Projeto de Torres Gêmeas contribuiu para mortes no 11 de Setembro

Falhas nos procedimentos de resgate também aumentaram poder de ataques, que não foram frustrados por erros de inteligência e do governo

Carolina Cimenti, de Nova York, especial para o iG |

Não há dúvidas de que o emprego de aviões comerciais como mísseis contra duas das estruturas mais altas do planeta teriam como consequência ataques mortais e disseminação do pânico. Mas uma série de erros dos construtores e das equipes de resgate , antes e durante os atos contra o World Trade Center (WTC) no 11 de Setembro , potencializaram enormemente os efeitos dos atentados - que não foram frustrados por erros de inteligência e do governo e também tiveram como alvo o Pentágono e um avião que caiu na Pensilvânia. (Veja infográfico com cronologia do 11 de Setembro) .

Por causa desses fatores, as Torres Gêmeas do WTC acabaram se tornando armas de destruição muito mais potentes do que esperavam e sonhavam os terroristas que as atacaram.

AFP
Torre do Sul do World Trade Center entra em colapso no 11 de Setembro de 2001 em Nova York
É como se o destino dos 2.753 mortos no WTC, principalmente as quase 1.950 vítimas que estavam nos andares diretamente atingidos pelos aviões ou acima deles, tivesse sido selado um pouco mais de quatro décadas antes dos atentados.

Falhas na disposição das escadas de emergência, na estrutura do prédio, na resposta do governo a ameaças de ataques e no treinamento dos bombeiros e policiais para o caso de uma tragédia são alguns dos elementos que aumentaram a capacidade mortal dos atentados terroristas do 11 de Setembro. (Conheça os dez problemas que ampliaram o poder de detruição dos ataques)

Três perguntas simples: (1) as torres podiam realmente absorver o impacto de um avião em pleno voo?; (2) o sistema anti-incêndio dos prédios mais altos do país era adequado?; (3) havia saídas de emergência suficientes nos edifícios?

Segundo o ex-chefe dos bombeiros de Nova York Vincent Dunn, especialista em incêndios em prédios altos, com mais de 43 anos de experiência em sua área, as respostas para essas perguntas são: não, não e não. “Caso os ataques tivessem sido contra edifícios como o Empire State ou o Chrysler, os prédios não teriam implodido daquela forma”, afirmou Dunn ao iG .

Projeto inovador e falho

A diferença, explica, é que até 1968 todos os edifícios eram construídos com mais concreto do que atualmente, principalmente os espigões. Eles tinham 60% de concreto para 40% de aço. “A estrutura do WTC (110 andares em cada uma das torres) era muito mais frágil, totalmente revolucionária: 60% de aço e 40% de concreto. Isso tornava os prédios mais leves, o que possibilitava que fossem construídos tão alto. Isso, porém, colocava a segurança em segundo plano no caso de um incêndio”, disse.

Esse tipo de construção “revolucionária” estabeleceu uma estrutura que dificultou a tentativa dos civis de sair das Torres Gêmeas e dos bombeiros de subir para resgatá-los: em vez de ter colunas de concreto a cada dez metros, como em edifícios normais, o WTC concentrava todas as suas no centro do prédio, onde também ficavam os 99 elevadores e as escassas escadas de emergência. Assim, com o centro dos edifícios danificados pelo impacto e subquente explosão dos aviões, as pessoas nas áreas acima do impacto e mesmo nos andares atingidos ficaram praticamente sem rotas de fuga.

Segundo Dunn, ao redor da área central das torres, predominavam aço e vidro. “A parte externa dos andares praticamente não tinha concreto. Isso explica a rápida implosão de cada uma das torres (que desmoronaram de oito a dez segundos) depois dos ataques”, afirmou Dunn.

Apesar de cada uma das torres ter 110 andares e capacidade de lotação superior a 15 mil pessoas, cada uma tinha apenas três escadas de emergência - e todas muito próximas para economizar espaço e aumentar a rentabilidade dos prédios. Os elevadores provaram ser seguros e não despencaram, porém as portas eram tão hermeticamente trancadas que dificultaram, e em certos casos impossibilitaram, o salvamento de vítimas que ficaram presas dentro deles.

Além disso, houve falhas no sistema automático anti-incêndio do WTC e nunca foi feita uma simulação de incêndio para treinar uma retirada completa das Torres Gêmeas. “É impensável que dois dos prédios mais altos do mundo nunca tivessem realizado um exercício completo e com sucesso de esvaziamento”, denuncia o livro “102 Minutos - A História Inédita da Luta Pela Vida nas Torres Gêmeas”, dos jornalistas Jim Dwyer e Kevin Flynn.

