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Jair Stangler, repórter do Último Segundo
Zuenir Ventura minimiza sua participação nos eventos de 1968. “Participava das passeatas, participava das assembléias, mas era sempre liderado pelos alunos”. Ainda assim, Zuenir testemunhou alguns dos principais acontecimentos daquele ano. Estava próximo ao Calabouço quando atiraram no estudante Edson Luís, no Rio de Janeiro, no dia 28 de março, evento que desencadeou uma série de manifestações, culminando na Passeata dos 100 mil, o mais famoso protesto contra a ditadura.
Zuenir também presenciou o maio francês. Foi quando trouxe ao Brasil livros do sociólogo alemão Herbert Marcuse, uma das principais influências do movimento na França, ao lado dos outros dois “Ms”, o filósofo alemão Karl Marx e Mao Tse-tung, principal governante da China comunista. Os livros e sua presença nos principais momentos de 1968 lhe causaram problema quando foi preso em dezembro daquele ano. “Eu dizia ao coronel que me interrogou: ‘É muita coincidência’. Ao que o coronel respondia: ‘É, mas é muita coincidência’”.
Desse ponto de vista privilegiado, Zuenir fala dos conflitos daquele ano – não apenas dos políticos, mas, principalmente, dos comportamentais.
Como você coloca em seus livros, havia também uma ambigüidade na esquerda em 68, uma dificuldade para aceitar questões como a do homossexualismo...
É verdade. As forças revolucionárias do ponto de vista político eram reacionáríssimas em relação ao comportamento, em relação a tabus como a virgindade. Em relação a essas novidades. Eu me lembro do Gabeira chegando e da reação, como se ele tivesse traído a causa, porque não podiam admitir aquilo. O Partido Comunista era muito conservador em relação a esses valores e a esses tabus. Havia essa contradição entre um movimento que se dizia de vanguarda, olhando pra frente e, do ponto de vista do comportamento, do cotidiano, era realmente reacionaríssimo.
Por que houve em tantos lugares do mundo essas manifestações? Essa é a pergunta que eu me fiz antes, e 20 anos depois de ter lançado meu livro, e eu não vi resposta em lugar nenhum. Isso é realmente um mistério. Um mistério da história. Por que naquele momento houve essa sincronia, em quase todos os centros urbanos importantes e nos mais variados sistemas, em regime comunista, socialista, capitalista... Quer dizer, não havia globalização, não havia internet, não havia nada disso. Por que aqueles jovens tinham os mesmos sonhos, as mesmas ambições, os mesmos ideais? Os jovens usavam o mesmo cabelo comprido, cantavam as mesmas músicas, tinham os mesmos desejos. Isso é um mistério da história. Você não consegue explicar. A globalização eu acho que começa ali. Foi o primeiro movimento globalizado, movimento planetário. Mas é um mistério que eu não sei quando vai ser desfeito.
Quais seriam as principais diferenças e semelhanças entre essas manifestações que ocorreram em Praga, Nova York, Rio e, principalmente, Paris?
Entre Paris, Estados Unidos e Brasil a diferença é política, porque nós tínhamos aqui uma ditadura. O movimento estudantil era todo ele pontuado pela política. Eu digo no livro que tudo passava pela política, inclusive o sexo. Era tudo uma questão política. E começa com um episódio político, que é a morte do Edson Luís. Em Paris, a coisa começa com uma reivindicação de ordem sexual, era a reivindicação para os estudantes terem o dormitório misto. Para o rapaz ir ao dormitório da moça e vice-versa. Era uma coisa do plano do comportamento. Isso faz uma diferença. Nossa geração foi muito mais perseguida, muito mais sofrida, porque ela foi para a prisão, ela foi para o exílio, ela morreu, foi para a clandestinidade. É realmente uma das gerações mais sofridas. Eu acho que tanto quanto ela foi a geração lá da Tchecoslováquia, que teve a invasão soviética. Já o estudante francês e o estudante americano realmente não tinham essa repressão que a gente teve aqui.
Se bem que os Estados Unidos teve um viés mais político, com as manifestações contra a Guerra do Vietnã...
Sim, mas é curioso que também começa tudo no Colégio Barnard, de Columbia, quando uma menina deu uma entrevista em off ao New York Times, dizendo que ela tinha ido no dormitório do namorado dela, tinha dormido lá e a identidade dela foi descoberta. Ela foi ameaçada de expulsão e isso virou um escândalo. Virou uma coisa nacional e aí as pessoas começaram a discutir os direitos individuais. Então começa, de certa maneira aí. Agora, é claro que tem uma vertente política muito forte, dos protestos contra a Guerra do Vietnã.
No fim, sempre acaba misturando o político com o comportamental...
É verdade. Porque o jovem lê muito isso, ele achava que até o ato sexual, até a transa era um ato político. Você tinha que escolher o seu parceiro, a sua parceira segundo a sua opção ideológica. Não dava para imaginar ficar transando com alguém que não quisesse transformar o mundo como você.
