Revoltas no mundo árabe rejeitam lógica radical do 11 de Setembro

Ao buscar solução própria para problemas internos, Primavera Árabe recorre à fórmula inversa dos ataques de 2001

The New York Times |

Pouco depois que o presidente Hosni Mubarak do Egito foi expulso do poder , membros de grupos radicais islâmicos tomaram as ruas do Cairo em protesto. Isso rapidamente alimentou o mesmo medo ocidental que durante décadas ajudou a justificar o apoio a ditadores do Oriente Médio: a democracia pode permitir que os muçulmanos fundamentalistas cheguem ao poder.

Mas essa percepção – ainda muito difundida no Ocidente – deixou de levar em conta uma transformação que ocorria. Esses mesmos islâmicos radicais, que antes adotavam a ideologia de rejeitar a participação em sociedades consideradas não-islâmicas, incluindo a sua, agora estavam comprometidos com os seus companheiros cidadãos. Pacificamente envolvidos.

The New York Times
Egípcios pedem saída de ex-oficiais do governo de Hosni Mubarak, na Praça Tahrir, no Cairo (1/4/2011)

"Nós acreditávamos que o uso da violência era o único caminho para a mudança, porque todas as outras portas estavam fechadas para nós", disse Gamal El Helali, 49, membro do Grupo Islâmico, que já permaneceu preso por dez anos no Egito. "A revolução abriu a porta para uma mudança pacífica."

Para o Oriente Médio árabe, alguns momentos da história moderna marcaram claramente o fim de uma era e o início de outra, como os ataques de 11 de setembro de 2001, e o movimento da Primavera Árabe de 2011. De forma fundamental, ambos acontecimentos ajudaram a definir a imagem dos árabes muçulmanos, para eles mesmos e para o mundo. Ambos mudaram a natureza da governança, da política e do pluralismo no mundo árabe, e criaram uma incerteza preocupante sobre o futuro. Mas é aí que as semelhanças acabam.

"Quando o 11 de Setembro aconteceu, o sentimento geral era de declínio, de incapacidade de mudar a nossa situação", disse Amr Hamzawy, um cientista político que está formando um partido político secular e liberal no Egito. "Mas agora a história é diferente. Estamos vivendo à altura dos desafios e pagando o preço."

Os ataques do 11 de Setembro foram em parte inspirados por uma ideologia radical e a crença de que os problemas fundamentais que assolam o povo árabe e muçulmano poderiam ser resolvidos atacando potências estrangeiras - aquelas que apoiavam os ditadores, promoviam a cultura ocidental, oprimiam o Islã e corrompiam a civilização.

A Primavera Árabe transformou essa fórmula de dentro para fora, negando as premissas fundamentais de um mundo que fomentou o surgimento de Osama bin Laden. Maiorias árabes, ainda abrigando ressentimento em relação às políticas ocidentais, são as primeiras a buscar mudanças internamente, culpando seus próprios líderes pelo declínio político, econômico e cultural que já dura décadas. Há um grau de introspecção social em curso que era inútil em sociedades totalitárias que desencorajavam, e muitas vezes puniam, a participação cívica.

"O 11 de Setembro é irrelevante agora", disse Tantawi Tamer, 31, executivo de uma empresa de petróleo no Egito. "Eu tenho questões muito mais importantes para me preocupar, como os acontecimentos no Egito, a revolução, como será a nova Constituição, quem será o próximo presidente. Assuntos internos tornaram-se muito mais importante do que o 11 de Setembro."

Ao mesmo tempo, o chamado para mudança está sendo avançado – com sucesso histórico – principalmente por protestos pacíficos. Embora a revolta na Líbia tenha evoluído para um conflito civil, e na Síria milhares de pessoas tenham sido mortas pelas forças do governo, o sucesso no Egito e na Tunísia convenceram pelo menos alguns radicais islâmicos de que devem dar ao processo democrático uma chance. O resultado pode vir a ser desorientador para as noções ocidentais de estabilidade e segurança, se as revoluções levarem a um Oriente Médio mais islâmico –, mas um que é menos violento, pelo menos em relação ao uso do terrorismo para fazer avançar uma agenda política.

