Pai aceitou morte de brasileiro no 11 de Setembro em 'câmera lenta'

Ao iG, pai de Ivan Kyrillos Fairbanks Barbosa, que trabalhava no 105º andar do WTC, conta luta para superar perda do filho

Marsílea Gombata, iG São Paulo |

"A ficha caiu em câmera lenta." A ideia de que o filho estivesse entre os mortos do atentado às Torres Gêmeas na manhã do 11 de Setembro de 2001 estava longe de ser uma certeza para o médico Ivan Fairbanks Barbosa. Desde o momento em que viu o avião da American Airlines se chocando contra os andares 93 e 99 da Torre Norte do World Trade Center às 8h46, ele nutriu a esperança de que Ivan Kyrillos Fairbanks Barbosa, que trabalhava no 105º andar do edifício, tivesse escapado e passou o dia na frente da televisão tentando identificá-lo entre os sobreviventes correndo pelas ruas. “O pai de um garoto que também trabalhava lá disse que eles estavam conversando, e supus que estivessem lá embaixo antes de enfrentar o dia”, contou. 

Como muitos meios de transporte, como trens e barcas, e sistemas de comunicação sofreram paralisações no dia dos ataques, a família manteve a esperança apesar de o administrador de empresas não ter voltado para sua casa em New Jersey e de ninguém ter conseguido falar com ele ao telefone. “Só consegui dormir naquela noite porque achei que ele não tivesse subido. Até um ou dois dias depois não passou pela minha cabeça que ele tivesse morrido”, contou o pai.

A sensação inicial, porém, foi sendo substituída gradualmente por uma preocupação crescente, alimentada pela impossibilidade de se comunicar. Sem notícias, o pai continuou olhando a televisão obsessivamente durante os dez dias seguintes.

“Quando percebi que era também grande a possibilidade de ele estar lá em cima no prédio, passei de uma tranquilidade de que nada havia acontecido para 95% de certeza de que ele havia morrido”, lembrou. “Acho que, por uma defesa natural, as pessoas se enganam quando encaram uma coisa muito desagradável, principalmente a morte”, analisou.

Após uma promoção no Banco Cantor Fitzgerald em São Paulo, Ivan havia se mudado para New Jersey, do outro lado do Rio Hudson, cerca de um ano antes do 11 de Setembro. Longe do pai, da mãe Marilena e da irmã Roberta, ele vivia em um apartamento com sua mulher, Valéria. A ascensão profissional do filho ainda é lembrança viva na mesa do consultório do otorrino, em São Paulo, onde as Torres Gêmeas permanecem intactas. É lá que ele guarda a miniatura dos prédios destruídos por dois aviões em 2001. “Depois de um fim de semana em que achávamos que estivesse passeando no Rio, ele me trouxe isso entusiasmado e disse: ‘Vou trabalhar aqui’”, contou.

O plano do brasileiro era trabalhar um tempo em Manhattan para fazer um belo pé de meia antes de voltar ao Brasil. Na véspera do atentado, ele telefonou para o pai preocupado com a promoção que haviam lhe oferecido no Cantor. “Ele cuidava da parte de América Latina e pediram para assumir também Europa. Estava preocupado porque era um tremendo ‘upgrade’, mas falei para ele ir fundo. Comigo, ele sempre botava as cartas na mesa”, relatou.

Ivan estava adaptado e feliz nos Estados Unidos. O brasileiro tinha uma rotina de bastante trabalho e se preparava para manter no país hobbies que costumavam deixar o pai de cabelos em pé no Brasil, como correr de Fórmula Ford. “A especialidade dele era mexer com a coronária do pai. Ele gostava de tudo quanto era coisa perigosa: saltar de paraquedas, fazer pesca submarina.”

Cerca de seis meses antes do 11 de Setembro, quando o visitou pela última vez, Barbosa lembrou que o filho fez questão de levá-lo ao topo da Torre Norte com outras duas colegas de trabalho. “Brinquei: ‘Não vou deixar meu filhinho trabalhar nisso aqui de jeito nenhum. Como é que se desce daqui? Só vou deixar você vir trabalhar se vier de asa delta’”, disse o pai lá no alto. “Fiz aquilo porque sabia que ele não gostava de ser tratado como menininho e, como todos, tinha certeza de que aquele prédio era inexpugnável.”

B rasileiros

Juntamente com o paulistano de 30 anos, o governo brasileiro contabiliza como vítimas dos atentados Anne Marie Sallerin Ferreira, de 29 anos, colega de Ivan no Banco Cantor Fitzgerald também nascida em São Paulo, e a mineira Sandra Fajardo Smith, 37 anos, que trabalhava no 98º andar da Torre Norte como contadora da corretora Marsh & McLennan. A morte do capixaba Nilton Albuquerque Fernão Cunha não consta na lista oficial do consulado brasileiro nem da prefeitura de Nova York porque, segundo o Itamaraty, a família não enviou amostras de DNA para confirmar sua identidade.

Para enfrentar a perda do filho, Barbosa relata ter pensado que os ataques contra o WTC, que deixaram mais de 2,7 mil mortos em Nova York, seriam o limite máximo de terrorismo a que a humanidade pudesse chegar. Mas a ação militar lançada por George W. Bush no Afeganistão para revidar os ataques o desiludiu: “Pensei que o mundo fosse colocar a mão na consciência, mas ter uma reação contrária aos responsáveis acabou banalizando ainda mais o terrorismo.”

Depois dos atentados, mais difícil do que ter de volta as coisas do filho – tarefa que coube a Valéria, que trouxe ao Brasil alguns pertences um mês mais tarde –, foi o ritual fúnebre do adeus. “ Morte sem defunto é um inferno . As pessoas precisam ver o corpo, é um ritual”, disse, relembrando como sua ex-mulher e filha sofreram.

Hoje, as memórias que o médico tem estão mais nos objetos que guarda – como a miniatura das torres e presentes que ganhou – do que em fotografias. Tentando ancorar-se nas lembranças alegres, o que mais lhe faz falta dez anos depois é a companhia e uma relação de amizade entre pai e filho. “Éramos muito iguais. Não tínhamos barreiras”, lembrou. “Como todo pai velho no fim da vida, a gente acha que fez besteira em aproveitar pouco o filho. No meu caso, esse sintoma deve piorar.”

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