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A maçonaria funcionou em 1822 como um protopartido político

Na última parte da entrevista, Laurentino Gomes comenta críticas de historiadores e o capítulo dedicado à maçonaria de 1822

Pedro Alexandre Sanches, especial para o iG |

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Laurentino Gomes em sua casa em Itu
Na última parte da entrevista, Laurentino Gomes fala sobre a relação delicada entre historiadores e jornalistas que, como ele, invadem um território que a rigor pertenceria à primeira categoria. Emite opiniões sobre a atual situação da imprensa brasileira. Fala do capítulo dedicado em 1822 a tratar da maçonaria, um assunto de forte apelo popular e não raro tratado de modo sensacionalista. Discorre sobre a participação “intimidada” de seu estado natal, o Paraná, na história do Brasil. E conta sobre a mudança de editora, mesmo após o estouro comercial do primeiro livro. Leia também a primeira e segunda parte da conversa.

iG: Os historiadores ficam enciumados com seu sucesso? Existe mesmo uma rixa entre historiadores e jornalistas?
Laurentino: Sim, mas acho natural. A atividade acadêmica tem todo um sistema interno de referendo e validação. São especialistas, um passa pelo crivo do outro, com tese de mestrado, doutorado, pós-doutorado. Aí vem um jornalista e entra pela porta dos fundos, não pede licença, não se submete a nenhuma banca examinadora. Mas isso é da natureza do jornalismo, por isso a sociedade às vezes convive muito mal com ele. Não são só os historiadores, todo especialista, quando você vai fazer uma reportagem, fica assim, “o que esse cara vai fazer comigo agora?”. É claro que os historiadores têm um ciúme natural também, que é do ser humano. Você estudou sua vida inteira a história da corte portuguesa no Brasil, vêm os 200 anos e você não teve a ideia de fazer um livro como esse e ele virar um best-seller. Aí você quer morrer, né? A primeira coisa que você faz é desqualificar quem fez.

iG: Isso aconteceu?
Laurentino: No começo, sim. Num primeiro momento fui visto com certa desconfiança. Uma vez entrei num blog de historiadores e tinha uma palavra de ordem: “Jornalistas, deixem a história para os historiadores”. Era literalmente isso. É muito comum também dizerem: “Esse livro não tem novidade nenhuma”. De fato não tem, a única novidade é a linguagem. Mas essa é a grande novidade, e eles não conseguem reconhecer isso. Mas isso foi no começo, o reconhecimento veio à medida que foram lendo e entenderam que era uma obra de divulgação do trabalho acadêmico e que não fiquei só na banalidade e na superfície. O que tem mesmo é essa rejeição corporativista às vezes, meio reserva de mercado.

iG: Falando agora com o Laurentino jornalista, você citou antes o maniqueísmo dos historiadores, mas a imprensa, nos maus momentos, também costuma ser muito maniqueísta, não?
Laurentino: É… Essas atividades não estão imunes a contaminação das forças políticas que estão atuando dentro da sociedade. A imprensa acaba sendo afetada diretamente por isso, e a história também. Não é à toa que nas décadas de 1960 e 1970 o pensamento marxista tenha marcado de tal forma o estudo e o ensino de história. Eu não diria que Nelson Werneck Sodré é um historiador, ele é um proselitista. É o uso da história para justificar a bandeira política do presente. Na imprensa acontece isso também. Fui editor de política do Estadão na eleição do Collor, e era uma pedreira, porque os jornalistas estavam contaminados por aquela luta. Imagine editar um jornal num clima desse.

iG: Como você se comportou?
Laurentino: Foi um período muito difícil. As reportagens vinham quadradas da rua, eu tinha que arredondar um pouquinho. Às vezes elas vinham redondas e na hora de editar a direção do jornal deixava quadradas (risos). Ser editor de política de um grande jornal numa eleição como aquela era ser a mortadela do sanduíche, espremido por todos os lados. Recentemente, a gente está vendo a guerra dos colunistas no Brasil, uma pauleira, troca de acusações entre jornalistas de Veja, Estado, Folha e na internet… Um à direita, outro à esquerda, outro no centro, e às vezes com posições muito maniqueístas. A sabedoria do jornalista é manter a sensatez quando a sociedade está maniqueísta. Esta é a grande diferença entre jornalismo e história: o jornalismo é escrito a sangue quente, no calor das paixões, sujeito a erros de avaliação, de informação. Por isso a liberdade de imprensa e a independência editorial não dependem de um único jornalista ou de um único veículo. Dependem da diversidade da grande quantidade de leitores, veículos e anunciantes. Quanto mais diverso for o ambiente da imprensa, mais democrática e pluralista ela vai ser.

