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Espírito de Maio de 68 permanece vivo

13/05 - 13:32 - Carolina Ribeiro Pietoso, repórter iG em Londres

Há quarenta anos, gritos de protestos ditavam: "seja realista, exija o impossível!". Hoje, figuras públicas se unem para pedir que o passado seja esquecido, mas a promessa de tempos melhores faz com que Maio de 68 continue a ser um período mítico. "É importante lembrar que a ação coletiva é possível", diz Paul Lyons, Professor de História Social da Faculdade Richard Stockton, nos Estados Unidos. "Maio de 68 uniu pessoas diferentes com ideologias diversas, mas elas ainda acreditavam que seria possível mudar o mundo e lutaram por isso".

O avançado movimento cultural, sexual e político atrai defensores mesmo entre os jovens que não vivenciaram a revolução. "Como muitas pessoas da minha geração (nasci em 1977), sou herdeiro daquele período. Maio de 68 influenciou muitos aspectos da minha vida, principalmente em relação à liberdade social e moral que vivenciei crescendo na França", afirma Arnaud Bureau, co-autor do livro ilustrado "Mai 68. Histoire d'un printemps" (Maio de 68. A história de uma primavera, em tradução livre). "Acredito que maio de 68 testemunhou o nascimento de uma nova geração, que acordava para uma nova mentalidade que persiste até hoje".

Segundo ele, desde a Segunda Guerra Mundial a França havia se urbanizado e modernizado, experimentando um novo estilo de vida. Mas a mentalidade continuava a mesma dos anos 1940 e De Gaulle parecia velho e desconectado dos problemas da nova geração. "Os estudantes de 68 não haviam vivenciado a guerra e sentiam que todos tinham direito a uma vida melhor. Eles rejeitavam a 'société de consommation' (sociedade de consumo) adotada por seus pais com a influência norte-americana do pós-guerra e queriam uma vida diferente das antigas gerações."

Naquela época, o exemplo francês se espalhou pelo mundo e as ruas foram tomadas por protestos contra governos autoritários, questões sociais e a guerra no Vietnã. "Eu tinha 25 anos e era instrutor de história da Universidade de Temple, na Filadélfia, que foi cenário de inúmeras manifestações contra a guerra e contra o racismo. Fiquei impressionado com o movimento na França e a primavera de Praga na Tchecoslováquia e sua repressão pelos tanques soviéticos. Muitos dos meus colegas da nova esquerda se interessavam menos pelo que acontecia em Praga, pois aquilo era burguês demais para eles, que preferiam as revoluções que ocorriam em países do Terceiro Mundo, como México e Brasil", afirmou.

Lyons participou da Conferência "Legacy of 1968", promovida em março deste ano pela Faculdade Chestnut Hill, na Filadélfia, Estados Unidos, com a palestra "1968: From Che to Cheney" (1968: De Che a Cheney), onde discorreu sobre as similaridades entre o mundo do ícone revolucionário de ontem e do vice-presidente norte-americano de hoje. "A questão principal é que os movimentos daquele período levantaram questões que ainda estamos resolvendo - sobre homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, o significado de patriotismo, humanos versus a natureza - que levam tempo para digerir”, afirma, “mas ainda assim, as mudanças foram inevitáveis, nos tornamos menos existencialistas, homofóbicos, mais conscientes em relação ao meio-ambiente, mais abertos a criticar o governo sobre sua postura internacional".

Ainda que as manifestações atestem a mudança dos tempos - os protestos pelo fim da guerra no Vietnã duraram ao menos 10 anos e, em 2003, quando as pessoas foram às ruas para combater a guerra do Iraque em números muito maiores, a mobilização teve fim em cerca de 48 horas – Lyons diz que não “temos alternativa e precisamos continuar fortes e unidos".

“As pessoas se apegam a 1968 porque esse foi um período efervescente. Mas também porque nessa época muitas coisas aconteceram, como o assassinato de Martin Luther King Jr. e do senador Robert Kennedy - o que teria acontecido se eles estivessem vivos? Talvez não tivéssemos Clinton e Obama. Mas precisamos deles e da realidade que lutamos para conquistar".

Segundo ele, é preciso parar de "romantizar ou difamar os anos 1960" e lidar com aquele ano como um período contraditório que teve promessas utópicas e por isso um gerou um "grande senso de perda". Precisa-se ainda entender quais os legados de 68 que funcionam em um "ambiente global e dar andamento à revolução".

"Para as pessoas que vivenciaram 68 aquele período significou muitas coisas. Alguns achavam que viria uma revolução, que todos seriam iguais. Outros viveram manifestações, luta coletiva, liberdade na vida pessoal e sexual. Para muitas pessoas, a vida foi intensa e bonita por algumas semanas, elas se lembram disso com brilho nos olhos! Para pessoas da minha geração, que vivem com medo do amanhã, do desemprego, das oscilações imobiliárias e da aids, aquela parece uma época de ouro, onde as pessoas não se preocupavam apenas com os seus problemas, mas queriam felicidade para todos e achavam que seria possível conquistar isso", afirma Bureau.

Para ele, as mudanças teriam acontecido com ou sem maio de 68, mas não há dúvida que aquele mês acelerou a evolução. "Ainda que existam aspectos negativos herdados daquela época, não podemos esquecer 68", diz Bureau.





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