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Carolina Ribeiro Pietoso, repórter iG em Londres
Um presidente impopular no poder, estudantes nas ruas, manifestações por todo o mundo. Maio de 68 ficou marcado como o mês das mudanças, mas pouco se lembra das pessoas que não participaram, ou mesmo se opuseram à revolução. "Em 1968 eu tinha 29 anos e temia que os comunistas tomassem o país", conta Gérard Pince, economista e membro do movimento político conservador francês Révolution Bleue. "Confesso que fiquei satisfeito quando De Gaulle voltou da Alemanha e restaurou a ordem e a lei".
Os eventos que marcaram a França tiveram início em março e terminaram em junho daquele ano, mas quatro décadas depois ainda causam o repúdio de uma ala da sociedade que vê reflexos negativos daquele período no mundo até hoje.
"Por favor, não acredite que maio de 1968 terminou. Ele está em todos os lugares", diz Tiberge, blogueiro político e comentarista do Brussels Journal (publicação conhecida como a voz conservadora da Europa) que acompanha e critica a política da França e a traduz para leitores não familiarizados com o francês. "Seu legado é como uma revolução permanente, que rejeita a herança cultural, as crenças religiosas que ajudaram a criar nossas nações e os valores pelos quais lutamos no ocidente até a Segunda Guerra Mundial".
Segundo Pince, o efeito geral de 1968 persiste através da ideologia do 'politicamente correto' que proíbe qualquer tipo de crítica e gera uma sociedade conformada. "Na Europa, especialmente na França, já se fala em 'substituição da população' - uma reposição sistemática das antigas populações européias por uma mais recente, composta por africanos, turcos e asiáticos. Caso a Turquia seja aceita na União Européia, o continente terá mais de 100 milhões de muçulmanos e sua cultura original não conseguirá sobreviver. Mas ninguém pode dizer nada a respeito disso e essa postura nasceu em 68", concorda Tiberge, "foi naquele ano que passou a ser proibido criticar um comportamento criminoso. Os criminosos passaram a ser considerados vítimas da sociedade".
Segundo ele, as democracias ocidentais entenderam errado o conceito de 'diversidade'. "Desde 1968 foi posto em prática um processo que reduzia a influência da cultura dominante e elevava as minorias a um status exaltado através de ações afirmativas e benefícios sociais. Assim, as sociedades passaram a destruir sua herança cultural, seu patrimônio, simplesmente para não ofender as minorias incapazes de se adaptar", diz. "Muitos locais históricos são destruídos em todo o mundo. Na França, monastérios e igrejas estão em ruínas, enquanto mesquitas são construídas para agradar a nova população muçulmana".
O americano Tiberge concorda: "Uma das principais coisas a ser restaurada é a discriminação. Precisamos voltar a discriminar o bom do ruim. Um pedaço de lixo é um pedaço de lixo. Não é arte, não importa o que digam. Da mesma forma que o feio é feio. Um jovem careca coberto com tatuagens e piercings é feio. Uma garota que exponha seu corpo é feia. Um país civilizado deve parecer e se comportar como um país civilizado". Nascido na costa leste, o comentarista da política francesa tinha 27 anos em 1968 e era professor de história do ensino médio. "Eu acreditava que o movimento nos Estados Unidos era pior que na França, pois envolvia uma forte questão racial resultante da influência das minorias, além de ser um país mais jovem. A França já tinha passado por muitas revoltas e levantes anteriormente, nunca achei que seria derrubada, mas infelizmente as coisas não voltaram ao normal".
Também naquele ano dois símbolos norte-americanos foram assassinados: Robert Kennedy e Martin Luther King. "A atmosfera estava muito ruim, especialmente nas escolas e universidade, que explodiram em protestos violentos. O que mais me surpreendeu foi que, depois que o Ato dos Direitos Civis foi assinado, garantindo a igualdade étnica, aos invés de ficarem felizes, as minorias se tornaram mais violentas. Essa tendência a sempre querer mais é um dos marcos das revoltas de 1968 tanto aqui nos EUA quanto na França", diz Tiberge. "Ela se manifesta também nos movimentos ambientalistas e dos direitos dos animais, que são tão prejudiciais quanto benéficos. Sim, restauramos a limpeza de alguns rios, mas a questão do aquecimento global é totalmente impossível de ser resolvida e passou a ser usada como uma arma da esquerda para intimidar governos e empresas. Não passa de mais um movimento por reivindicações constantes."
O debate sobre 1968 foi revisitado recentemente por Nicolas Sarkozy, que conquistou a presidência da França parcialmente por sua oposição ao legado daquele período. "Maio de 1968 impôs o relativismo moral e intelectual a todos nós", declarou Sarkozy durante sua campanha em 2007. "Os herdeiros de maio de 68 impuseram a idéia de que não há mais diferença entre o bem e o mal, a verdade e a falsidade, a beleza e a feiura. O legado de maio de 1968 trouxe cinismo à sociedade e à política". Ele chegou a culpar o período pelas práticas corruptas nos negócios. Segundo Sarkozy, a ética nascida em 1968 ajudou a "enfraquecer a moral do capitalismo, a preparar o terreno para um capitalismo inescrupuloso", disse.
Romper com o legado de 1968 pode não ser tão simples quanto parece. O líder do movimento estudantil 22 de Março, Daniel Cohn-Bendit, hoje representante alemão no Parlamento Europeu e líder do Partido Verde, se recusou a comentar os 40 anos da época em que foi preso por invadir a Universidade Sorbonne, dizendo não ter nada a acrescentar sobre o assunto. Cohn-Bendit lançou neste ano um livro intitulado 'Forget 68' (Esqueça 68, em tradução livre) em que, como o presidente francês, pede que aquele período seja deixado para trás.
"Maio de 68 precisa ser esquecido rapidamente e antes que seja tarde demais. Não podemos debater aqueles acontecimentos todas as décadas, precisamos deixar o passado virar história", afirma Tiberge, "Infelizmente, ainda lidamos com as consequências daqueles anos, mas precisamos de líderes fortes que nos direcionem à novas revoluções, que debatam os problemas atuais e não os que estão no poder, que ainda são produto daquele período: Blair, Bush, Sarkozy, Zapatero e até mesmo Angela Merkel". Pince concorda e explica que os líderes de maio de 68 "conquistaram boas posições na sociedade francesa e a maioria chegou ao poder com Mitterrand" e que é preciso abrir espaço para uma nova geração.
Para Pince, "maio de 68 foi um ponto de virada no declínio do mundo. Seu pior legado foi o enfraquecimento da resolução, a incapacidade de defesa da própria cultura, a necessidade de aceitação de todos elementos agressivos, para que eles sejam considerados 'iguais' e que os americanos, ou franceses, são racistas, sexistas, homofóbicos e que precisam pedir perdão pelo passado".
Apesar da grande quantidade de livros, conferências e debates que marcam os quarenta anos em todo o mundo, maio de 68 não tem celebração oficial, uma aparente tentativa de colocar o passado em seu devido lugar. "As coisas são como são. Houve apenas um 1968", diz Tiberge, "agora é preciso seguir em frente". Olhar para trás? Só "para evitar que algo similar volte a ocorrer", diz Gérard Pince.
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