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Em 1968, “não virou nada”, diz Ziraldo

13/05 - 15:32 - Jair Stangler, repórter do Último Segundo

A partir de 1968, principalmente depois do AI-5, boa parte da esquerda brasileira desistiu de tentar mudar as coisas com passeatas e comício. Para eles, a luta armada era a única saída. O cartunista e jornalista Ziraldo escolheu outra arma: o humor.

Após sua primeira prisão, em dezembro de 1968, Ziraldo se uniu a outros nomes do humor brasileiro, como Jaguar e Millôr Fernandes, para fundar o semanário “O Pasquim”, que começou a circular em 29 de junho de 1969, sobreviveu à ditadura e circulou até 11 de novembro de 1991, já depois de restabelecida a democracia. Mais de uma vez, os colaboradores do jornal foram presos – o próprio Ziraldo esteve detido em outras duas ocasiões, em 1969 e 1970, por causa do periódico.

Além de ter se tornado um dos principais jornais alternativos do período e um dos símbolos da resistência contra a ditadura, “O Pasquim” também marcou época ao registrar a mudança comportamental que ocorria naqueles anos, ao falar de temas como sexo, drogas, feminismo e divórcio.

Nessa entrevista concedida por telefone, Ziraldo fala sobre os anos de chumbo, a experiência do Pasquim e, ainda, a indenização concedida a ele por danos sofridos durante a ditadura.

O que de positivo e de negativo ficou de 1968? Qual a herança bendita e maldita daquele ano?

Eu não sei o que ficou de positivo. Ali não virou nada. Eu acho que não houve virada nenhuma. O que posso te dizer é que éramos dez ou quinze presos e cada um dos presos pertencia a um grupo que mandava. A gente não podia sair porque as pessoas que estavam interessadas em tirar a gente da cadeia não descobriam quem tinha mandado prender. E todo mundo mandava. Essa foi a mais original ditadura do mundo, ditadura com sucessão. Só no Brasil. O Geisel agora é um herói que compreendeu que tinha que abrir, mas era autoritário o bastante pra fundir o Rio de Janeiro com a Guanabara sem consultar a população. Então, o Elio Gaspari vai fazer uma biografia justificando essas pessoas, cara? Não tem como justificar. Assim como não tem como justificar o holocausto. Não tem como justificar, os caras estavam loucos. Então, o mundo inteiro se agitou em 68, mas imediatamente em 68 não houve modificação aqui no Brasil.

68 então é o ano do endurecimento da ditadura?

68 é o ano do endurecimento da ditadura. O que ele tem de importante é que o mundo inteiro se agitou. A Europa toda se agitou em 68. Mas, aqui no Brasil, é o ano da prisão da turma toda do Pasquim. 45 mil prisões no Brasil, cara? Prenderam o PC todo, em toda a parte do Brasil. Foi uma noite de terror.

Zuenir Ventura aponta a questão comportamental como central em 68...

É, o Zuenir está pesquisando isso. É verdade. É 68 que gera a Leila Diniz, que gera o Pasquim. É a consolidação da virada, a consolidação da pílula, a consolidação dos conceitos da Simone de Beauvoir [pensadora e feminista francesa, foi mulher do filósofo Jean Paul Sartre]... 68 tem uma mudança cultural muito grande.

O próprio Pasquim faz parte dessa mudança...

Ele sai como conseqüência de 68. Agora, as transformações comportamentais de fato têm 68 como marco, eu acho. A marca de 68 acima de tudo foi comportamental mesmo. Mas, para mim, ficou esse lado mais grotesco da revolução de 64. Você lembra daquele filme, “MASH”? É um negócio da Guerra do Vietnã [na verdade, o filme se refere à Guerra da Coréia], a esculhambação que tem em um acampamento americano do Vietnã. É uma comédia trágica sobre a bagunça que era. E aqui era assim também, uma coisa muito doida. Ninguém sabia quem mandava, até descobrir quem tinha mandado prender a gente foi uma mão de obra.

Como você soube do maio de 68?

A gente não dá notícia da transformação no momento em que ela está acontecendo, cara. Não há hipótese. Você sentiu o mundo sair da válvula pro chip? Enquanto está transformando, você não vai vendo. Depois que toma distanciamento é que dá para avaliar. Quando eu vi, tinha mudado.

Como você avalia a atuação da geração de 68 no poder?

As circunstâncias vão alterando muito as posições das pessoas diante da vida. A passagem do tempo é um negócio terrível. Você não fica parado. Alguns são verdadeiras birutas, viram conforme o vento, sem perceber. Outros vão descobrindo, sem perceber também, visões diversas do mundo. O Gabeira era um radical maoísta e vai se candidatar a prefeito do Rio fazendo aliança com o que há de mais reacionário no Brasil, essa coisa mais horrível, mais mundana, que é o PSDB. O Arthur Virgílio era de esquerda. Acho que era até trotskista. Mas ele continua em luta com ele mesmo. É da natureza humana. Eu não condeno ninguém, eu aceito todo mundo.

A Justiça concedeu a você uma indenização pelos prejuízos causados pela ditadura, o que tem gerado muitas críticas. Como você recebe essas críticas?

Esse negócio já está me irritando porque já expliquei 500 vezes, rapaz. A indenização desse grupo é menor dos que as que saíram anteriormente. Você vai encontrar indenizações 10, 15 vezes maiores que as nossas. Eu já falei que eu não pedi indenização, foi o sindicato dos jornalistas que pediu por mim. Eu não pedi. Esse pessoal que me critica agora estava batendo papo com generais em solenidades, estavam afinados com a ditadura e agora vem censurar a gente? Por que eles não fizeram o que nós fizemos? A gente discordou dos generais, a gente se comprometeu. Eu estou me lixando, eu acho que ninguém tem que ser indenizado porque se meteu nessa. A minha reivindicação é pelos prejuízos que eu tive. Eu tive prejuízo material. Não é por ter sido preso. E eu não pedi indenização. O sindicato me chamou, teve uma reunião, me disseram “você tem direito a indenização”, é uma lei, tem uma porção de gente que já recebeu.

Você vai ficar com o dinheiro?

Evidente! Quer que eu devolva? Como é que eu vou devolver? Não tem nem trâmite para eu devolver. Além do mais, como é que eu não vou botar um milhão no bolso? Demorei dez anos pra receber isso! Está todo mundo com inveja de mim porque botei um milhão no bolso. Vou devolver pra quem? Para o tesouro nacional? E tem outra coisa: não tem dotação para isso. A informação que eu tenho é que vão me pagar em dez anos. Nem tem previsão de quando eu vou começar a receber o dinheiro mensal. E eu já tenho 75 anos.

A geração de hoje em dia é mais apática que a de 40 anos atrás?

As circunstâncias mudaram muito. Se hoje você tivesse uma ditadura, a rapaziada estava fazendo a mesma coisa que a geração de 40 anos atrás fez. Essa coisa de “ah, a rapaziada do meu tempo era melhor que a rapaziada de hoje”... O ser humano não muda, o que muda são as circunstâncias. Dá uma ditadura aí para ver se a rapaziada não vai para a rua, se não vai aparecer guerrilheiro, luta armada...





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