iG: Num ambiente de diversidade, não faria mal se um veículo apoiasse um candidato e outro apoiasse outro?
Laurentino: Isso, porque a diversidade é o choque e o confronto de opiniões e de visões, a formação dos leitores. O leitor tem que ver que às vezes um veículo está com uma posição que tem uma premissa favorável a um anunciante, a um candidato, a um governo. Porque é isso mesmo, a imprensa é sujeita a pressão. Quanto maior o número de leitores, veículos e anunciantes, para que a pressão de um não predomine sobre os demais, mais democrático, diverso e pluralista o ambiente da imprensa tende a ser. Na história já não, é a sangue frio, você tem tempo de observar com calma. A história é submetida a uma visão crítica, precisa estar num ambiente democrático, para não ficar maniqueísta como ficou, por exemplo, nas décadas de 1970 e 1980. Gilberto Freyre era boicotado porque era considerado um cara de direita, Câmara Cascudo também. Quando há uma ditadura, a academia também é contaminada.

iG: Do alto da sua experiência como jornalista, você diria que a imprensa brasileira vive um momento bom, ruim, médio...?
Laurentino: Acho que o Brasil tem uma boa imprensa, profissional, com dificuldades naturais, mais econômicas que políticas. Os veículos estão submetidos a uma pressão horrorosa, em função do impacto das novas tecnologias. Estão perdendo leitores em função da fragmentação de mídia – internet, TV a cabo, rádio segmentada. Estão perdendo receita na publicidade, também em função da fragmentação dos meios. E ao mesmo tempo estão sendo obrigados a investir mais em novas tecnologias. Não adianta mais publicar só um jornal, você precisa ter um bom site. Então estão submetidos a pressão no custo e na receita. Outro perigo grande é um certo empreguiçamento das redações, porque hoje a quantidade de informação de boa qualidade disponível na internet é tão grande que tem gente que não vai mais para a rua entrevistar, virou copidesque. Tem tudo já na internet. Se você quiser empreguiçar-se, faz uma matéria boa sem entrevistar ninguém, então o jornalismo perde a sua alma, que é a reportagem.

iG: Por outro lado, há jornalismo no Twitter, nos blogs?
Laurentino: Tem uma diversidade, novas formas de jornalismo. Vi uma reportagem sobre blogueiros que ficam vigiando linhas de ônibus de São Paulo, para ver se o motorista ou o cobrador cometeu abuso. Antigamente o repórter tinha que ir lá investigar o que faziam de errado, saía uma vez por ano no jornal. Agora você tem um exército de blogueiros fazendo isso. É uma forma de jornalismo? Pode-se dizer que sim, mas não de jornalistas formados. São jornalistas cidadãos…

iG: Uma inteligência coletiva, com um em cada ponto de ônibus dá para cobrir todos.
Laurentino: Isso. Tem um livro chamado Global Brain que defende essa ideia, de que nesta sociedade conectada pela internet os cérebros individuais estão se comportando como se fossem um grande cérebro global, em que cada cérebro fosse uma sinapse de um neurônio. Uma ideia desenvolvida num lugar tem um efeito multiplicador muito rápido, exponencial.

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O autor observa o Monumento à Independência, no Ipiranga
iG: Por que você dedicou um capítulo inteiro de 1822 à maçonaria?
Laurentino: Porque é importante. A maçonaria funcionava no começo do século 19 como a Internacional Comunista na primeira metade do século 20. Ou seja, era um grande centro de conspiração. Os três grandes libertadores da América espanhola, Bolívar, San Martin e Bernardo O’Higgins, frequentaram a mesma loja maçônica em Londres. Quase todos os pais da independência norte-americanas eram maçons. No Brasil, José Bonifácio, Dom Pedro I. Mas tem um mito curioso, de que a maçonaria conspirou e conduziu de forma homogênea o processo de independência. Mostro que não é verdade. A maçonaria funcionou em 1822 como se fosse um protopartido político. Tem alguns centros que unem esses esforços, um deles é a maçonaria, outro é a igreja – e os dois se misturam.

iG: É um tema que atrai muitos leitores, às vezes de modo sensacionalista. Como se faz uma apuração confiável sobre um assunto tido como secreto?
Laurentino: De fato, atrai muita atenção dos leitores. Tem essa coisa de sociedade secreta, conspiração. Na Abril, quando se coloca maçonaria na capa da Aventuras da História ou da Superinteressante, as vendas vão lá em cima. E misturar curiosidades, coisas mais pitorescas, com análise mais profunda, dá molho na coisa. Achei que um capítulo de maçonaria funcionaria muito bem àquela altura do livro. Pesquisei bastante, existem bons livros sobre a maçonaria. Não sou maçom, mas tenho amigos, um irmão meu é maçom. Não sou, embora já tenha dado palestra em lojas maçônicas. Já fui convidado para ser maçom, mas não aceitei, porque acho que tenho que manter certa atitude suprapartidária. Eles me mandaram informações interessantes. Curiosamente, a maçonaria tem documentos que, ao contrário do que se imagina, não são secretos, qualquer um pode pesquisar. Há atas, estudos. É meio como clube do Bolinha, é subir na casinha da árvore e lá dentro ninguém pode ir porque tem segredo lá dentro. No fundo maçonaria é isso, um clube do Bolinha para adulto. Mas o fato é que esse clube do Bolinha funcionou como um grande centro de conspiração. Fez a independência da América espanhola, fez a Revolução Francesa. A maioria dos livros vai pelo viés de conspiração dos sábios do Sião, protocolo de Sião, porque é um jeito de apelar ao imaginário do leitor, especialmente o mais leigo. Fiz um capítulo, mas procurando não cair nessa armadilha.