Como você soube do maio de 1968?
Foi uma dessas coincidências da profissão. Eu trabalhava na revista Visão e praticamente assisti à morte do Edson Luís, porque a Visão era ao lado do Calabouço (restaurante onde aconteceu o episódio), ouvimos os tiros, descemos, fomos para lá, isso em 28 de março. E em maio fui de férias, ganhei uma viagem da revista, fui a Paris. Então eu estava em Paris quando estourou tudo. O que acabou criando a maior confusão para mim depois, quando fui preso. O coronel me interrogava e dizia “Ah, mas o senhor estava aqui no dia 28 de março, que tem fotografia sua lá com o Edson Luís, e o senhor estava lá no meio da confusão de Paris...”. Eu dizia para o coronel: “Isso é muita coincidência”, e ele dizia: “É, mas é muita coincidência”, aí ficou aquele diálogo de loucos. E ele não admitia, porque para os militares, tudo tinha um comando.
É a paranóia...
É a paranóia. Eles achavam que era coisa do comando comunista lá da União Soviética.. Mal sabiam eles que os estudantes também não queriam nada com os velhos comunistas. Diziam que tinham que enforcar o último capitalista com as tripas do último stalinista.
Quais eram as referências obrigatórias daquele momento?
Eu até brinco com os três “Ms”: Marx, Mao e Marcuse. Sobretudo Marcuse.
Isso tanto em Paris como no Brasil?
Não, aí acontece o seguinte: Marcuse não era conhecido aqui. Eu trouxe uns livros que foram apreendidos na alfândega como livros subversivos, e depois foi uma confusão pra explicar o negócio do Marcuse, porque eles achavam que era subversivo... Mas era o filósofo da moda, o Marcuse ninguém entendia, mas todo mundo lia. A moda em 68 era aquela coisa: quanto mais hermético melhor. Você não entendia os filmes, mas achava geniais. Então entender Marcuse não queria dizer nada, o importante é que você estava lendo. Só não fiz mais sucesso porque os livros foram apreendidos e, de vez em quando, eu era chamado lá para explicar os tais livros.
De alguma maneira a sua chegada e a de outras pessoas que estavam por lá ajudaram a difundir Marcuse por aqui.
Sim. Mas tem uma coisa engraçada, porque se atribui, de alguma maneira , uma influência do maio francês no movimento brasileiro. Claro que teve. Agora, é uma influência muito mais simbólica. Eu dei uma entrevista recente a uma rádio francesa dizendo o seguinte: “A morte do Edson Luís foi no dia 28 de março, o movimento de Nanterre começa no dia 22, naquela época a comunicação era muito lenta. Você mandava uma carta, levava dias, para telefonar às vezes levava um dia. As coisas não chegavam como chegam hoje. Então foi coincidência, estourou no dia 22 e no dia 29 estava dando frutos aqui.
Nem a passeata dos 100 mil pode ser atribuída ao maio francês?
Não. Aquilo foi um desdobramento. Começa com o enterro do Edson Luís, uma coisa impressionante, 50 mil pessoas, um fim de tarde, começo de noite, velas acessas, foi um negócio realmente impressionante. Depois as missas e a repressão... E tudo isso vai acumulando indignações que vai explodir na passeata dos 100 mil. Então não tem nada a ver com o maio francês.
De modo geral, o Brasil melhorou ou piorou em 68?
Não dá para dizer “de modo geral”. Precisa ver no que melhorou e no que piorou. Houve avanços, evidentemente. E acho que o principal deles é que você saiu de uma ditadura e caiu numa democracia.
E isso começa em 68?
A luta começou em 68. Tem dois 68. Tem o que vai até o 13 de dezembro, data do AI-5, aquele manto de trevas, acabando com todas as liberdades, com o habeas-corpus, tudo que era possibilidade de expressão, manifestação, a ditadura mesmo, o golpe dentro do golpe. Aí o regime militar foi acabar em 1985, só tivemos presidente eleito em 1989. Então foi uma longa trajetória de conquista democrática, de transição democrática.
O Gabeira disse recentemente que foi a decisão de ir para a luta armada que levou ao endurecimento da ditadura...
Essa é uma discussão que não tem o menor cabimento, fica aquela coisa: quem deu o primeiro tiro? Eu acho que os dois lados têm culpa nisso... Mas não dá para achar que o endurecimento tem relação com isso porque em abril, isso está no meu primeiro livro, houve uma tentativa de implantação do AI-5. Antes da Passeata dos 100 mil. Então, essa é uma discussão que não termina, saber quem começou. Achar que a repressão aumentou... Claro que aumentou. Mas que ela muda de natureza por causa das manifestações dos jovens ou então pela luta armada, isso realmente não se confirma. O que há é um endurecimento de parte a parte.
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