13/05 - 16:43 - Jair Stangler, repórter do Último Segundo
Bonita, culta e de esquerda, a professora Heloisa Buarque de Hollanda era mito e ícone da intelectualidade carioca dos anos 60. Assim o jornalista Zuenir Ventura, amigo da professora, a descreve no episódio que abre seu clássico livro “1968 – O ano que não terminou”. Em 1968, ela organizou o mais badalado revéillon do Rio de Janeiro, com a presença de intelectuais, empresários e artistas consagrados.
Hoje é professora titular de Teoria Crítica da Cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e já realizou uma série de estudos sobre política e cultura nos anos 60. Consagrou-se como crítica literária em 1976, com a publicação da antologia 26 poetas hoje, que lançou os nomes da chamada “poesia marginal”.
Por e-mail, a professora falou sobre os acontecimentos de 68 e sobre a permanência daquele ano nos dias de hoje.
O que, de positivo e de negativo, ficou 1968? O que o ano de 2008 deve a 1968?
Acho que o mais positivo foi a definição da necessidade de uma generosidade política que formou toda uma geração e o mais negativo foi um certo autoritarismo que definia com clareza excessiva o que era certo e o que era errado, o que era bom para a sociedade e o que não era. 2008 deve a 68, entre várias coisas, a idéia de que a cultura pode ser um instrumento de transformação social, como estamos vendo agora com a cultura que é produzida nas periferias das nossas cidades.
O que levou aos acontecimentos de 68?
Acho que no mundo inteiro 68 foi uma espécie de explosão (ou implosão?) das fortes energias culturais e políticas que vieram se acumulando desde meados dos anos 50.
O Brasil melhorou ou piorou em 68?
Melhorou. Houve uma percepção clara de que o tecido social é bem mais amplo e mais complexo do que as bandeiras de 68. E isso foi fundamental para o desenvolvimento democrático.
Como você soube do maio de 68? Pela rádio? Por amigos? O que você lia em 1968? Quais os livros de referência, obrigatórios? O que você acha dos filmes recentes sobre o ano, como "Os sonhadores"?
Soube de maio pela mídia. Em 68 eu lia tudo o que falasse em transformação social, desde marxismo até psicanálise. O que era importante era a palavra MUDANÇA. Acho que os bons filmes recentes sobre 68 fazem uma bela leitura atual do que foi o sonho de 68, sem preconceitos e sem idealizações.
Por que houve essa agitação em todo o mundo? Quais as principais diferenças entre o que houve em Paris, Berlim, Praga, EUA e Brasil?
Essa agitação em todo o mundo foi o eco de mudanças sociais profundas que se anunciavam desde os anos 50, com as guerras de libertação coloniais na Europa e na África. As diferenças expressam as condições locais de cada país ou região e a forma com que metabolizaram essas mudanças. No Brasil, por exemplo, estávamos em plena ditadura militar.
Rencentemente, Sarkozy falou em romper com o espírito de 68 e o próprio Cohn-Bendit tem declarado que é preciso esquecer 1968. É preciso romper com ou esquecer 1968? Por que tantos hoje incorporam a atitude segundo a qual é preciso "esquecer" 68?
Não concordo com isso. Acho que eles se referem ao voluntarismo de 68 , mas acho também que 68, de certa forma, criou condições para as lutas e estratégias políticas que se desenrolam hoje. Como a luta pelo meio ambiente, o levante das "minorias", etc.
É possível comparar as recentes manifestações estudantis que sacudiram a França ao maio de 68?
Acho que não. Hoje a briga é claramente em torno das xenofobias que resultam do desemprego e do aumento da pobreza no quadro da globalização.
É possível que aquele cenário, com repercussões políticas, ideológicas e, principalmente, culturais, se repita atualmente? O que poderia levar a uma explosão como aquela?
Não creio. A situação econômica internacional tem hoje uma lógica muito diferente daquela e as possíveis "rebeliões" nunca teriam um perfil como o de 68.
A "geração 68" no poder. O que os une? O que os afasta? Que balanço você faz da atuação desta geração no poder?
Acho que nesse caso você percebe como é impreciso e inadequado o uso da noção de geração. A diversidade de performances dos atores no poder que vem de 68 é absolutamente clara. No Brasil, por exemplo, temos Fernando Henrique, José Dirceu e Gabeira.....
Você se arrepende de alguma coisa de 1968?
Não. Foi um momento fundador para mim e para a história do Brasil.

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