Sem querer, Jack Bauer personifica o 11 de Setembro na cultura americana

Série de TV capturou os modos e o sentimento norte-americano na era da "guerra ao terror"

Thiago Ney, iG São Paulo |

Levou algum tempo para o 11 de Setembro ser digerido pelo cinema e pela literatura. Foi a televisão que absorveu mais rapidamente o impacto causado pelos ataques comandados por Osama Bin Laden - mesmo sem querer.

O seriado "24 Horas" foi idealizado, escrito, produzido e começou a ser filmado antes do 11 de Setembro. Estreou nos EUA oito semanas depois. Mas a ideia central do programa - um agente americano que faz uso de qualquer método para lutar contra o terrorismo - capturou os modos e o sentimento americano na era da "guerra ao terror".

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Kiefer Sutherland como Jack Bauer em "24 Horas"

Se a doutrina Bush usava eufemismos para classificar atos de tortura (como "afogamento simulado" ), Jack Bauer, o herói de "24 Horas", escancarava na TV: "nós somos os mocinhos, eles são os bandidos, faremos qualquer coisa para derrotá-los". O New York Times constatou, em reportagem sobre a série logo após seu lançamento, a "extrema convergência entre a vida real e a fantasia hollywoodiana".

A terceira temporada de "West Wing" foi ao ar em outubro de 2001 com um episódio especial, escrito às pressas e que não guardava conexão com o restante do programa (tratava de religião e intolerância). O seriado introduziu o 11 de Setembro em seu roteiro ainda na terceira temporada, quando o presidente dos EUA autoriza a morte de um terrorista árabe.

E foi na estreia da 27ª temporada do "Saturday Night Live", em 29 de setembro de 2001, o meio escolhido por Rudolph Giuliani, então prefeito de Nova York, para conclamar aos nova-iorquinos: "Nossa vida tem de voltar ao normal. Vamos voltar a sorrir."

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Michael Moore em "Fahrenheit 9/11"
No cinema, o assunto começou a ser retratado primeiro por "11 de Setembro", que em 2002 reunia uma série de filmes curtos de diversos cineastas (como Amos Gitai, Sean Penn, Alejandro González Iñárritu e Ken Loach). Em 2004, Michael Moore lançou o seu "Fahrenheit 9/11". Moore foi acusado de manipular situações para alimentar as suas acusações contra o governo Bush - mesmo assim, tornou-se o documentário mais rentável da história do cinema e ganhou a Palma de Ouro em Cannes.

Mas, na guerra ao terror, ainda não havia um vencedor. Então Hollywood tratou a questão mirando as câmeras para os heróis da vida real. "Voo United 93" (2006), de Paul Greengrass, reconstitui o sequestro do avião que supostamente tinha a Casa Branca como alvo. O avião que seria usado no ataque caiu na Pensilvânia após os passageiros tentarem retomar seu controle dos sequestradores. Também em 2006, em "World Trade Center", Oliver Stone dramatiza a atuação dos bombeiros de Nova York.

Se ampliarmos o olhar, chegamos até a "O Cavaleiro das Trevas". Batman vai a Hong Kong atrás de um criminoso. O super-herói captura o bandido e o leva de volta a Gotham (Nova York?). Batman, como Jack Bauer, não se submete a leis internacionais ou a acordos bilaterais entre países - faz o que julga ser necessário para fazer justiça. Estamos em 2008.

Talvez o mais celebrado produto cultural relacionado aos EUA pós-11 de Setembro seja "Guerra ao Terror". Com uma câmera nervosa nas mãos, Kathryn Bigelow coloca o máximo de realismo possível à atuação de um esquadrão antibombas que atua no Iraque. Chegou aos cinemas em 2008 e ganhou seis Oscar - incluindo filme e direção. Os prêmios impulsionaram Bigelow a outro projeto: um filme sobre a caça a Osama bin Laden, atualmente em pré-produção.

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Cena de "Guerra ao Terror"

Se em "Voo United 93" Paul Greengrass abordava o heroísmo dos passageiros que impediram um atentado, em "Zona Verde" (2010) ele volta suas lentes à farsa que apontava o Iraque como detentor de armas de destruição em massa. O tema - que levou os EUA à guerra contra Saddam Hussein - está também em "Jogos do Poder" (2010). Baseado em história real, exibe Naomi Watts como a espiã americana que tem sua identidade revelada por um assessor do vice-presidente dos EUA, em represália ao seu marido, que denunciava a falsidade das acusações contra o Iraque.

O cinema e a literatura pós-11 de Setembro vão se unir em "Extremamente Alto e Incrivelmente Perto", filme de Stephen Daldry, com Tom Hanks e Sandra Bullock, que deve estrear no início de 2012. É baseado no livro de mesmo nome de Jonathan Safran Foer, elogiado jovem (34 anos) escritor americano. O romande tem como personagem Oskar, menino cujo pai morreu nos ataques ao World Trade Center - Safran Foer mora em Nova York.

Saindo da ficção, "O Vulto das Torres" é uma extensa, detalhista e precisa reportagem de Lawrence Wright sobre a família Bin Laden, a Al-Qaeda e as ações que levaram ao 11 de Setembro. Foi lançado no Brasil pela Companhia das Letras.

Já "Fireboat", de Maira Kalman, trata de John J. Harvey, um navio-bombeiro que, em 1995, foi aposentado porque Nova York não precisaria mais de navios-bombeiros. Harvey foi salvo da destruição por um grupo de amigos. Até que em 2001 os bombeiros de Nova York pedem que Harvey volte à ativa - para ajudar a apagar os incêndios do 11 de Setembro.

Voltando à ficção, o premiado Ian McEwan narra em "Sábado" um dia na vida de um médico casado e pai de dois filhos. No sábado em questão, estamos às vésperas da Guerra do Iraque e Londres ferve com manifestações antiguerra. Don DeLillo se aproximou do assunto em "Homem em Queda", sobre um advogado que sobrevive ao ataque ao World Trade Center e reavalia sua vida.

E William Gibson (criador do cyberpunk) repensa o mundo pós-11/9 em "Reconhecimento de Padrões", no qual uma caçadora de tendências tem o pai (um agente da CIA) desaparecido durante os atentados terroristas.

Nos quadrinhos, há o recém-lançado (no exterior) "The Big Lie", no qual uma viúva viaja no tempo para tentar alertar seu marido, morto no ataque às Torres Gêmeas. "We Shall Never Forget 9/11" (Nunca Devemos Esquecer o 11 de Setembro) acaba de ser lançado nos EUA. Recheado por ilustrações, o livro é direcionado ao público infanto-juvenil. Uma das imagens mostra um fuzileiro americano metralhando Osama Bin Laden. Sobre o desenho, Wayne Bell, da editora Really Big Coloring Books, afirma: "Se você bombardear nosso país, a América vai te caçar até o fim do mundo. É o que mostramos."

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