13/05 - 15:43 - Jair Stangler, repórter do Último Segundo
Com uma canção para chamar o vento, o elenco da peça “Vento forte para papagaio subir” ocupa o amplo palco do Teatro Oficina, no centro de São Paulo. A peça, de autoria de José Celso Martinez Corrêa, foi a primeira encenada pelo Grupo Oficina, há 50 anos. A montagem apresentada em maio de 2008 homenageia também os 40 anos do maio de 1968.
“Essa peça eu tive vergonha dela 50 anos e só fiz de novo no ano passado, quando o Sesc me convidou, e ela me deu muita força, muita vitamina, e me fez descobrir que eu sou poeta”, diz Zé Celso. “Porque eu vi que, no plano simbólico, nessa peça, está o DNA do meu 68. Eu saí de lá para vir viver o meu 68”.
Assista à reportagem sobre a peça de Zé Celso
Para ele, “68 não passa nunca, não é uma idéia, é uma experiência. E essa experiência você pode ter a qualquer instante. É uma questão de percepção”.
A peça conta a história de João Ignácio, um jovem de 21 anos, morador da fictícia Bandeirantes que, após uma forte tempestade que atingiu a cidade, relembra os fortes ventos com que empinava papagaio quando criança. A partir daí se estabelece o dilema do protagonista – viver a vida pacata e cômoda da cidade interiorana ou aproveitar o vento forte e se encontrar como poeta na liberdade da poluída São Paulo.
Depois desta primeira peça, Zé Celso se tornaria, durante a década de 60, um dos mais polêmicos artistas do teatro brasileiro. Em 1967, a peça “O Rei da Vela”, baseada em texto de Oswald de Andrade, guru dos tropicalistas, foi encenada por Zé Celso no Oficina causando grande furor ao misturar teatro de revista, farsa, ópera, chanchada e Chacrinha.
| Arquivo/AE |
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| Elenco da peça "Roda Viva", que causou polêmica |
Em todas as praças onde a peça foi apresentada houve perseguição. Em São Paulo, em 17 de julho, um grupo de 20 homens, que se identificavam como sendo do Comando de Caça aos Comunistas, invadiu o Teatro Ruth Escobar. Os invasores espancaram os atores, despiram as atrizes e obrigaram Marília Pêra e Rodrigo Santiago a saírem para a rua despidos.
Mas, para Zé Celso, nem a ditadura nem esse tipo de reação de parte da sociedade puderam barrar o vento de 1968. “Não consegue! Tentou barrar, tentou barrar... A ditadura caiu muito por causa de 68. O AI 5 foi um ato com efeitos principalmente em cima do movimento cultural”. Para ele, quando venta “não adianta resistir... Eu detesto essa palavra, “resistência”. É preciso “re-existir”. Criar, criar, criar”.
| Maurício Shirakawa/Divulgação |
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| Encenação de "Vento forte" é homenagem a 68 |
Pouco depois, mais calmo, Zé Celso falou com a reportagem. E a impressão que se tem é de ainda estar no meio da peça. Sua fala vai da mitologia à política, da crítica à ditadura à crítica da sociedade do espetáculo, sem perder o fio da meada.
“Quando fui torturado, queria submeter meus torturadores a uma tortura amorosa”, conta. “Porque eu acredito na potência do desejo e o desejo brota em tudo. Como diz o Chico naquela música com a Elza Soares, tudo fode com tudo. E poder é foder. Porque tudo que essa idéia messiânica procura te convencer é que você não tem importância nenhuma, o que tem importância é a estrutura, é a macroeconomia, é a especulação, é o teatrão que é a sociedade do espetáculo”.
Para Zé Celso, o movimento que atinge seu ápice em 68 teve início muito antes. Ele cita o Manifesto Antropófago, escrito por Oswald de Andrade em 1928, como um antecedente daquele momento. “68 foi novamente o momento em que se percebeu isso. Na verdade foi em 1967, começou no Brasil. O Brasil é a primeira babel de todos os povos. Não é um país messiânico, a cultura popular não é messiânica, não fica acreditando num dia que virá”.
O diretor se empolga: “Depois, nos anos 70, quando houve a restauração do sentido messiânico, da sociedade patriarcal, do sentido da ‘ordem e progresso’, é que mistificaram 68 como uma coisa épica e não é. É a descoberta da eternidade na vida . E cada jovem que participou do coro da peça “Roda Viva”, todos eles tinham o sentido de revolução no seu próprio corpo. Houve uma grande mudança na alimentação, é o momento em que se fala da macrobiótica. Houve toda a revolução sexual, havia orgias. O elenco de “Roda Viva” trepava antes de entrar em cena. Houve uma revolução ecológica, verde. Houve uma revolução tecnológica, começaram os malucos a pesquisar para chegar na internet. Houve a revolução das drogas, do LSD, do Purple Haze, que era o ácido que o Jimi Hendrix tomava e dava uma percepção incrível...”
O vento de 68 pode ventar de novo? “Claro, menino! Hoje é muito mais forte. Você tem a internet... E com o desmoronamento do império americano agora, está ventando de novo! É uma época de grandes mudanças. Não tem essa história de passado, de saudade. (Cantarolando) Ai ai saudade não vem me matar... Eu nunca tive saudade nenhuma, porque aprendi muito claramente em 68, em 67, em 74, em Portugal, na Revolução Portuguesa, que as coisas mudam muito”.
| Maurício Shirakawa/Divulgação |
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| "Profeta" Zé Celso anuncia "mutação de valores" |
Para ele, a revolução cultural é condição necessária para a revolução política. “É a cultura que desperta o ser humano, que põe a imaginação no poder. Que é um dos slogans de 68. A imaginação vem da cultura. A cultura é muito mais política do que se imagina. Vai haver sempre um retorno a ela como vai haver sempre uma restauração à ordem. Porque em determinado momento há aquela libertação do ser humano e há uma parcela da população que quer segurar e pede um Pinochet, um Bento XVI... Tem medo da onda libertária”.
Zé Celso conclui a entrevista criticando sua geração, “toda muito bundona “, segundo ele. “Uma boa parte acreditou no que John Lennon falou, que o sonho acabou, e foi criar barriga, foi sentar no poder e ficou idiota. Minha geração não vem ao Oficina. É muito raro. Vêm os jovens. Porque acontece isso. Eles ficam no meio do caminho, não fazem o “eterno retorno” completo. Então eles ficam seduzidos pelo que chamam “realidade”, quando a realidade é quase uma besteira, não existe. O que existe realmente, o que move as coisas, é o tesão que a arte dá”.

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