Sem rotas de fuga para baixo, mesmo aqueles que tivessem a esperança de ser resgatados por helicópteros foram impedidos: as portas que davam acesso ao topo dos edifícios estavam trancadas pelo temor dos administradores de que a cobertura fosse usada para suicídios. De qualquer forma, mesmo se tivessem conseguido chegar lá, teriam suas expectativas frustradas pelo fato de que nenhum helicóptero conseguiu pousar por causa da densidade da fumaça.

Erros de inteligência

Mais graves que as falhas no projeto das Torres foram provavelmente os erros cometidos pelo governo e pela inteligência americanos , que eventualmente poderiam ter frustrado os ataques se tivessem agido diferentemente.

A Comissão de Investigação do 11 de Setembro, aberta pelo Congresso Americano, e a pesquisa independente que se tornou o livro “O Vulto das Torres: A Al-Qaeda e o Caminho até o 11/9”, que rendeu ao jornalista americano Lawrence Wright o Prêmio Pulitzer de não-ficção em 2007, apontam enormes problemas de comunicação entre a CIA e o FBI em relação a investigações e ameaças da rede terrorista Al-Qaeda.

De acordo com a comissão, o próprio governo federal americano faltou gravemente com os seus cidadãos ao não dar atenção a essas ameaças. Segundo seu relatório final, “George W. Bush e outros membros do governo receberam, mais de um mês antes dos ataques - em 6 de agosto de 2001 -, um relatório chamado 'Bin Laden Determinado a Atacar em Solo Americano’”. Detalhe: os atentados foram elaborados, planejados e postos em prática durante um período de dois anos dentro dos EUA.

Falhas no salvamento

Muitas das falhas nos trabalhos de resgate no 11 de Setembro foram repetições dos que ocorreram oito anos antes, em 26 de fevereiro de 1993, quando terroristas explodiram um caminhão carregado de bombas no subsolo da Torre Norte do WTC.

Os rádios dos bombeiros não funcionaram na maior parte do tempo , impedindo a vital comunicação entre aqueles que subiam em direção aos incêndios e os que administravam as equipes no lobby dos edifícios. Esses rádios usavam frequências diferentes das usadas pelos policiais, desperdiçando informações importantes.

AFP
Bombeiros observam destroços de uma das torres do World Trade Center, em Nova York, depois de seu colapso nos ataques do 11 de Setembro de 2001
Além disso, os bombeiros carregavam muito peso, impedindo que subissem as escadas com rapidez. E, finalmente, as equipes de saúde e ambulâncias não estavam preparadas para um evento daquela magnitude, não sabendo onde estacionar os veículos e como exatamente se mover em meio ao caos.

É preciso, porém, reconhecer que alguns aprimoramentos na segurança das torres foram feitos nos anos seguintes ao ataque de 1993: os administradores modernizaram as escadas de incêndio, adicionando iluminação de emergência com baterias extras e fita fosforescente nos degraus para o caso de um apagão.

Um sistema de som foi instalado em todo o edifício para informar as pessoas para onde deveriam se dirigir no caso de uma emergência (ele, porém, foi danificado pelos aviões e não funcionou no dia dos ataques). Também foram feitas mudanças estruturais no shopping center que ficava no subsolo do WTC. Meia dúzia de lojas foram fechadas e substituídas por corredores para aumentar a área de saída de emergência. Uma outra medida importante de segurança foi fechar a garagem do WTC para o público.

É possível comparar a queda das torres com o acidente que afundou o navio Titanic em 1912. Dois terços dos 2.227 passageiros do Titanic morreram, mesmo quando o navio levou mais de três horas para afundar. Investigadores descobriram que as principais causas de tantas mortes foram: pouca preparação para o caso de um acidente, problemas graves de comunicação a bordo, confusão durante o processo de salvamento e um número inadequado de barcos salva-vidas.

Dez anos depois dos ataques, o Departamento de Bombeiros, o Departamento da Polícia e a prefeitura de Nova York dizem estar infinitamente melhor preparados para o caso de um ataque ou um grande incêndio parecidos com os do 11 de Setembro. “Lições foram aprendidas e providências foram tomadas para melhorar o treinamento dos nossos homens em caso de emergências”, afirmou Francis Gribbon do corpo de bombeiros de Nova York.

Assista ao vídeo sobre os ataques do 11 de Setembro:

    Leia tudo sobre: wtc11 de setembronova yorkterrorismotorres gêmeas

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG