Pai de brasileira morta no 11 de Setembro vive em silêncio

Ao iG, prima de Sandra Fajardo Smith conta que tio não superou morte de filha mineira, que trabalhava na Torre Norte do WTC

Denise Motta, iG Minas Gerais |

Reprodução
A brasileira Sandra Fajardo Smith, que morreu na Torre Norte do World Trade Center durante os ataques do 11 de Setembro de 2001
O dramaturgo irlandês Samuel Beckett escreveu que “cada palavra é como uma mancha desnecessária sobre o silêncio”. Várias de suas obras têm personagens que mal falam, ou falam pouco, e ainda assim mantêm o interesse de quem as lê ou assiste. Há várias explicações para a empatia entre o autor e o leitor, mas uma delas é que Beckett conseguiu mostrar aqueles momentos da vida em que não há nada a ser dito porque, simplesmente, há mais sentimentos do que palavras para expressá-los.

Antônio Fajardo Filho, pai da brasileira Sandra Fajardo Smith, não fala sobre a morte de sua filha no 11 de Setembro , aos 37 anos. Aposentado, ele passa o dia em partidas de sinuca disputadas em torneios de um clube da região da Pampulha, em Belo Horizonte, e evita abordar o assunto até com parentes.

“Meu tio não superou e se recusa a falar sobre ela”, disse ao iG Wanda Fajardo, prima de Sandra e que morava em Nova Jersey na época dos atentados de 2001. “Não concordo, acho que devemos conversar sobre a pessoa, lembrar das coisas boas, mas entendo. É raro não me lembrar da Sandra. Penso nela todos os dias.”

Sandra trabalhava no 98º andar da Torre Norte do World Trade Center (WTC) como contadora na corretora de seguros Marsh & McLennan. No dia dos ataques, ela estava no escritório quando o voo 11 da American Airlines se chocou entre os andares 93 e 99 do prédio às 8h46 daquela terça-feira.

Juntamente com a mineira de 37 anos, o governo brasileiro reconhece como vítimas dos atentados os paulistanos Ivan Kyrillos Fairbanks Barbosa , de 30 anos, e Anne Marie Sallerin Ferreira, de 29 anos, que eram colegas de trabalho no Banco Cantor Fitzgerald, no 105º andar da Torre Norte. A morte do capixaba Nilton Albuquerque Fernão Cunha não consta na lista oficial do consulado brasileiro nem da prefeitura de Nova York porque, segundo o Itamaraty, a família não enviou amostras de DNA para confirmar sua identidade.

Wanda e Sandra eram muito próximas. Poucos dias antes da tragédia, a prima estava triste em seu apartamento. Como sempre fazia nessas horas, ligou para Sandra e disse que precisava voltar ao Brasil, que não suportava mais a vida nos EUA. A contadora, “sempre com um ânimo contagiante”, mudou o tom da conversa, dizendo para ela parar com aquilo. Em 9 de setembro, aniversário de Wanda, Sandra organizou uma festa de aniversário para a prima. Sem saberem, foi a despedida das duas.

A primeira brasileira

Sandra deixou Belo Horizonte com destino a Nova York aos 25 anos e começou a trabalhar como garçonete em restaurantes de Manhattan. Com o dinheiro, pagou a faculdade de ciências contábeis e alcançou o posto de coordenadora de contabilidade da corretora. Além de Sandra, outros 355 funcionários da Marsh & McLennan morreram no 11 de Setembro.

A família, porém, ficou dois meses sem uma confirmação oficial. Apenas no final de novembro de 2001 é que Sandra foi declarada oficialmente morta pelas autoridades americanas. Ela foi a primeira brasileira reconhecida como vítima da ação terrorista. Seu corpo, porém, nunca foi encontrado .

“Prefiro não falar muito mais sobre esse assunto, por favor; não é uma indelicadeza, mas foi um terrorismo, uma coisa inesperada”, disse Wanda, que teve de cuidar de todo o processo de expedição do atestado de óbito de sua prima.

“A gente supera, sim, mas não esquece nunca”, afirmou, completando: “Todos passamos por experiências de morte, mas aquele acontecimento não foi uma morte comum. Foi a pior coisa que aconteceu na minha vida.”

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