iG: A esta altura você já sabe qual será o próximo livro e que número vai ter?
Laurentino: Será 1889 , e prometo que não vou fazer nenhum outro livro mais com número na capa (risos). Quero fechar uma trilogia do século 19. São as datas que explicam a formação do Estado brasileiro. É 1808, vinda da corte, 1822, independência, e 1889, república. Não posso fazer com pressa. Um perigo quando você faz uma obra best-seller é querer surfar na onda e fazer uma coisa… Para fazer com consistência é no mínimo três anos. Espero lançar em 2013, talvez. Já comecei, até porque um emenda no outro, é uma sequência, né? Depois eu gostaria muito de fazer um livro sobre a escravidão, talvez a Guerra do Paraguai, um assunto que acho que está pedindo um livro-reportagem

iG: Você enxergaria, projetado no Laurentino menino e nos seus pais agricultores, de onde viria o interesse que teria pela história do Brasil?
Laurentino: Acho que sim. Meu pai gostava muito de história. Ele passava o dia inteiro na roça, mas frequentava a igreja e gostava de ler história da igreja. Falava muito da história do Império Romano. Eu ia levar comida para ele na roça, levava a marmita que minha mãe fazia, ele sentava debaixo de um pé de café e ficava conversando comigo sobre história. Eu achava o máximo. Vem daí, talvez, a vocação.

iG: Seu livro cita que o Paraná era um pedaço desmembrado de São Paulo. Também sou de lá, às vezes não parece que é um estado que nem existe?
Laurentino: É (ri), o Paraná é um estado muito curioso, porque é um limbo na federação e está espremido entre dois povos muito fortes, que são os gaúchos e os paulistas. É um estado de formação recente, era a Quinta Comarca de São Paulo. O norte era sertão, foi desbravado há 60, 70 anos, por paulistas. Então é um estado com uma identidade cultural muito frágil, muito indefinida. É um estado intimidado. Nunca produziu um presidente da república, um grande escritor, um grande jornalista.

iG: Ninguém sabe que Sonia Braga é maringaense.
Laurentino: Ninguém sabe. O Paraná é o triunfo da classe média. É uma faixa neutra, nem se destaca pela pobreza extrema, nem por uma história exuberante, um movimento intelectual. Então me sinto muito orgulhoso de, de repente, me destacar desse cenário. O Paraná tem bons escritores, Domingos Pellegrini Jr., Dalton Trevisan, mas acho que estava na hora de o Paraná produzir alguns fenômenos nacionais, sabe?

iG: Por que você mudou de editora depois de um livro de estreia de grande sucesso?
Laurentino: A Planeta tem o mérito de ter apostado num livro em que ninguém acreditava, o 1808 , mas tive algumas dificuldades. Era uma empresa que tinha ainda uma estrutura muito precária de marketing. Errou no livro, teve uma hora que misturou meu livro com outro chamado Paixão Índia. Estava na 15ª reimpressão, eu não fui avisado, fiquei sabendo pelos leitores. É uma coisa absurda. Você estava lendo, de repente começava a falar de Indira Gandhi. Eram três capítulos, mais de 100 páginas. Houve um derrame de livros com problemas gráficos, acho que foram cerca de 10 mil exemplares. Isso acontece, mas eu queria ser avisado imediatamente, e principalmente que a editora tivesse uma atitude de fazer um recall de livros, avisar. Não, até hoje estou recebendo e-mails de leitores. Então troquei por essas dificuldades, mas também porque o projeto da Nova Fronteira é muito legal. Vão fazer um projeto multimídia, vai sair o livro adulto, em janeiro o infantil, o livro digital.

iG: Isso aconteceu também no outro, não?
Laurentino: Sim, mas foi a fórceps. Este agora o editor está propondo. Vai fazer o audiolivro, que quem narra é o Pedro Bial. Me encantou, achei legal. Daqui para frente a gente tem que pensar multimídia.

Leia também a primeira e segunda parte da conversa.

Assista ao vídeo abaixo e descubra como nasce um best-seller:

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