Traumas ainda atormentam testemunhas do 11 de Setembro

Ao menos 10 mil bombeiros, policiais e civis expostos aos ataques do WTC desenvolveram estresse pós-traumático ou outro distúrbio

The New York Times |

Na segurança do consultório de seu terapeuta, no fim de 2001, Margaret Dessau gravou uma fita em que revivia o que foi para ela olhar pela janela de sua sala depois de ter ouvido a explosão de um avião sequestrado a oito quarteirões de distância.

Correndo nua de seu banho, ela viu pombos e papel voando pelo ar. "É quase belo, de certa maneira", lembrou ela na gravação que fez e ouviu muitas vezes como parte de seu tratamento. "Havia peças de prata simplesmente flutuando no ar."

Até seu olhar encontrar o buraco na torre. "As chamas começaram a piorar e então eu comecei a ver todas pessoas penduradas lá fora. Um cara com uma toalha branca, acenando", disse ela. Ele salta. Crianças em um escola próxima gritam.

"Como você está se sentindo?", seu terapeuta David Bricker pergunta na fita. "Eu começo a chorar", ela responde. O marido de Dessau grita para ela: "Pare de olhar, pare de olhar." Mas, ela diz: "Não consigo me afastar dali."

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Margaret Dessau, que testemunhou os ataques ao World Trade Center de sua janela, buscou tratamento para superar o trauma
Uma consequência do impacto psicológico do 11 de Setembro é certa: ao menos 10 mil bombeiros, policiais e civis expostos aos ataques terroristas ao World Trade Center desenvolveram estresse pós-traumático. Em uma espécie de luto em massa, muitos deles ainda têm de se recuperar, de acordo com dados compilados pelos três programas de saúde do 11/9 de Nova York.

Em entrevistas ao longo dos últimos meses, Dessau e outros revelaram um conjunto amplo, mas consistente, de sintomas. Eles não conseguem dormir. Eles revivem o desastre em suas mentes ou em seus pesadelos. Têm dificuldade de concentração, ficam constantemente nervosos e reagem de forma exagerada a alarmes ou ruídos altos. Eles se sentem desamparados, sem esperança, culpados e afastados das pessoas mais próximas a eles. Além disso, evitam qualquer coisa que lembre daquele dia terrível.

Milhões de dólares serão gastos para tratá-los ao longo dos próximos anos através do Ato Zadroga James de Saúde e Remuneração do 11 de Setembro, aprovado pelo Congresso em dezembro, que prevê US$ 4,3 bilhões para compensar e tratar pessoas com doenças relacionadas à data.

O financiamento federal para o tratamento de estresse pós-traumático foi limitado a bombeiros, policiais, funcionários do instituto médico de Nova York que lidaram com os restos mortais, e outros funcionários de resgate, recuperação e limpeza que trabalharam no Marco Zero (onde ficavam as Torres Gêmeas) e nas barcaças que levaram os escombros para o aterro de Staten Island onde as torres foram sepultadas. Também receberam ajuda os responsáveis por responder ao ataque ao Pentágono e à queda de um avião sequestrado em Shanksville, na Pensilvânia, além de pessoas expostas à poeira criada imeadiatamente pelo colapso dos prédios ou que viviam, trabalhavam ou frequentavam escolas ao sul da Rua Houston, em Manhattan, e em partes baixas do Brooklyn, onde a poeira pode ter chegado.

Membros da família dos bombeiros de Nova York que morreram recebem cobertura como continuação de um programa de aconselhamento existente no Corpo de Bombeiros, mas os parentes de outras vítimas não. A representante Carolyn B. Maloney, democrata de Nova York, e a principal patrocinadora do Ato Zadroga na Câmara, disse que uma vez que as famílias das vítimas foram cobertas pelo fundo de compensação original, que pagou uma média de US$ 2,1 milhões para cada família, o objetivo é cuidar de outras pessoas que sofreram. "Estávamos concentrados em cobrir as pessoas que não morreram no 11 de Setembro, mas aquelas que foram morrendo ou ficando doentes por causa dos atentados", disse.

Detetive

A lei recebeu o nome de um detetive da polícia de Nova York que participou nos esforços de resgate e mais tarde desenvolveu complicações respiratórias. A causa de sua morte, em 2006, ainda é fonte de debate.

