13/05 - 15:16 - Jair Stangler, repórter do Último Segundo
Em 1968, o sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso era professor na Universidade de Paris, em Nanterre, e vivia no Quartier Latin, em Paris, quando os protestos estudantis tomaram conta da capital francesa.
Fernando Henrique foi testemunha privilegiada dos acontecimentos iniciados em Nanterre, no dia 22 de março, e que culminaram nos protestos ocorridos em maio, no Quartier Latin. Além da proximidade com os fatos, alguns dos líderes estudantis eram seus alunos, entre eles, Daniel Cohn-Bendit, o “Dany le Rouge”, que comandou as agitações do maio de 68.
Nessa entrevista concedida por e-mail, Fernando Henrique faz um breve balanço dos eventos daquele ano e também de sua herança.
O senhor estava em Paris quando ocorreram os famosos acontecimentos. Onde o senhor estava hospedado? Foi a algum protesto de rua?
Em maio de 1968, eu morava em Paris na rua Antoine Dubois, uma travessa do Boulevard Saint-Germain, no Quartier Latin, e era professor da Universidade de Paris, em Nanterre. Passei praticamente todo o tempo do movimento estudantil ou na Universidade, em Nanterre, ou nas ruas do Quartier Latin assistindo aos protestos.
O que ficou de 1968?
De positivo ficou uma reivindicação permanente de mais liberdade, o sentimento de que as condutas individuais podem ser refeitas e de que a cultura e a comunicação entre as pessoas (permitida com maior intensidade pelas novas tecnologias, desde a TV) pesam.
Agitações como as de Paris ocorreram também nos Estados Unidos, no Brasil, em Praga, e outros lugares. O que explica essa simultaneidade? Quais as principais diferenças e semelhanças entre as manifestações?
O que explica a simultaneidade é o que eu disse acima: o mundo se tornou intercomunicado em tempo real, graças às novas tecnologias da comunicação. O efeito, por exemplo, da ofensiva dos vietcongs contra Saigon, em fevereiro de 68, mostrou a guerra e seus horrores cotidianos a populações que estavam distantes milhares de quilômetros dela. As diferenças se devem às peculiaridades de cada situação nacional: no Brasil, se lutava para frear a ditadura; nos Estados Unidos, por romper os guetos negros e outros; na Europa, por mais liberdade individual e por quebrar a rigidez das estruturas burocráticas.
É preciso romper com o espírito de 68, como propôs o presidente francês Nicolas Sarkozy? O que exatamente significa “romper com o espírito de 68”?
Acho que Sarkozy tem horror à qualquer contestação. É a velha rigidez da direita francesa.
A “geração 68” está hoje no poder. No Brasil, podemos citar nomes como os de José Dirceu, Fernando Gabeira e Aloysio Nunes Ferreira. O que os une? O que os afasta? Que avaliação o senhor faz da atuação desta geração no poder?
Não é possível imaginar que uma geração chegue ao poder mantendo valores e condutas homogêneas. Além da idade parecida e da experiência em comum em alguns períodos da vida, há interesses pessoais e grupais diferentes, bem como as pessoas divergem quanto aos valores em que crêem. Não se pode imaginar que exista similitude de crenças e condutas entre os que hoje estão servindo ao poder, nem dizer que eles estejam grupalmente “no poder”. O poder tem muitos donos e diferentes dimensões.
O ano de 1968 influenciou de alguma forma as políticas que o senhor implantou no Brasil durante o período em que foi presidente?
Certamente, a ênfase na igualdade racial e de gênero que eu incentivei tem a ver com o espírito de 1968. A valorização da sociedade civil e a busca de parcerias entre o setor estatal e o não governamental, visando a formação de um espaço público, também encontram ressonância no que se dizia em 1968.
O que o senhor lia naquele ano?
Eu dava aulas de teoria sociológica na faculdade (alguns dos líderes estudantis da época, como Daniel Cohn-Bendit, eram meus alunos). Ensinava os clássicos da sociologia, Marx, Weber, Durkheim. Lia-se muito Althusser (que nunca foi santo de meu altar) e se começava a ler Marcuse, que, na verdade, não teve repercussão direta nenhuma sobre maio de 68 na França. Eu escrevia a tese de cátedra que defendi na volta ao Brasil, em outubro de 68, e lia a teoria de ciência política americana, para criticá-la à luz do que na época se chamava, impropriamente, de “teoria da dependência”.

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