços, introduziu o medo. Houve uma era de ouro nas relações sexuais em que você não precisava usar camisinha.

De um modo geral, o que mais começou em 68?

Acho que houve a valorização do jovem. Talvez até em excesso. O jovem se descobriu como personagem. E também foi descoberto pelo consumo depois. Era uma categoria social. E existiu muito orgulho disso, era uma geração muito onipotente, muito cheia de si. Tanto que se dizia “não confie em ninguém com mais de 30 anos”. Depois dos 30, tinha acabado. Eu acho que essa categoria do jovem foi uma descoberta de 68, o chamado “poder jovem”.

Pacifismo, homossexualismo, ambientalismo... É comum se dizer que esses movimentos começaram naquela época, mas me parece que essas pautas não estavam colocadas nesta época.

Há sementes que nem sempre aparecem, vão aparecer depois frutificadas. Acho que é o caso da ecologia, que começa mais tarde, mas é trazida para o Brasil por um remanescente de 68, que foi o [hoje deputado federal Fernando]Gabeira, que popularizou essa questão. Quando ele voltou, para escândalo da esquerda, trazia uma outra agenda, como o culto ao corpo, que foi aquele negócio da tanga [em 1980, logo após retornar do exílio, Gabeira apareceu com uma tanga de crochê na Praia de Ipanema, no Rio, causando polêmica], e introduziu essa questão do meio ambiente. Realmente é uma herança de 68 e talvez a que mais tenha frutificado. Se bem que o movimento gay também ganhou muita importância. Hoje talvez seja a única força social capaz de botar na rua 2,5 milhões de pessoas. Passeata hoje quem faz são os gays.

Tem uma coisa que você coloca no livro, que a ditadura conseguiu unir aqueles grupos que não se davam bem nunca: a burguesia nacional, os intelectuais, os estudantes...

Sim, uma grande frente ampla...

Que tem uma analogia com a festa do Reveillon na casa da Heloísa Buarque de Hollanda...

Um negócio que é curioso, nessa busca de pegadas de 68 que eu empreendi nesse último livro... Eu acabei encontrando até numa rave, que eu falo sobre isso em um capítulo, eu chamo até de Woodstock do século 21, porque ela lembra muito a festa hippie, tem muito um clima de festa hippie, um espírito hippie na festa rave...

Inclusive o ecstasy é uma droga que tem similaridade com o LSD...

Tanto que hoje as drogas da moda são o LSD e o Ecstasy. Pra mim foi realmente curioso encontrar pegada de 68 até aí, na festa rave.

Você tem visto filmes recentes sobre aquele momento?

Vi um muito interessante, “O ano em que meus pais saíram de férias”, e um outro também, que acabou inspirando um capítulo do meu livro que se chama “A culpa é do Fidel”. Eu fui ver o filme por indicação da minha filha. A história tinha muito a ver com a história de cada um de nós. Então eu fiz um capítulo chamado “A culpa é de 68”, pegando os filhos daquelas pessoas, inspirado pelo filme. Começo pela minha filha. Nunca tinha desconfiado como ela tinha sofrido enquanto eu estava preso. Um dos sofrimentos é que ela ia visitar a gente... E olha que eu não fui torturado, nada disso, nem o sofrimento que teve o Caetano e o Gil, que estavam presos na mesma época na Vila Militar. Tinha a violência psicológica, as ameaças, mas nada físico. Então tinha uma época que eu podia receber visita. Minha filha pequenininha ia lá visitar a gente e, para tranqüilizá-la, e também a meu filho, eu dizia assim: “aqui está ótimo, eu estou feliz, com liberdade, a gente pode até jogar basquete, tem 15 minutos de sol por dia”. Aí isso grilava mais, porque na cabeça dela ela pensava o seguinte: “então ele escolheu ficar aí, está gostando, não volta pra casa, porque aqui está muito melhor do que em casa”. Isso teve um trauma pra ela, um efeito que eu jamais desconfiei que pudesse ter, porque eu não queria deixar trauma nela, o choque de ver o pai na prisão... E porque seu pai está preso, quer dizer, não é ladrão, não é criminoso... Mas o grilo maior dela não era esse, era a rejeição, de achar que eu tinha feito a opção, que eu estava lá porque queria estar lá, e não em casa.

Como você avalia a geração 68 no poder?

Essa geração traiu um valor que era muito caro em 68, talvez seja um termo forte, “trair”, mas desvirtuou um valor sagrado de 68, que é o valor da ética. Diz que fez isso em nome da governabilidade, em nome do pragmatismo, porque se vive uma época muito mais pragmática do que onírica, de sonho. Você tem de, de certa maneira, na política, sujar um pouco as mãos. Minha principal crítica, e não tenho tolerância com relação a isso, é que foi desvirtuado esse valor. A ética como uma prática e como um valor. Nada justifica isso. A política não pode ser idealizada, ela exige uma visão mais pragmática, mais realista – por isso eu não faço política. Entendo até que tenha essa lógica, mas acho que tem limites. Uma coisa é você fazer acordos políticos, parcerias em função do bem público. Agora, tem limites, há coisas que você precisa dizer: “a partir daí não faço nada”. Esses limites foram ultrapassados. Transgredidos.





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