John Howard, que supervisiona os programas de saúde relacionados ao 11 de Setembro como diretor do Instituto Nacional para Segurança e Saúde Ocupacional, disse em uma entrevista que ele estava disposto a dar às pessoas o benefício da dúvida sobre o estresse pós-traumático, mesmo se elas tivessem outras fontes de estresse. "O colapso de 220 andares de uma grande quantidade de material em uma das cidades mais densamente povoadas do mundo é um evento muito singular", disse Howard. "Na saúde mental, você tem de tratar a pessoa por completo e não pode realmente separar alguns fatores, como estresses pessoais, questões econômicas. As pessoas estão vivendo suas vidas."

Por causa das persistentes dúvidas sobre os limites do diagnóstico do estresse pós-traumático, que tem apenas três décadas, as pessoas com problemas mentais só recebem assistência ao tratamento, enquanto pessoas com doenças físicas - na maioria dos casos dificuldades respiratórias - recebem o tratamento e a compensação. E o dinheiro disponível para tratar pacientes com o transtorno de estresse pode diminuir se o governo concluir que há uma ligação entre certos tipos de câncer e o 11 de Setembro, o que daria a pacientes com câncer acesso ao mesmo dinheiro. Os médicos estão esperando um aumento nos pacientes com estresse pós-traumático com o aniversário de 10 anos dos ataques, como acontece a cada ano que a data se aproxima.

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Muitos bombeiros que participaram do resgate às vítimas no 11 de Setembro sofreram algum tipo de estresse (11/9/2001)
Charles Figley, professor de saúde mental na Escola de Serviço Social da Universidade de Tulane e ex-fuzileiro naval, avançou o conceito de estresse pós-traumático em um livro de 1978 sobre os veteranos da Guerra do Vietnã. Ele disse que uma razão para ser tão difícil de abandonar o trauma é o fato de ele ter abalado as áreas mais comuns da vida. O Marco Zero, por exemplo, não é uma colina distante no Afeganistão que as pessoas nunca mais verão. "São lugares que você vê todos os dias, onde pediu sua esposa em casamento, onde você lembra de ter recebido a notícia de uma promoção, onde seus filhos brincavam", disse Figley. "Você entra em uma zona de combate e depois vai embora. Volta o tempo todo aquele lugar.”

Doença antiga

A Ilíada a descreve como guerreiros consumidos por sentimentos de raiva, culpa e tristeza. A Primeira Guerra Mundial classficava-a de "choque de combate" e a Segunda Guerra Mundial de "fadiga de combate”. A síndrome de estresse pós-traumático foi encontrada em sobreviventes de campos de concentração nazistas, incêndios e acidentes ferroviários. Mas apenas em 1980, após a Guerra do Vietnã, o estresse pós-traumático foi adicionado à bíblia psiquiátrica, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

O manual atual diz que o estresse pós-traumático pode se desenvolver por meio de uma série de exposições a morte ou ferimentos: o envolvimento pessoal direto, testemunhando o fato ou, tratando-se de alguém próximo, apenas saber sobre ele. Quase nenhum outro diagnóstico psiquiátrico tem causado  tanta controvérsia, de acordo com Robert L. Spitzer, professor de psiquiatria aposentado da Universidade de Columbia e especialista em classificações de transtornos mentais. Ele é tão vago que estudantes universitários estressados e pessoas que assistem a filmes de terror podem se encaixar no perfil, segundo escreveram ele e dois outros especialistas em um artigo publicado em um jornal da área.

"É uma maneira de dizer: algo terrível aconteceu comigo e fui danificado de alguma maneira, mas isso não significa necessariamente que é uma doença", disse Spitzer, que defende critérios mais rigorosos.

Televisão

Alguns especialistas desconfiam de estudos que demonstram que pessoas desenvolveram o transtorno ao ver a cobertura televisiva do 11 de Setembro. (O Congresso efetivamente excluiu os telespectadores de seu programa de tratamento, exigindo que as vítimas tenham, ao menos, vivido ou trabalhado dentro de certos limites geográficos.)

Amy Cushing-Savvi, uma assistente social no Centro Médico Mount Sinai, em Nova York, que administra o maior programa governamental, disse que um tema frequente nas reuniões de equipe é: "O que é o 11/09 e o que não é?" – em outras palavras, a difícil questão de como separar os efeitos do 11/09 dos traumas da vida cotidiana.

