13/05 -
16:46
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Jair Stangler, repórter do Último Segundo
A geração de 1968 ficou marcada, entre outras coisas, por seus slogans. “A imaginação no poder”, “Não confie em ninguém com mais de trinta anos”, “É proibido proibir”, “A humanidade só será feliz quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último esquerdista”, são alguns exemplos. Leia o que dizem hoje os representantes daquela geração que entrevistamos para este especial.
Zuenir Ventura, jornalista e escritor
A herança maldita, eu não tenho a menor dúvida, é a questão das drogas. Acho que em 68 houve uma espécie de utopia ingênua em relação às drogas.
Aqueles jovens achavam que estavam fazendo uma revolução política. Na verdade fizeram uma revolução de costumes, fizeram a revolução sexual, fizeram realmente uma revolução comportamental.
Houve uma era de ouro nas relações sexuais em que você não precisava usar camisinha.
Passeata hoje quem faz são os gays.
[A rave] eu chamo até de Woodstock do século 21 porque ela lembra muito a festa hippie, tem muito um clima de festa hippie, um espírito hippie na festa rave.
Perguntei ao Caetano: você acha que é possível um novo 68? E ele dá essa resposta absolutamente genial: “olha, para ser parecido tem de ser absolutamente diferente”.
Eu chamaria a [geração] de hoje de “anomia”, que é aquela coisa de você não querer regras, não querer limitações, nenhuma imposição.
Hoje não se pode mais falar em geração, se fala em tribos. Hoje é tudo segmentado, inclusive os jovens formam grupos segmentados. Você tem os funkeiros, os universitários, etc.
O jovem de hoje está na dele, ele está lá, no computador. A gente diz “ah, eles são uns alienados, eles ficam ali o dia inteiro no computador”, mas eles estão se comunicando no computador.
A geração de 1968 traiu um valor que era muito caro em 68, talvez seja um termo forte, “trair”, mas desvirtuou um valor sagrado de 68, que é o valor da ética.
As forças revolucionárias do ponto de vista político eram reacionaríssimas em relação ao comportamento, em relação a tabus como a virgindade.
Nossa geração foi muito mais perseguida, muito mais sofrida, porque ela foi para a prisão, foi para o exílio, morreu, foi para a clandestinidade. É realmente uma das gerações mais sofridas. Eu acho que tanto quanto ela foi a geração lá da Tchecoslováquia, que teve a invasão soviética.
A moda em 68 era aquela coisa: quanto mais hermético melhor. Você não entendia os filmes, mas achava geniais.
Heloísa Buarque de Hollanda, professora e pesquisadora
[O Brasil] melhorou. Houve uma percepção clara de que o tecido social é bem mais amplo e mais complexo do que as bandeiras de 68. E isso foi fundamental para o desenvolvimento democrático.
Hoje a briga é claramente em torno das xenofobias que resultam do desemprego e do aumento da pobreza no quadro da globalização. (Sobre manifestações recentes na França em comparação com o maio de 68)
É impreciso e inadequado o uso da noção de geração. A diversidade de performances dos atores no poder que vem de 68 é absolutamente clara. No Brasil, por exemplo, temos Fernando Henrique, José Dirceu e Gabeira.....
1968 foi um momento fundador para mim e para a história do Brasil.
José Celso Martinez, diretor, autor e ator de teatro
1968 não passa nunca, não é uma idéia, é uma experiência. E essa experiência você pode ter a qualquer instante. Por isso eu digo que é uma questão de percepção.
Se você está preso numa idéia pré-concebida, numa idéia messiânica, numa idéia neoliberal capitalista economista feminista, em qualquer ismo, você não vê [os sinais que a vida dá]. 68 foi quando esse túmulo messiânico caiu.
Hoje é muito mais forte. Você tem a internet. E com o desmoronamento do império americano agora, está ventando de novo! É uma época de grandes mudanças.
A revolução cultural é a condição necessária da revolução política.
Sou pela liberação total das drogas, que passe para o controle do Ministério da Saúde. Maconha é remédio, não faz mal nenhum, é um absurdo que se faça guerra por isso.
Minha geração é toda muito bundona, uma boa parte acreditou no que John Lennon falou, que o sonho acabou, e foi criar barriga, foi sentar no poder e ficou idiota
Ziraldo, cartunista e jornalista
Eu não sei o que ficou de positivo. Ali não virou nada. Eu acho que não houve virada nenhuma.
A marca de 68 acima de tudo foi comportamental mesmo. Mas, para mim, ficou esse lado mais grotesco da revolução de 64.
O Gabeira era um radical maoísta e vai se candidatar a prefeito do Rio fazendo aliança com o que há de mais reacionário no Brasil, essa coisa mais horrível, mais mundana, que é o PSDB.
A minha reivindicação é pelos prejuízos que eu tive. Eu tive prejuízo material. Não é por ter sido preso. E eu não pedi a indenização.
Além do mais, como é que eu não vou botar um milhão no bolso? Demorei dez anos pra receber isso! Está todo mundo com inveja de mim porque botei um milhão no bolso.
Se hoje você tivesse uma ditadura, a rapaziada tava fazendo a mesma coisa que a geração de 40 anos atrás fez.
Fernando Henrique Cardoso, sociólogo e ex-presidente da República
De positivo, ficou uma reivindicação permanente de mais liberdade.
Não é possível imaginar que uma geração chegue ao poder mantendo valores e condutas homogêneas.
A ênfase na igualdade racial e de gênero que eu incentivei tem a ver com o espírito de 1968.
Sarkozy tem horror a qualquer contestação. É a velha rigidez da direita francesa.
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