O 11 de Setembro na escola: debater preconceitos é desafio

Alunos do ensino médio brasileiros analisam nova ordem geopolítica por meio de vídeos, debates e análises

Marina Morena Costa, iG São Paulo |

Eles tinham entre 5 e 8 anos quando o mundo assistiu atônito aos ataques terroristas do 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos. Hoje adolescentes, os estudantes do ensino médio discutem, analisam e relembram em vídeos e documentários os atentados que entraram para a história como um marco na nova era mundial.

Divulgação
Alunos do Colégio Santa Amália, em São Paulo, realizam julgamento de Bin Laden
Os atentados provocaram uma forte reação belicista do governo americano, que reagiu com a guerra no Afeganistão e contra o Iraque. Debater, sem preconceitos, os reflexos que se estendem até os dias de hoje é desafio para professores e alunos . “As guerras da Doutrina Bush (George W. Bush, presidente do país à época dos ataques) foram muito caras e superendividaram o governo dos EUA. A atual crise econômica tem relação com os ataques ", analisa Fernando Rodrigues Silva, professor de geografia do colégio Santa Amália, em São Paulo.

Na última sexta-feira (9), Fernando realizou com os alunos do 3º ano do ensino médio um julgamento dos atentados de 11 de Setembro. Divididos em três grupos, os estudantes julgaram o réu Osama bin Laden , terrorista, líder da Al-Qaeda e principal responsável pelos atentados. Parte da sala levantou as motivações do ataque, outro grupo contra-argumentou e os “jurados” analisaram e condenaram Bin Laden.

Com base em textos e documentários, os alunos construíram as argumentações. “Houve um esforço da defesa de mostrar que a política externa agressiva dos EUA causou revolta e culminou nos atentados. Mas a promotoria conseguiu demonstrar a culpa de Bin Laden e provar que os atentados desataram mais violência e mais mortes”, conta Fernando Rodrigues Silva, professor de geografia e organizador do “julgamento”.

Terrorismo x Islã

Professores contam que a curiosidade que cerca os atentados é grande – principalmente sobre as teorias da conspiração –, e tentam desconstruir o senso comum em sala de aula. “Desfazemos os clichês, tanto em relação à crítica aos EUA e a Bush como sobre a relação direta do terrorismo e do islamismo, como se essa forma de contestação e guerra tivesse sido criada pelo Islã”, afirma Tarso Loureiro, professor de geografia do colégio paulistano Oswald de Andrade.

No colégio Equipe, de São Paulo, a abordagem do terrorismo também passa por destruir a imagem dos povos árabes como a de bárbaros e terroristas . “Mostramos que o terrorismo se manifesta de diferentes formas, como nos ataques recentes na Noruega ”, destaca o professor de geografia Carlos Alberto José de Carvalho.

No início do ano, os alunos do 3º ano do Equipe estudaram a cultura islâmica e visitaram uma exposição de artes sobre o Islã. “Tivemos um contato mais próximo com o mundo árabe e analisamos como o Ocidente construiu uma imagem distorcida desses povos”, lembra Erika Rosenfeld Bayer Matias, de 17 anos.

Para Tom Altman, 18 anos, o ocidente elegeu os povos árabes como “vilões”. Ele tem uma posição também radical, mas para o outro lado. “Os atentados foram uma tragédia, muitos inocentes morreram, mas acho que era um acontecimento inevitável”, opina.

O professor Carlos Alberto lembra as consequências dos atentados para a sociedade civil, que viu sua liberdade cerceada e o trânsito entre os países com limites muito mais rigorosos. “O papel da escola é alertar os alunos para essas ameaças.”

Bin Laden

Em maio deste ano, a morte de Bin Laden aumentou a curiosidade para o assunto 11 de Setembro entre estudantes. “Muitos alunos não entendiam o simbolismo da morte dele. Foi um elemento importante para falar da política externa americana, da postura mais belicista e mais agressiva que o governo passou a adotar, a base da doutrina Bush”, diz Sérgio de Moraes Paulo, professor de geografia do Mackenzie, também em São Paulo.

Sérgio vê o terrorismo como um tema transversal em geografia no ensino médio, presente em vários assuntos e lembra da própria experiência como aluno: “No dia 11 de setembro de 2001, uma professora me disse que estava inaugurada a era da imprevisibilidade. Incidentes podem acontecer numa velocidade muito maior. Sem que ninguém esteja esperando.”

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