Os pacientes no Mount Sinai encontram um labirinto de corredores cheios de salas onde são divididos em três categorias: verde (sem uma avaliação mais aprofundada necessária), amarelo (potencialmente sintomático) e vermelho (sintomas tão severos que podem ser suicidas). Eles começam a triagem em casa, com o preenchimento de um questionário de 11 páginas que pergunta sobre o seu nível de energia, com que frequência eles se sentem "calmos e pacíficos", e experiências de vida recentes, como a perda de um emprego ou o fim de um relacionamento.

Em uma seção chamada Lembretes do 11 de Setembro, eles são questionados sobre possíveis pensamentos recorrentes do desastre e se acabam se sentindo emocionalmente afastados de pessoas próximas a eles. Em uma conversa com um médico, o paciente é questionado se "muitas vezes acredita que estaria melhor se estivesse morto", "se tem a sensação de ser inútil" ou "se acaba se sentindo culpado, mesmo que não mereça se sentir assim".

Se forem diagnosticados com a síndrome de estresse pós-traumático, os pacientes são geralmente submetidos a uma combinação de psicoterapia e remédios, geralmente antidepressivos e pílulas para dormir. Muitos pacientes são encorajados a fazer gravações de suas memórias, como Dessau fez, ou a escrever sobre elas até que percam a força, em um processo chamado de terapia de exposição.

Números desconhecidos

É impossível dizer quantas pessoas têm estresse pós-traumático relacionado ao 11 de Setembro. Os três programas oficiais de Nova York não contam as pessoas, como Dessau, que usam médicos particulares – ou aquelas que não foram tratadas.

De acordo com números fornecidos pelos programas do Corpo de Bombeiros, que trata seus próprios empregados, um consórcio de hospitais liderado pelo Centro Médico Mount Sinai, que trata policiais e agentes de resgate, e o sistema de hospitais públicos da cidade, que trata civis, pelo menos 10 mil pacientes preencheram os critérios na última década, e pelo menos 3,6 mil deles ainda têm sintomas.

Mas mesmo esses números arredondados têm um asterisco: 3 mil dos 10 mil pacientes foram tratados pelos hospitais públicos, cujas estatísticas não fazem diferenciação entre síndrome de estresse pós-traumático, depressão e ansiedade. O programa Zadroga cobre os três, juntamente com transtorno do pânico, abuso de substâncias e alguns outros distúrbios.

Extrapolando a partir de um registro de pessoas expostas aos ataques, o Departamento de Saúde de Nova York estima que 61 mil das 409 mil pessoas na área do desastre “provavelmente” desenvolveram algum sintoma de síndrome de estresse pós-traumático dentro de seis anos desde o 11 de Setembro. Mas esses números foram levantados por instituição e um governo da cidade com dois objetivos principais: fazer com que o maior número possível de pessoas se sinta melhor e tentar convencer o Congresso a fornecer um fluxo constante de dinheiro para tratamento.

Os programas de saúde da cidade desenvolveram um sistema em que cada paciente é avaliado para doença mental, bem como física, e os hospitais públicos estenderam a mão para os nova-iorquinos com propagandas do metrô que diziam: "Viveu lá? Trabalhou lá? Você merece cuidados."

Ninguém pode dizer exatamente quantas pessoas foram expostas aos ataques, e quantas ficarão física ou mentalmente doentes. O governo federal permitirá que os programas do Mount Sinai e de hospitais públicos cresçam até 25 mil pacientes ao longo dos próximos cinco anos. Caberá a cada programa decidir quem se qualifica para tratamento, mas eles terão de usar critérios uniformes aprovados pelo governo. A terapia pode custar US$ 135 por uma sessão semanal de 45 minutos com um psicólogo ou US$165 com um psiquiatra.

Se o governo encontrar uma ligação entre a poeira do 11 de Setembro e câncer, haverá preocupação com a falta de verba, embora o fundo Zadroga deva ser uma fonte de pagamento secundária, cobrindo o que os planos de saúde e indenizações dos trabalhadores não cobrem.

John Howard, administrador federal para programas de saúde relacionado ao 11 de Setembro, disse que o governo "tratará as pessoas como elas vierem e na medida do possível".

*Por Anemona Hartocollis

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