AFP
Mais de 5 mil tunisianos seguram cartaz em que se lê 'Salve a revolução' durante protesto silencioso na capital, Túnis

"Há uma nova convicção de que os protestos, as greves e a ação civil são mais eficazes do que a luta e a força", disse Marwan Shehadeh, especialista em grupos islâmicos e ideologia radicais baseada em Amã, na Jordânia.

A Irmandade Muçulmana, que há muito tempo repudia a violência, tem participado do processo político a muitos anos na Jordânia e Egito. Mas agora, disse Shehadeh, aqueles que se identificam como jihadistas, os chamados salafistas, também estão participando. O resultado, segundo ele, vai forçar uma disputa de ideias entre os moderados e os radicais, que durante décadas foram capazes de vender sua forma de pensar para um público reprimido pelo fracasso do processo político em produzir mudanças.

"Na Jordânia, por exemplo, há uma mudança na visão e prática dos salafistas jihadistas na medida em que agora acreditam na ação pacífica", disse ele, reconhecendo que a nova abordagem ainda poderia ser prejudicada caso fracassem nas urnas, ou sejam marginalizados pelos novos governos. "Eles realizaram várias marchas pacíficas."

De muitas maneiras, a Primavera de Árabe reformulou o mundo árabe com aquilo que emergiu após o 11 de Setembro. Paradoxalmente, os ataques da Al-Qaeda ajudaram a reforçar o status quo que queriam destruir, dando espaço de manobra para árabes que contavam com o medo e a repressão para preservar a sua autoridade. O Ocidente continuou a subjugar as preocupações com os direitos humanos e a democracia usando o medo do terrorismo.

"Estamos falando de dois mundos diferentes – um fortaleceu os regimes, sistemas secretos e ditadura e agiu exatamente contrário às exigências da democracia e da liberdade", disse Abdulkhaleq Abdullah, professor de ciência política na Universidade Emirados Árabes Unidos. "E o outro tem fundamentalmente derrubado ditaduras que estiveram no poder por décadas e trazido aos árabes o momento da liberdade, que é o que estamos vivendo."

As revoltas árabes reformularam a região de formas menos palpáveis também. Em termos de identidade, a Al-Qaeda e o 11 de Setembro ajudaram a transformar os árabes no bicho-papão contemporâneo – substituindo os soviéticos da Guerra Fria como o protótipo do vilão de Hollywood. O terrorismo fortaleceu uma imagem dos árabes como violentos, afirmam muitos especialistas, e entre muitos árabes formou a insegurança e uma auto-imagem perturbadora . Ao lidar com qualquer pessoa do Ocidente após os ataques, muitos árabes e muçulmanos disseram que sentiam como se quase sempre precisassem primeiramente provar que não eram terroristas.

A Revolução Jasmine, que derrubou o ditador da Tunísia, Zine el-Abidine Ben Ali, e o movimento subsequente que derrubou o presidente Mubarak pelo menos ofereceram uma narrativa alternativa. Porém mais importante ainda é que as revoltas populares poliram a auto-estima de muitos moradores da região, oferecendo um antídoto para os sentimentos de inferioridade e vitimização sistêmica.

"Hoje, eu não tenho vergonha de dizer que sou egípcio", disse Amgad Shebl, 35, um engenheiro de som do Cairo. "Nós fomos capazes de ganhar o nosso respeito como uma nação."

E com esse aumento na auto-estima, já existe uma expectativa, não apenas de que os seus governos ouçam e acatem as suas opiniões, mas também de que o Ocidente deixe de lado os seus estereótipos e preconceitos.

"Eu acho que o ocidental deve reavaliar muitos estereótipos que tem sobre os árabes", disse Alaa Al Aswany, um famoso autor egípcio e crítico social. "Por exemplo, o estereótipo de que as mulheres com véus são impotentes ou que cobrir o rosto significa que você não é uma independente."

Aswany disse ter percebido que a Primavera Árabe foi o movimento oposto ao 11 de Setembro não muito tempo atrás, durante um encontro semanal que realiza no Cairo. Seu tradutor francês, Gilles Gauthier, aproximou-se dele. "Osama bin Laden", disse o tradutor, "não morreu ontem, mas ele foi morto no dia 25 de janeiro."

Esse foi o dia que teve início a revolução egípcia.

* Por Michael Slackman e Mona El Naggar

    Leia tudo sobre: ocidenteprimavera árabeegitomubarak11 de setembro

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG